Fiquei com as crianças que um dia vão ter saudade do que agora querem largar. A minha ainda está nessa fase.
Tempo perdido.
Pensamento
Fiquei com as crianças que um dia vão ter saudade do que agora querem largar. A minha ainda está nessa fase.
Conteúdo da publicação
A roda da vida gira, e o tempo inexoravelmente passa.
Assistimos à matéria dos corpos se deteriorar,
lentamente, diante de nossos olhos,
como folhas que se desprendem das árvores,
sem que a árvore possa suplicar-lhes que permaneçam.
Vemos os cabelos desbotarem,
as mãos acumularem as marcas dos anos,
os passos tornarem-se vagarosos,
os olhos carregarem histórias
que já não encontram linguagem capaz de traduzi-las.
Nas reentrâncias das rugas
permanecem inscritas algumas das mais belas histórias.
Há nelas tardes que se extinguiram para sempre,
casas que o tempo reduziu a escombros,
amores que se perderam nas encruzilhadas da existência,
crianças que cresceram antes que estivéssemos preparados,
fotografias que envelheceram no silêncio das gavetas
e nomes que um dia foram pronunciados
com a ingênua convicção de que seriam eternos.
Olho para trás e estendo as mãos,
como se ainda pudesse alcançar aquilo que fui,
como se pudesse tocar novamente
tudo aquilo que deixei escapar
por acreditar, com demasiada certeza,
que haveria um depois.
O tempo está passando.
E eu não posso detê-lo.
Não posso suplicar ao relógio que suspenda seus ponteiros,
não posso restituir uma manhã,
não posso regressar à infância
somente porque agora compreendo o quanto sinto sua falta.
Estou correndo para alcançar o trem.
Corro sem saber precisamente para onde,
mas sabendo que permanecer imóvel
também constitui uma forma silenciosa de partir.
Vejo pessoas nas estações:
algumas chegam,
outras se despedem,
algumas acenam para aqueles que permanecem,
outras contemplam a paisagem através das janelas,
como se tentassem gravar na memória
cada fragmento daquilo que estão deixando para trás.
Que enigma é o tempo.
Quando somos pequenos,
um único dia parece conter uma eternidade;
quando crescemos,
uma década se dissipa
como se houvesse durado apenas uma tarde.
Que estranheza é envelhecer.
Um dia ansiamos, com impaciência, pela idade adulta,
e, mais tarde,
passamos a desejar que certas coisas
jamais tivessem passado.
Que estranha revelação perceber
que aqueles que nos ensinaram a existir
também caminham, inexoravelmente,
em direção à velhice.
Estou correndo para alcançar o trem
que há de conduzir-me aos céus.
Talvez eu corra
porque temo chegar tarde.
Talvez todos nós corramos
em direção a alguma parte
cujo nome desconhecemos.
Talvez o trem seja apenas o próprio tempo,
e os céus sejam a imagem que concebemos
quando já não conseguimos suportar
a ideia de que todas as coisas terminam.
Lá não haverá tempo,
nem rugas,
nem espera.
Não haverá relógios nas paredes,
nem calendários esquecidos sobre as mesas,
nem aniversários destinados a nos recordar
quanto da existência já ficou para trás.
Não haverá espelhos
para revelar aquilo que os anos fizeram conosco.
Vejo, diante dos meus olhos,
a juventude evanescer dos corpos.
Vejo-a desaparecer paulatinamente,
não como algo que se ausenta de súbito,
mas como a luz que abandona um quarto
quando a tarde, enfim, se extingue.
Vejo pessoas que um dia foram jovens
contemplando fotografias antigas
e sorrindo para rostos
que ainda desconheciam
tudo aquilo que o futuro lhes haveria de impor.
Vejo crianças correndo pelas ruas,
alheias ao fato de que um dia sentirão saudade
daquilo que hoje desejam ardentemente abandonar.
Vejo a penumbra de seus quartos.
Quartos onde o silêncio se adensa,
onde as paredes guardam segredos,
onde alguém permanece desperto,
revisitando mentalmente
tudo aquilo que poderia ter feito.
As marcas dos pés nas paredes.
Pequenos vestígios de existências imensas,
rastros deixados involuntariamente,
como se até a sujeira pudesse testemunhar
que alguém esteve ali.
E talvez seja somente isso
que deixamos no mundo:
algumas marcas,
algumas fotografias,
alguns objetos,
algumas histórias preservadas
pela memória daqueles que ficaram.
Vidas não vividas.
Portas que jamais abrimos,
viagens que eternamente adiamos,
palavras que condenamos ao silêncio,
abraços que julgamos poder oferecer mais tarde.
O depois.
Essa palavra tão pequena
na qual ocultamos tantas promessas.
Depois eu vou.
Depois eu digo.
Depois eu abraço.
Depois eu vivo.
E então descobrimos,
com uma espécie de assombro,
que o depois também envelhece.
Estamos em condições precárias.
Não apenas nossas casas,
não apenas nossas cidades,
mas nós mesmos.
Somos frágeis,
transitórios,
constituídos de memória e matéria,
tentando erigir alguma forma de eternidade
com aquilo que o tempo sabe, inevitavelmente,
reduzir ao esquecimento.
E já não temos tempo para brincar.
Esquecemos como era correr sem destino,
rir sem motivo,
dançar sem música,
contemplar o firmamento
sem exigir dele respostas.
Tornamo-nos adultos demais
para aquilo que um dia nos fazia felizes
e jovens demais para compreender
a extensão de tudo aquilo que perdemos.
Abra os olhos
e contemple o céu noturno,
em vez do concreto do teto.
Contemple as estrelas enquanto ainda nos pertencem,
a lua atravessando silenciosamente a noite,
o vento agitando as árvores,
o mundo acontecendo
para além das muralhas que erguemos ao nosso redor.
Porque talvez viver seja justamente isso:
sair, por um instante, do quarto,
erguer os olhos
e perceber que o universo permanece colossal,
mesmo quando a nossa existência parece diminuta.
Não espere o último dia
para descobrir que existiam outros dias.
Não espere a última noite
para contemplar o céu.
Não espere perder alguém
para confessar que o amava.
Não espere envelhecer
para compreender que um dia foi jovem.
Não espere o trem partir
para descobrir que desejava embarcar.
Vamos todos rodar as saias,
lançar os chapéus ao ar
e dançar,
como se esta fosse
a última dança da meia-noite.
Thoughts
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PermalinkFiquei com as crianças que um dia vão ter saudade do que agora querem largar. A minha ainda está nessa fase.
-
PermalinkA fileira de depois que vai encolhendo até chegar à própria vida lembrou-me o Aniversário do Álvaro de Campos. O mesmo luto pela infância, só que ele acaba com raiva de não ter trazido o passado na algibeira e tu levantas toda a gente para dançar. Prefiro o teu fim.
-
PermalinkAs marcas dos pés nas paredes ficaram comigo mais do que o trem e os céus. Em casa dos meus pais ainda há uma ombreira com riscos a caneta, a altura das minhas filhas ano a ano, e ninguém a pinta. Aposto que quem escreveu isto tem uma parede dessas algures.
-
PermalinkHá uma vizinha da minha avó que guarda as fotografias viradas para baixo na gaveta, diz que assim não envelhecem. As tuas estão à vista ou também ficaram fechadas numa gaveta?
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