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Filhos do Abandono

RafaelDuGueto
Pensamento

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Oliviamar

Comecei pelo Noah com o arrepio, lá no fim, e só depois fui ver de onde vinha. Vinha dos campos de milho, daquela ordem bonita demais.

Comecei pelo Noah com o arrepio, lá no fim, e só depois fui ver de onde vinha. Vinha dos campos de milho, daquela ordem bonita demais.

Conteúdo da publicação

Capítulo 1 – O lugar nunca tinha sido chamado de lar.

O albergue parecia um organismo vivo e decadente. Contêineres enferrujados se amontoavam uns sobre os outros, sustentados por vigas improvisadas e tábuas podres, formando labirintos de corredores estreitos. Alguns contêineres se empilhavam em três andares, outros em dois, sustentados por vigas de ferro tortas e tábuas improvisadas. As paredes de metal rangiam quando o vento soprava, e sempre havia a impressão que uma parte da estrutura desabaria durante a noite. O cheiro de graxa misturava-se ao ar quente, ferrugem e fumaça de restos de carvão.

Ali viviam alguns homens e mulheres. Todos tinham o passado criminoso, embora raramente falassem disso. Trabalhavam juntos na sobrevivência: alguns cuidavam da oficina improvisada, era um caminhão cegonha abandonado que servia de abrigo para ferramentas velhas, cordas e peças de ferro retorcido. Pedaços de máquinas agrícolas jaziam pelo terreno como esqueletos enferrujados de um passado que não voltaria, outros na dificultosa plantação árida para tirar qualquer sustento da terra. Não havia confiança entre eles, apenas convivência forçada.

No meio daquele ambiente pesado, entre todos os que viviam no albergue de contêineres, havia um homem em particular que raramente se envolvia em discussões ou trabalhos coletivos. Seu nome era Anselmo, mas todos o chamavam de o Doutor.

Tinha cinquenta e dois anos, embora sua aparência carregasse facilmente uma década a mais. A pele pálida, sempre levemente amarelada, dava-lhe um ar doente; o cabelo ralo e mal penteado deixava ver o couro cabeludo manchado pelo tempo. Vestia roupas simples, sempre limpas demais para o ambiente em que vivia, como se se esforçasse para manter uma ordem que o resto do mundo não se importava mais.

Não era médico de formação — ninguém ali tinha esse luxo. Mas, com o passar dos anos, Anselmo assumira essa função pela frieza e destreza que demonstrava em momentos de necessidade. Aprendera a costurar ferimentos de faca, extrair dentes inflamados, improvisar amputações em membros gangrenados. Não tremia diante do sangue, não se abalava diante da dor dos outros. Para a comunidade, essa frieza era uma carta que poderia manter ou tirar a vida.

O Doutor não curava. Ele resolvia.

Sua utilidade o tornara indispensável. Sempre que alguém se cortava, apodrecia de febre ou sofria algum acidente, era a ele que recorriam. Não havia gratidão, apenas respeito misturado a desconfiança. Muitos evitavam cruzar seu olhar por tempo demais, como se temessem qual seria o destino de suas vidas.

Para os adultos, Anselmo era um mistério necessário.

Ao lado, separados apenas por um muro grande e cheio de buracos e passagens entre os terrenos, vivia uma outra comunidade — igualmente formada por criminosos esquecidos pelo mundo. Mas ali o cenário parecia diferente: os campos de milho se estendiam por toda a área do terreno, dourados e quase bonitos sob o sol. À primeira vista, pareciam mais organizados. No entanto, quem olhasse de perto perceberia que aquela ordem escondia uma crueldade fria.

Em meio ao caos, talvez ali levasse um raio de esperança, pois era a única unidade onde viviam crianças.

Foi nesse contraste que cresceu Jeff, um garoto inquieto, e seu inseparável amigo Noah. Ambos eram filhos desse isolamento: crianças sem pais, criadas por uma comunidade de adultos que mal tinham tempo para elas. Enquanto os mais velhos trabalhavam nos campos ou na oficina, as crianças corriam livres, sem disciplina e sem proteção.

Jeff era curioso e corajoso até demais. Noah, mais hesitante, seguia o amigo nas aventuras como se fosse sua sombra. Juntos, encontraram um novo passatempo: invadir os corredores estreitos do albergue de contêineres, onde os adultos mal reparavam neles. Gostavam de esconder ferramentas, bagunçar camas, e dar sustos nos moradores.

Mas havia um cômodo em especial que atraía Jeff como um ímã. Um quarto no terceiro andar, de paredes manchadas e janelas cobertas por pedaços de madeira. Ali morava o enigmático Anselmo. Ninguém falava muito dele, e justamente por isso, para Jeff, aquele quarto parecia um desafio.

Noah, por outro lado, sempre sentia um arrepio quando o amigo sugeria se aproximar.

Thoughts

  • Oliviamar

    Comecei pelo Noah com o arrepio, lá no fim, e só depois fui ver de onde vinha. Vinha dos campos de milho, daquela ordem bonita demais.

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  • NunoParreira

    Fiquei preso ao Anselmo e às roupas limpas demais para aquele sítio. Pra mim, um homem que costura facadas e arranca dentes e ainda se dá ao trabalho de andar arrumado está agarrado a alguma coisa de antes. Aposto que essa coisa de antes é o que o meteu ali.

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