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Sobreviventes

AnjoAtormentado
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Tião caminhava devagar pela rua de barro, enquanto a chuva descia grossa sobre a pequena cidade do interior. A água escorria pelo chapéu encharcado, pingava pela aba torta e seguia pelo rosto…

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Tião caminhava devagar pela rua de barro, enquanto a chuva descia grossa sobre a pequena cidade do interior. A água escorria pelo chapéu encharcado, pingava pela aba torta e seguia pelo rosto cansado, como se até o céu tivesse desistido de poupá-lo naquela noite. O lamaçal agarrava suas botinas a cada passo, produzindo um som úmido e pesado no silêncio quase absoluto da madrugada.

As casas surgiam dos dois lados como sombras imóveis. Todas fechadas. Janelas trancadas. Portas cerradas. Nem uma fresta de luz escapava das venezianas envelhecidas. Parecia que o vilarejo inteiro prendia a respiração enquanto o temporal passava.

Os lampiões espalhados pelos postes de madeira mal conseguiam vencer a escuridão. A luminosidade amarelada tremia sob os pingos, formando círculos fracos sobre as poças. Mais adiante, tudo desaparecia numa névoa espessa, como se o resto do mundo tivesse sido engolido pela noite.

Ao fundo, ouvia-se apenas o ruído incessante do aguaceiro batendo nos telhados — um som contínuo, melancólico, quase hipnótico. De vez em quando, o vento atravessava as vielas estreitas e fazia ranger alguma placa gasta, pendurada sobre um comércio fechado havia horas.

O homem puxou o casaco molhado contra o peito, embora já soubesse que não havia mais o que proteger. A roupa inteira pesava sobre seus ombros como uma segunda pele de frio e cansaço. Seus olhos percorriam os caminhos vazios com cautela, tentando reconhecer naquela penumbra os lugares que conhecia desde menino. Mas, nas circunstâncias atuais, a cidade parecia outra — mais gélida, mais estreita, mais reservada.

Havia algo estranho naquele vazio. Nem cães latiam. Nem vozes atravessavam as paredes. Nem mesmo o velho sino da igreja parecia ousar romper o domínio da tempestade.

E, ainda assim, Tião continuava andando. Como se procurasse alguma coisa. Ou fugisse dela.

Foi nesse instante que ele diminuiu o passo. Em meio ao barulho pesado do temporal, outro som começou a surgir, abafado no começo, quase confundido com a enxurrada correndo pelas valetas. Mas logo se impôs: passos. Reais. Próximos demais para serem imaginação. Vinham de algum ponto à frente, irregulares, como se alguém atravessasse a névoa sem pressa, mas também sem direção. O retirante parou diante de um poste de luz trêmula e ficou escutando. A musculatura ficou rígida quando percebeu que a marcha alheia continuava, mesmo sem ele se mover.

O ruído cessou de repente.

No mesmo instante, um arranhar áspero percorreu a parede de uma das habitações ao lado. O som era longo, desagradável, como garras deslizando as unhas pela madeira úmida. Tião virou o rosto devagar. A janela continuava fechada. O cenário permanecia deserto.

Então vieram os passos correndo. Rápidos. Desesperados.

Alguém atravessou a esquina adiante num rompante, espalhando água. O homem mal conseguiu distinguir a silhueta escura sumindo entre as fachadas, engolida quase imediatamente pela precipitação. Mas, antes que pudesse entender o que tinha visto, outro vulto surgiu logo atrás. Maior. Mais rápido.

Então a cena se revelou.

A primeira figura que ele conseguiu distinguir era uma mulher. Corria descalça, os cabelos colados ao rosto, o vestido escuro encharcado, grudando na pele como se pesasse o dobro do próprio corpo. Ela vinha tropeçando, olhando para trás a cada poucos metros, sem coragem de parar para respirar. O nome veio à mente de Tião antes mesmo de qualquer menção — Marieta. Ele a reconheceu pelos traços, mesmo sob o breu.

Ela virou a esquina cambaleando, e então o motivo do desespero apareceu atrás dela.

Não caminhava como homem. Não corria como animal comum.

Era uma forma alta, curvada, com os membros longos demais, que se movia com uma velocidade brutal sobre o chão encharcado. O aguaceiro parecia não afetar aquilo da mesma forma — escorria pelo dorso sem apagar a presença opressiva que avançava. A cada pisada, o lodo se abria sob as patas deformadas, e o som era seco, violento, como madeira quebrando.

Quando a luz do lampião atingiu por um instante aquela monstruosidade, Tião viu o que não queria ver. Pelos escuros, grossos, colados pela umidade. Uma ossatura larga demais para um humano. O focinho alongado, aberto num respiro irregular que mostrava dentes grandes demais para qualquer criatura conhecida. E olhos. Não apenas órbitas de fera. Olhares conscientes.

Marieta soltou um grito curto quando escorregou e caiu de joelhos. O som foi engolido quase inteiro pela tormenta, mas suficiente para fazer a besta acelerar. Ela hesitou apenas um segundo antes de se lançar para frente, revelando-se por completo — um lobisomem, grotesco, impossível na lógica da cidade adormecida.

Tião ficou imóvel, como se suas pernas tivessem sido plantadas no solo. A fera avançava agora direto para a mulher, que tentava se arrastar para trás, sem força, sem saída entre as paredes trancadas. E o vilarejo continuava mudo, como se nada tivesse o direito de interromper aquela perseguição.

Do beco lateral, quase oculto pela escuridão, surgiu um movimento diferente de tudo aquilo.

Um cão vira-lata caramelo. Magro, de pelo encharcado, colado às costelas, o rabo baixo apenas pelo peso da água, não pelo medo. Ele parou no meio da rua como se já estivesse ali desde sempre, encarando o monstro que avançava sobre Marieta. Não havia hesitação no olhar do animal — só uma calma estranha, firme, de natureza ancestral.

O lobisomem freou.

O corpo colossal rangeu no próprio peso ao interromper o avanço. A cabeça inclinou levemente, tentando entender o que acabara de aparecer diante dele. Por alguns segundos, o momento pareceu suspenso: a chuva caindo, a vítima no chão tentando esquivar-se, o cão imóvel no meio do caminho e a fera avaliando.

O impasse entre eles não era vazio — era decisão.

O cão não recuou. Não rosnou de imediato. Apenas sustentou o olhar, como se marcasse território em algo muito maior do que ele.

A besta deu um passo para o lado, testando o espaço, como um predador que reconsidera a presa. Então outro. O peso das patas afundava o solo, mas agora havia cautela no movimento. Ele não atacava ainda.

Foi nesse instante que Tião tomou uma decisão que não parecia vir da razão, mas de algum fundo esquecido dele mesmo. Sem pensar demais, saiu do abrigo do poste e avançou.

Seu corpo cortou as gotas de forma bruta, direto para o espaço aberto, sem arma, sem proteção, apenas o impulso seco de quem não aceita assistir à morte alheia. O lobisomem virou o rosto na direção dele, surpreso por outro intruso.

Tião não parou. Sentiu o coração batendo como se quisesse fugir antes dele, mas continuou mesmo assim, atravessando a distância entre homem e monstro como se a coragem fosse só isso: um passo depois do outro, apesar de tudo dizer para recuar.

O caramelo permaneceu ao lado, agora alinhado com ele. E, por um segundo, muito curto, os dois — homem e vira-lata — pareceram maiores do que o medo.

A criatura rosnou e investiu de vez. O chão cedeu sob o peso dela, e a via pareceu menor naquele instante, comprimida por sua presença. O cãozinho ainda ficou na frente por um momento, firme demais para o tamanho que tinha, antes de se esquivar quando o avanço já não podia ser contido.

Tião entrou junto. Não houve planejamento, só o impacto indo antes da ideia. Ele atingiu a lateral da besta e sentiu na hora que era como bater em uma parede de músculos. O choque o devolveu ao chão, e a lama recebeu seu corpo sem resistência, fria e pesada.

O vira-lata voltou a atacar, rápido, tentando abrir espaço outra vez, mas foi lançado para o lado com um único movimento de garra, sem pausa, sem atenção.

O homem tentou levantar, mas não conseguiu de imediato. A mão afundava no lodo em busca de apoio que não existia, escorregando toda vez que encontrava algo firme. O predador já estava sobre ele. A luz do lampião sumiu sob a sombra daquela silhueta. Tudo ficou escuro.

O rosto do lobisomem se aproximou. Tião não teve tempo de pensar. Só reagiu. Agarrar o que estivesse perto. Segurar. Não deixar passar. E foi assim que ficou, preso àquilo que avançava sobre ele, enquanto tudo ao redor parecia reduzir-se ao ponto único entre sobrevivência e fim.

O monstro ergueu o tronco, pesado demais para qualquer tentativa de empurrão. O ar ficou curto, comprimido pela proximidade. Foi então que o cão voltou. Não com hesitação, mas com precisão e numa coragem comovente.

Saltou direto para o dorso do bicho e cravou os dentes com força, agarrando o pelo encharcado como se aquilo fosse a única regra que importava. O lobisomem soltou um rugido que atravessou as paredes da cidade, um som que não parecia caber em nada vivo. O impacto fez Tião ser jogado de lado, afundando ainda mais no barro.

No mesmo segundo, um estampido cortou a tempestade. Um tiro. O som veio de algum ponto entre as casas, seco e definitivo.

A bala acertou o alvo. O corpo da criatura estremeceu, o movimento travando por um instante, como se a própria estrutura tivesse sido quebrada por dentro. O urro virou algo mais curto, mais desesperado. O lobisomem se virou em arrancada, derrubando o animal com violência, e desapareceu em direção ao mato que cercava o fim da rua.

O temporal continuou como se nada tivesse acontecido.

Tião ficou no chão, respirando com dificuldade. O peito ardia. Ao tentar se mover, percebeu as marcas profundas das garras atravessando a roupa, rasgando a pele. O sangue se misturava à água, escorrendo devagar.

O caramelo se aproximou dele novamente. Não avançou além do necessário. Ficou ao lado, firme, como se tivesse decidido que aquele lugar ainda precisava de guarda.

Um tipo diferente de silêncio começou a se espalhar. Portas que antes estavam fechadas começaram a se mover. Uma. Depois outra. Rostos surgiram nas frestas, primeiro desconfiados, depois mais lentos, mais humanos. Moradores saíam com cuidado, olhando para a rua como quem tenta confirmar se o mundo continua igual depois de ter sido rasgado.

Ninguém se aproximava de imediato. Apenas observavam.

O delegado surgiu entre os moradores com a espingarda ainda erguida, o cheiro de pólvora misturado ao da terra molhada. O cano estava levemente inclinado para baixo, mas a tensão ainda prendia seu braço. Ele atravessou o lamaçal com passos firmes e parou onde a criatura havia sido atingida. Afastou com a bota alguns detritos encharcados, procurando sinais.

Nada conclusivo. Só fragmentos: pelos escuros grudados no chão, marcas profundas e um rastro irregular de sangue seguindo em direção ao mato.

O homem da lei se agachou por um instante, observando a trilha vermelha se dissolver na água. Não havia dúvida de que o monstro fora ferido. Levantou-se devagar.

— Vai dar pra seguir isso — disse, mais para si do que para os outros.

Tião estava deitado alguns metros dali, debilitado demais para reagir. Dois vizinhos o levantaram com cuidado, enquanto o cão permanecia próximo, atento.

Marieta já não estava ali. Tinha desaparecido no meio da confusão, sem que ninguém notasse o instante exato de sua partida. Ficou apenas a falta dela entre os olhares e uma inquietação silenciosa, como se a noite ainda guardasse algo inacabado. Quando levaram o ferido, a rua voltou a esvaziar lentamente.

Na manhã seguinte, o vilarejo já não parecia o mesmo, embora a estrutura estivesse intocada: o barro revirado, o céu limpo e o peso do acontecido entre as casas. Um grupo de homens se formou cedo na rua principal, todos armados com espingardas e facões improvisados. O delegado seguia à frente, guiando a pequena expedição.

O rastro não era difícil de encontrar. Pegadas fundas demais para qualquer bicho comum e marcas de arrasto que se afastavam em direção à região de mata fechada. Foram seguindo em silêncio, até que o terreno começou a subir e o ambiente ficou denso. As trilhas levaram até a entrada de uma caverna, aberta entre pedras úmidas.

Ali, a pista simplesmente terminou. Como se aquilo tivesse deixado de existir antes de entrar.

Os homens se entreolharam, apertando as armas. O delegado ergueu a lanterna, iluminando a boca da gruta por alguns segundos, vendo apenas o vazio. Foi quando ouviram um som atrás deles. Fraco. Arrastado.

Era o vigário.

Ele estava caído parcialmente entre as árvores, o corpo coberto por feridas — marcas de mordidas profundas e um disparo de outrora atravessando parte do peito. Ainda respirava com dificuldade. Os homens se aproximaram em choque.

O religioso ergueu os olhos lentamente, reconhecendo-os.

— Me perdoem… — a voz saiu quebrada, quase apagada. Ele tentou se apoiar, mas as forças falharam. — Eu estou… amaldiçoado.

Ninguém respondeu. Só o som distante da mata fechando ao redor.

O padre também foi levado ao hospital, em estado instável, sob olhares inquietos de quem já não sabia distinguir ferida de feitiçaria. A cidade, aos poucos, foi sendo tomada por um burburinho constante — cochichos nas portas, conversas interrompidas. Marieta seguia desaparecida, sem rastro.

Nos dias seguintes, a rotina tentou voltar, mas não encaixava mais. Qualquer barulho mais alto fazia os moradores hesitarem. O delegado mantinha a vigilância na mata, mas nada voltou a surgir dali.

Tião permaneceu internado. O peito ainda doía, as marcas das garras cicatrizando devagar. As noites eram as piores. Até que, numa delas, já de madrugada, ele ouviu.

Um som diferente atravessando a rua em frente ao leito. Cascos. Pesados. Irregulares.

E, junto deles, um relincho agudo, estranho demais para um cavalo comum — mais próximo de um choro. O homem ficou imóvel na cama, tentando convencer a si mesmo de que era só algum animal perdido. Mas o som voltou. Mais perto.

Ele se levantou com dificuldade e foi até a janela. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes fracos. A chuva tinha cessado, mas o chão de terra batida ainda brilhava úmido.

Foi então que ele viu.

Uma mula.

Mas não um animal comum. O corpo estava ali — mas a cabeça não. Havia apenas o pescoço erguido, terminando em algo queimado, escurecido, como se tivesse sido arrancado e substituído por ausência. Mesmo assim, a assombração se movia, inquieta, andando em círculos curtos, soltando aqueles sons agudos, quase humanos.

O ar pareceu esfriar dentro do quarto. Tião recuou um passo instintivo, o coração acelerando.

A criatura parou. O pescoço vazio se ergueu lentamente, e então uma chama começou a surgir dali — primeiro fraca, depois mais intensa, tomando forma de fogo vivo, que escapava em línguas curtas e irregulares. O brilho alaranjado iluminou a fachada do hospital. O som que vinha dela voltou a crescer, misturado ao estalo das labaredas.

Antes que a assombração avançasse mais, um movimento cortou a via. O cão caramelo surgiu do outro lado, vindo sem pressa. O corpo ainda magro, mas o olhar o mesmo — firme, direto, sem recuar. Ele parou no meio do caminho entre o prédio e a criatura. Não latiu. Só ficou ali.

A besta travou. O fogo no pescoço oscilou, reagindo à presença dele. O relincho mudou de tom, mais curto, mais instável. Por alguns segundos, os dois ficaram frente a frente — o impossível contra o simples que não se intimidava.

Então ela virou bruscamente. E disparou.

Os cascos bateram no chão firme como pancadas desesperadas, o fogo deixando rastros curtos no ar enquanto ela cruzava a esquina em fuga. Sumiu na escuridão além dos lampiões. Depois disso, não voltou mais.

O recolhimento que veio depois era mais limpo — mas não tranquilo. Apenas atento, como se a cidade tivesse aprendido a escutar.

Tião recebeu alta numa manhã clara. Ao sair do hospital, parou por um instante na porta. O vilarejo seguia ali, fingindo normalidade. Mas algo tinha mudado na forma como ele o enxergava. Como se agora soubesse que existe sempre outra camada por baixo do que se vê.

O cão caramelo estava do outro lado. Parado. Sem pressa. Só olhando.

Tião não chamou. No fundo, não precisava.

Ele apenas atravessou a rua com calma, se agachou devagar e deixou a mão chegar primeiro, sem exigência. O bicho cheirou, encostou de leve e não se afastou. O homem soltou um riso cansado e assentiu sozinho.

— Vem comigo.

E o cão veio. Sem hesitar.

Quando os dois seguiram pela rua de barro, lado a lado, já não parecia um encontro casual. Parecia que a cidade, enfim, tinha reconhecido o seu próprio par de sobreviventes.


Thoughts

  • rmoraes52

    O caramelo, claro.

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  • paulaozinho

    O delegado atirando no escuro com o Tião e o cachorro ali no meio, isso ia dar problema grande no dia seguinte. A Marieta volta na parte 2?

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  • Ovid

    O cão caramelo parando no meio da rua sem latir, duas vezes, na frente do lobisomem e depois da mula. Me fez pensar em todo vira-lata de cidade pequena que adota a gente sem pedir licença. Aposto que o Tião e esse cachorro ainda têm muita noite pela frente, e o vigário no hospital não me deixa nada tranquilo.

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  • poupanca95

    Vigário amaldiçoado e mula sem cabeça na mesma cidade, eu já tava rezando junto com o Tião kkkk

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