Eu me lembro de ter escrito sobre ser mais rebelde, sobre não ter medo de contrariar as coisas, sobre viver sem precisar se curvar às expectativas alheias. Mas, ironicamente, agora me vejo contrariando a mim mesma.
Eu estabeleci limites, fiz promessas a mim mesma, decidi o que não aceitaria mais. Não por capricho, mas porque algumas experiências me ensinaram o quanto certas coisas podem doer.
Eu disse que não me relacionaria mais com mulheres que não fossem assumidas. Não queria mais ser um segredo, não queria mais precisar me contentar com os pedaços de alguém que só podia me oferecer uma parte de sua vida. Eu queria ser escolhida por inteiro, sem precisar me esconder.
E então a vida, com sua mania de ironizar as nossas certezas, me colocou novamente diante de uma situação que eu pensei ter deixado para trás.
Pela terceira vez, uma mulher que passou pela minha vida se assumiu. E eu não sei explicar o que isso desperta em mim. Só sei que me incomoda.
Talvez porque me lembre de coisas que preferia não reviver. Talvez porque me faça pensar na possibilidade de alguém estar disposto a mudar tantas coisas por mim, enquanto eu sequer desejo estar com essa pessoa.
E que merda é essa?
Eu não quero que ninguém se assuma por mim. Não quero ser a razão pela qual alguém decide enfrentar o mundo, muito menos quero carregar a sensação de que devo alguma coisa a alguém por isso.
Mas também não quero continuar fugindo de situações que me fazem questionar minhas próprias decisões.
Eu falei sobre rebeldia, sobre liberdade, sobre não precisar da aprovação de ninguém. E agora me pergunto se estou sendo fiel a mim mesma ou apenas tentando obedecer às regras que criei para nunca mais me machucar.
Talvez eu tenha confundido liberdade com controle. Talvez, depois de certas experiências, eu tenha tentado organizar a vida de tal maneira que nada pudesse me atingir novamente.
Só que não é assim que funciona.
Posso estabelecer todos os limites do mundo e ainda me deparar com situações que não sei como sentir. Posso decidir exatamente o que quero e ainda me surpreender com aquilo que não quero. Posso até escrever sobre ser livre e descobrir que também estou presa às minhas próprias certezas.
E talvez a maior contradição seja essa: querer ser livre sem saber como lidar com tudo aquilo que não consigo controlar.
Eu ainda não sei o que pensar sobre tudo isso. Não sei se estou contrariando a mim mesma ou apenas descobrindo que algumas respostas não são tão simples quanto eu gostaria.
Só sei que não quero mais viver escondida, não quero carregar sentimentos que não são meus e não quero que ninguém precise se transformar para merecer o meu amor.
Se ser rebelde significa alguma coisa, talvez seja ter coragem de olhar para as próprias contradições sem precisar fingir que elas não existem.
Mesmo quando sou eu quem não consegue entender a si mesma.