Você me contou verdades
que deixaram meus olhos arregalados,
como se a verdade pudesse, de fato,
ter olhos
e me encarasse de volta.
E hoje me pergunto
se eram genuinamente verdadeiras
ou apenas mais uma das histórias
que você inventou
para sobreviver à própria mentira.
Você cortou nossos laços
e eles pingaram em vermelho
pelo chão da cozinha,
um fio de sangue entre nós,
enquanto a água fervia
e borbulhava suas palavras
no fundo da sua garganta.
Eu observava a chaleira,
esperando que alguma coisa transbordasse:
a água,
a raiva,
a culpa,
qualquer coisa que pudesse me dizer
onde terminava você
e onde começava o monstro.
Mas você continuava falando.
E eu continuava ouvindo.
Há coisas que não deveriam ser ditas
depois que aprendemos
a amar alguém.
Há verdades que chegam tarde demais
e encontram a casa já em ruínas.
Eu nunca quis você por perto.
Eu nunca quis você tão longe.
Eu quis apenas o instante exato
em que pudesse te ferir
sem precisar te enxergar,
como quem atira uma pedra
contra uma janela acesa
e corre antes de descobrir
quem estava do outro lado.
Talvez eu quisesse
que doesse em você
a mesma coisa que doeu em mim.
Talvez eu quisesse apenas
que, por uma vez,
você soubesse meu nome
pelo gosto que ele deixou
na sua boca.
E, em sinfonias sombrias,
danço ao redor do teu sepultamento.
Não há flores.
Não há padres.
Não há ninguém para chorar.
Apenas eu
e os caixões.
Um para cada homem
que você já foi.
Enterro o primeiro
que me prometeu eternidade.
O segundo,
que jurou nunca mentir.
O terceiro,
que conhecia o caminho
de volta para casa.
Enterro aquele
que me beijava a testa
como se eu fosse sagrada,
e aquele que dizia meu nome
como se fosse uma oração.
Enterro todos eles.
Um a um.
Até que reste apenas você.
E talvez seja essa
a pior forma de morrer:
continuar vivo
depois que todas as versões
que alguém amou
já foram enterradas.
Mas te matar seria em vão.
Você sobreviveria
em cada mentira contada,
em cada porta fechada,
em cada mulher
que aprenderia a desconfiar
de homens com a sua voz.
Sobreviveria em mim
também.
E eu não queria carregar
mais nenhuma parte sua.
Então esperei.
Até que confessaste,
com teu próprio sangue,
aquilo que não tem perdão.
Não precisei te matar.
A verdade fez isso por mim.
E quando finalmente te vi cair,
não senti alívio.
Apenas o silêncio.
Aquele silêncio estranho
que vem depois da água fervente,
quando a chaleira se cala
e a cozinha inteira
parece prender a respiração.
Olhei para o chão.
Os nossos laços ainda estavam ali,
espalhados entre os meus pés,
vermelhos,
úmidos,
irreconhecíveis.
E, pela primeira vez,
não tentei juntá-los.
Deixei que secassem.
Deixei que apodrecessem.
Deixei que fossem
o último vestígio
do homem que você foi
quando ainda havia
alguma coisa em mim
capaz de te perdoar.