Solares
Oito anos antes
Esse definitivamente não era o meu melhor dia.
Cheguei atrasada à aula de matemática, minha matéria favorita, porque inventei de dormir tarde na noite anterior assistindo ao meu filme de romance favorito e, como consequência, acordei atrasada. De novo.
Saí de casa às pressas, com minha mãe tentando me encher de beijos antes que eu fosse embora, e acabei nem perguntando se ela estava se sentindo melhor.
Fazia algumas semanas que ela reclamava de dores de cabeça, estava comendo pouco e passava boa parte do tempo deprimida dentro do quarto. Eu tentei ajudá-la, mas minha mãe sempre dizia que eu não precisava me preocupar com nada, que logo voltaria ao normal.
Eu acreditei nela.
Atravessei a rua correndo, sem prestar atenção nos carros, e ouvi um homem gritando alguma coisa enquanto buzinava para mim, mas ignorei completamente. A aula daquele dia era importante, e eu já estava atrasada demais.
Ainda mastigava o resto do pão que havia levado comigo quando entrei na escola.
O professor Rui me lançou um olhar sério assim que me viu entrando na sala com o meu sorriso de desculpas de sempre. Ele costumava relevar meus atrasos porque eu era uma das poucas pessoas que realmente prestavam atenção às aulas dele, mas já estava ficando perceptível que sua paciência começava a se esgotar.
Provavelmente também não acreditaria em mais nenhuma das minhas desculpas elaboradas. Da última vez, eu disse que um cachorro havia corrido atrás de mim no caminho para a escola, mas meu colega Sandro chegou logo depois dizendo que eu estava mentindo porque tinha me visto sentada na praça, tranquilamente, comendo um lanche.
Passei a odiar o Sandro depois daquele dia.
A aula não foi tão boa quanto eu esperava, principalmente porque cochilei durante metade dela.
Quando o sinal finalmente tocou, anunciando que eu podia sair daquele lugar, resolvi seguir pelo caminho mais curto para casa. Foi uma péssima escolha, principalmente porque estava sozinha, sem minha amiga Maria para me acompanhar. Por algum motivo, ela havia faltado à aula.
Passei próximo à conveniência do senhor João, que estava fechada, e dei de cara com Marcela e suas duas amigas, Lorena e Fátima.
Elas me odiavam.
Na verdade, odiavam toda a minha família.
Tentei passar por elas fingindo que a presença das três não me incomodava, mas Marcela soltou uma frase que me fez esquecer completamente qualquer intenção de simplesmente ir embora.
— Quando a sua família satânica vai embora da minha cidade?
Ela nem precisou terminar o que pretendia dizer, porque eu já estava avançando em sua direção.
Minhas mãos se fecharam em seus cabelos e puxaram sua cabeça para trás. Lorena e Fátima reagiram imediatamente, tentando me afastar, e Fátima conseguiu me segurar enquanto Marcela aproveitava a oportunidade para me acertar um soco bem no rosto.
Caí de bunda no chão.
Aquilo era muita covardia.
Quando Marcela percebeu que meus lábios estavam sangrando, saiu correndo com as amigas.
Covarde.
Agora eu estava com os lábios inchados e tentando pensar em uma boa desculpa para contar à minha mãe por que havia levado um soco no rosto depois de defender justamente aquela família que eu mesma dizia todos os dias ser a pior do mundo.
A fama que tínhamos em Solares era perturbadora.
As pessoas chamavam minha avó de bruxa.
Diziam que nossa família tinha feito um pacto com algum demônio e que todos nós éramos amaldiçoados.
Bem, na parte da maldição eu já estava começando a acreditar também, mas a história do pacto com demônio definitivamente não podia ser verdade. Minha mãe jamais teria nos levado de volta para Solares se soubesse que havia alguma coisa assim naquele lugar.
Quando cheguei em casa, tentei esconder o rosto ao passar pela porta, mas não havia ninguém na sala. Minhas primas provavelmente ainda estavam na escola.
Atravessei a sala rapidamente, entrei no corredor e fui direto até o quarto da minha mãe.
Ela estava sentada perto da janela, em sua habitual cadeira de balanço. O quarto estava meio escuro porque as cortinas permaneciam quase completamente fechadas.
Assim que me aproximei senti um perfume agridoce pelo quarto. Era um cheiro forte quase enjoativo.
Caminhei até a cama, joguei-me de costas sobre o colchão e fiquei olhando para o teto enquanto meus olhos se acostumavam com a pouca luz.
— Como foi a escola hoje?
A voz da minha mãe estava suave como sempre.
Seus dedos começaram a deslizar pelos meus cabelos, e eu fechei os olhos, deixando que ela continuasse aquele carinho.
— Foi boa. Matemática era o primeiro tempo.
— E por que você está assim? Parece triste.
Eu queria poder mentir naquele momento e dizer que não era nada, mas minha mãe me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.
— Eu briguei com a Marcela e ela me deu um soco no rosto.
Esperei que ela tentasse olhar meu rosto mais de perto para verificar o machucado ou que começasse a me dar uma bronca por ter brigado.
Mas não a ouvi se mexer.
— Por que ela brigou com você, querida?
Os dedos continuaram passando pelos meus cabelos, agora um pouco mais rápido, como se procurassem alguma coisa entre os fios. Aquilo fazia cócegas, e eu soltei uma risadinha, mas parei logo depois.
Ela havia feito uma pergunta.
E minha mãe não gostava quando eu fingia que não tinha escutado.
Eu não deveria mentir para ela, mas sabia que ficaria triste se descobrisse que até as crianças queriam nossa família fora de Solares. Que odiavam até a própria filha dela.
Minha mãe já carregava peso demais desde que meu pai havia nos abandonado.
— Eu derrubei água nela sem querer.
Outro silêncio estranho.
Minha mãe não tentou me confortar.
Também não pareceu preocupada.
As mãos dela pararam de acariciar meus cabelos.
Então ouvi um barulho estranho vindo de sua direção.
Parecia o som de ossos estalando.
Não me levantei para olhar.
Alguma coisa dentro de mim dizia que eu não deveria me mexer.
— Mentirosa!
A voz da minha mãe saiu grave.
Grave demais.
Eu me assustei com o som que veio da garganta dela.
— Me desculpa, mãe, eu não...
— Você deveria matá-la!
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Aquele cheiro agridoce havia ficado mais forte quase sufocante.
Então ouvi um sorriso.
Não uma risada.
Um sorriso.
De algum jeito, eu conseguia ouvir que alguém estava sorrindo.
E não era o sorriso melodioso da minha mãe.
Virei lentamente o rosto em sua direção.
Ela me encarava.
Um sorriso macabro deformava sua expressão.
Os lábios estavam curvados para cima, mostrando todos os dentes, tão esticados que pareciam prestes a rasgar sua boca.
Mas os olhos permaneciam vazios.
Um pânico gelado começou a subir pelo meu corpo.
Era como um alarme disparando dentro da minha cabeça.
Como aquele sentido do Homem-Aranha que avisava quando alguma ameaça estava se aproximando.
Só que eu não conseguia me mover.
Minha boca não conseguia formar nenhuma palavra.
Nenhum grito.
De repente, o sorriso desapareceu dos lábios dela.
Um grunhido baixo começou a sair de sua garganta.
Os olhos continuavam fixos nos meus.
— Querida, mate ela.
A voz estava ainda mais grave.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça.
Saltei da cama e saí correndo do quarto.
Atravessei a porta às pressas e esbarrei de frente com meu tio, que acabava de entrar no corredor.
Ele me segurou pelos braços para impedir que eu caísse e me olhou surpreso.
— Cuidado. Não pode ficar correndo pela casa desse jeito. Pode acabar machucando alguém.
Mas eu não estava realmente ouvindo o que ele dizia.
Meu tio percebeu a expressão no meu rosto.
Seu semblante mudou.
— Sam? O que aconteceu?
— Minha mãe não está bem, tio. Acho melhor chamarmos um médico.
Ele soltou meus braços e pediu que eu esperasse no corredor antes de seguir rapidamente para o quarto dela.
Poucos segundos depois, ouvi sua voz desesperada lá dentro.
Ele havia acendido a luz.
Corri até o quarto para ver o que estava acontecendo, mas meu tio apareceu na porta e me agarrou antes que eu pudesse entrar.
— Não olha, Sam.
Mas já era tarde.
Eu já tinha visto.
Minha mãe estava sentada na cadeira de balanço, vestindo seu pijama de cetim favorito.
A pele dela tinha adquirido uma coloração azulada, e os lábios estavam arroxeados.
A cabeça tombava para o lado esquerdo.
Os braços estavam estendidos ao longo do corpo.
E nos pulsos havia cortes profundos.