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TRECHO DO CAPÍTULO 3 Sensível Spoiler

Fe_
Pensamento

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ateucordial

Há aquele dito antigo de que não há ateus nas trincheiras. Sou ateu e a oração do Sean, de joelhos entre os ricochetes, convenceu-me na mesma. Ele pede fidelidade e pede para não voltar a encontrar-se assim, o que é o pedido de quem tem mais medo de mudar

Há aquele dito antigo de que não há ateus nas trincheiras. Sou ateu e a oração do Sean, de joelhos entre os ricochetes, convenceu-me na mesma. Ele pede fidelidade e pede para não voltar a encontrar-se assim, o que é o pedido de quem tem mais medo de mudar por dentro do que de morrer. Reconheço isso em gente sem fé.

Conteúdo da publicação

Esse é o trecho do início do POV do Sean no capítulo 3. Como vi que muitos gostaram do POV dele no capítulo 2, decidi abrir o capítulo 3 com a perspectiva dele e liberar esse trecho antes de publicar a nova versão do capítulo.

SEAN

— Senhor? — questionou um soldado próximo a Sean, batendo os dentes de frio em resposta à chuva que voltava a cair forte sobre eles.

— Atenção, soldados! — gritou o cabo Almeida enquanto se agarrava mais forte ao seu fuzil. — Ali! ATIREM!

Para meio entendedor, meia resposta bastava.

Sean e todos os outros começaram a atirar na direção em que haviam visto soldados da N.N.S., enquanto o cabo Almeida chamava o Incendiador.

Sean permaneceu no front do ataque, mesmo que não tivesse confirmação da presença dos soldados inimigos.

Não iria esperar um vampiro pular em seu pescoço para começar a atirar.

— Preciso recarregar! — gritou Sean, andando para trás e dando espaço para outro soldado tomar seu lugar enquanto ele recarregava seu fuzil.

Entre alguns espirros e tremores, ele deixou seu pente extra cair no chão, aos seus pés.

Abaixou-se para pegá-lo na lama, até sentir o chão tremendo.

Olhou de volta para o acampamento. Não podia escutar direito as ordens do cabo Almeida em meio a tantos tiros.

Mas pôde ver o resultado delas.

Do meio dos soldados que abriam caminho, ele vinha caminhando ao lado do cabo Almeida.

O Incendiador havia chegado.

Uma grande armadura de ferro e titânio, com um lançador de chamas maior que todo o seu torso, preso ao braço direito.

Era difícil imaginar que existia um homem por baixo de toda aquela brutalidade de metal.

E, de repente, diante da presença dele, os soldados da N.N.S. começaram a retribuir as balas disparadas contra eles.

Galhos e árvores inteiras foram derrubados no meio daquele mar de tiros.

O Incendiador se aproximou cada vez mais da linha de frente, onde Sean estava com alguns de seus melhores amigos.

Não fez tanta diferença de imediato.

Homens bons foram rasgados por balas, como se tivessem sido jogados dentro de um enorme liquidificador.

E, ao último passo daquela coisa no front, Sean rezou, ajoelhado em meio aos tiros e ricochetes na armadura do Incendiador:

— Só peço fidelidade a ti, Senhor. Não quero mais me encontrar assim. Preciso da tua ajuda aqui. Eu não quero mais viver longe da tua presença, meu Senhor.

Hector, um de seus amigos, tocou seu ombro e o trouxe de volta à realidade.

Pegou seu pente caído e o jogou em seu peito.

Ele gritou alguma coisa. Talvez algo sobre lutar para ver mais um dia.

Mas Sean não pôde ter certeza, já que, segundos depois, Hector foi atingido por uma rajada de um Incendiador inimigo.

Seu corpo queimou até os ossos, e sua gordura parecia gasolina para aquelas chamas.

Sean carregou sua arma e foi puxado por alguns companheiros, enquanto os dois Incendiadores se enfrentavam no front.

— Soldado! — gritou outro soldado para ele. — Carregue sua arma e volte a atirar! É uma ordem! Pelo bem de nossas vidas!

Nunca o havia visto antes, mas seu rosto era familiar. Assim como o de muitos.

Sean se levantou na trincheira para onde havia sido arrastado pelos soldados, carregou sua arma e voltou a disparar contra aqueles desgraçados.

Os Incendiadores pareciam estar trocando fogo havia um dia inteiro, mas não tinham se passado nem vinte minutos.

De repente, o silêncio tomou conta de cada um dos soldados de ambos os lados.

Os Incendiadores, que lutavam entre si por suas vidas, de repente olharam para o céu.

Os soldados foram, um a um, ficando de boca aberta, imaginando que haviam morrido ao ver tal insanidade surgindo das nuvens do céu.

Um dragão tão grande quanto Sean podia imaginar.

Desceu dos céus como um raio cortando o vento.

O silêncio deu lugar a gritos.

E logo depois, às chamas azuis.

Sean se jogou na trincheira quando aquelas chamas do alto do sol atingiram os Incendiadores e os derreteram instantaneamente.

Agarrando seu fuzil sujo de lama.

A profundidade da trincheira foi suficiente para mantê-lo vivo.

Por alguns minutos, ela teve um teto coberto por chamas azuis que tomavam conta de toda a superfície.

Seu corpo e os de seus amigos pareciam que iam cozinhar sobre toda aquela lama.

O fogo foi parando e, em um bater de asas ensurdecedor, o chão tremeu.

E o dragão não estava mais lá.

Sean, relutante, se levantou para ver o que havia acontecido.

Seu acampamento estava completamente queimado.

Algumas chamas azuis ainda estavam acesas e queimavam mesmo sob a chuva.

Podia ver todos os outros milhares de soldados e seus ossos sobre a lama.

Tirando os que não haviam virado cinzas e se misturavam à terra.

Podia-se ouvir uma onça rangindo de dor.

Sean se virou para olhar para o outro lado.

Os inimigos avançavam firmemente em direção àqueles que sobreviveram nas trincheiras.

Antes que pudesse tomar qualquer decisão, pôde sentir seu pescoço ser rasgado. Um tiro de precisão o havia atingido.

Foi na lateral do pescoço, mas o suficiente para fazê-lo cair novamente sobre a lama da trincheira, enquanto podia ouvir seus amigos serem mortos.

Pôde ouvir seus gritos e choros. Suas pragas ditas a Cristo e suas blasfêmias conjuradas a Satanás.

Pôde sentir a cor do verde que o rodeava se perder naqueles gritos, antes de desmaiar.

Thoughts

  • AmandaPeixoto

    O soldado que dá a ordem e que o Sean nunca viu, mas que tem rosto conhecido, ficou na minha cabeça. Aposto que esse rosto volta mais pra frente, e não do jeito que ele espera.

    Permalink
  • ateucordial

    Há aquele dito antigo de que não há ateus nas trincheiras. Sou ateu e a oração do Sean, de joelhos entre os ricochetes, convenceu-me na mesma. Ele pede fidelidade e pede para não voltar a encontrar-se assim, o que é o pedido de quem tem mais medo de mudar por dentro do que de morrer. Reconheço isso em gente sem fé.

    Permalink
  • vqueiroz90

    Rapaz, tô com o pé atrás com esse cabo Almeida. Bastou ele chamar o Incendiador pros N.N.S. começarem a responder fogo. Eles sabiam que ele vinha?

    Permalink

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