Há dias em que acordar parece um esforço,
e o mundo pesa mais do que deveria.
Carrego ontem dentro do peito,
e o ontem insiste em visitar o meu dia.
As coisas que passaram não passam,
as recentes mal tiveram tempo de cicatrizar;
cada lembrança encontra uma ferida
e parece saber exatamente onde tocar.
Tenho tanta coisa presa na garganta
que até o silêncio aprendeu a doer.
Procuro alguém no meio da multidão,
mas ninguém parece perceber
o quanto eu estou cansado de parecer bem.
E talvez a pior parte da solidão
não seja estar sozinho no quarto,
mas sentir que, mesmo cercado de pessoas,
ninguém alcança o lugar
onde minha tristeza fez morada.
Eu queria entender quando foi que me perdi,
em que momento deixei de reconhecer meu próprio rosto.
Há uma versão de mim escondida em algum lugar,
pedindo apenas um pouco de descanso,
um pouco de cuidado,
um motivo pequeno para continuar procurando.
Porque, apesar de tudo,
ainda existe em mim alguma coisa que procura a manhã.
Uma parte quase imperceptível,
mas teimosa, que ainda pergunta:
“e se amanhã doer um pouco menos?”
Talvez eu não precise ter todas as respostas hoje.
Talvez sobreviver a uma noite difícil
já seja uma forma silenciosa de esperança.
E talvez, antes de encontrar a felicidade,
eu só precise encontrar alguém
que permaneça comigo enquanto a tristeza passa.
ass: mandrade