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Rotina

Sadnar

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O alarme toca. De olhos fechados jogo um braço para o lado na procura do celular. Não o acho. Ainda de olhos fechados procuro embaixo do travesseiro. Nada. Está na mesa de cabeceira. Tenho certeza. Jogo o corpo para o lado, estico o braço o máximo que posso e enfim, pego o telefone. Abro um dos olhos, tela brilhosa. Arrasto para baixo para acessar a Central de Controle e diminuo o brilho da tela. Finalmente, declino o alarme. Irá tocar novamente em 10 minutos. Volto a dormir.

Alarme toca. Respiro fundo, pego o celular embaixo do travesseiro, olhos as horas. São 6 horas. Declino novamente. Irá tocar em 10 minutos. Volto a dormir. Mentira, não consegui dormir. Minha cabeça é invadida por pensamento sobre trabalho, estudos, futuro, relacionamento, família. Que saco. Não quero trabalhar. Para ativar as células, utilizo a técnica do susto. Em apenas um movimento, levanto da cama, abro a cortina, deixo a claridade incomodar meus olhos, pegos os três travesseiros, coloco alinhados em formato de pirâmide paralelos a cabeceira da cama. Pego a coberta, começo a dobrá-la na metade, jogo por cima da cama usando a técnica de hotelaria. Enfim, cama arrumada. Abro a porta.

Duas gatinhas de 6 kilos cada na porta me esperando. Um branca com manchas acinzentadas e outra preta com manchas alaranjadas. Maricon e Latrice. Vou direto ao banheiro, sento no vaso para fazer xixi e as chamo pelo nome. Sentado ao vaso, Latrice chega e recebe carinho na barriga. Maricon chega e recebe carinho nas costas. Levanto, dou descarga, fecho a tampa. Entro no box do banheiro, ligo o chuveiro no quente, molho o corpo. Passo sabão na esponja e esfolio o corpo. Enxaguo o corpo, fecho a torneira. Enxugo com a toalha, saio do box e vou direto escovar os dentes. Dentes escovados, saio do banheiro e vou ao varal ver qual roupa está secando.

Pego um calça, uma cueca, uma camisa, ambos com tecidos parecidos. Não gosto de misturar tecidos. Passo desodorante, visto a roupa, calço o tênis. Duas borrifadas do perfume que ganhei do meu namorado. Coloco o notebook, os carregadores e a pochete na mochila. Vou à geladeira, pego a marmita e a coloco na mochila. Coloco um copo no bebedouro, o ligo e enquanto enche, pego os comprimidos de remédios e suplementos. Copo cheio, tomo e olho as horas: 6:42. As aulas começam as 6:50. Moro há 5 minutos da escola. 2 minutos para descer do prédio e ligar a moto e 6:49, chego na frente do trabalho. Entro com a moto.

Thoughts

  • cadernoDeMargem

    Tudo anda corrido e meio no automático até as gatinhas aparecerem, com nome, peso e cor de mancha. Ali o dia acorda de verdade. Eu também tenho um pedaço assim na manhã, e arrisco que o seu é esse, o único em que você para sem olhar o relógio.

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  • GasparRibeiro

    As contas não me batem certo: saída às 6:43, dois minutos a descer, cinco de caminho, e chega às 6:49. Ou a moto anda mais do que diz, ou os cinco minutos são a pé.

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  • tresPaginas

    A técnica do susto é a única que funciona comigo também, abrir a cortina de uma vez e aguentar a claridade na cara :)

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  • HoracioMelo

    Eu desisti do segundo alarme há trinta anos, o corpo levanta-se sozinho às seis e não há maneira de o convencer do contrário. Invejo-lhe os dez minutos.

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  • fsantos1307

    As gatas sabem a hora do alarme melhor do que tu, de certeza. Estão à porta antes de a abrires.

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  • Ovid

    Duas gatinhas de seis quilos esperando na porta, e cada uma com o seu carinho certo: barriga pra Latrice, costas pra Maricon. Aposto que se um dia elas trocarem de lugar você percebe na hora, porque o texto inteiro é de alguém que repara na ordem das coisas. Pra mim a melhor parte é o minuto sobrando às 6:49.

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  • Poetadascicatrizes

    Gostei das suas palavras... A rotina é cansativa, e sei como isso é exaustivo! Eu entendo você não querer levantar ou não querer trabalhar... A cama nos chama. É gostoso, mas perigoso!

    Vivo isso todos os dias. A depressão quer me aprisionar, e a vontade de ficar isolado, na minha cama, me chama todos os dias... Mas, assim como você usou a técnica do susto, eu faço algo parecido, mas como um choque de realidade: olho para o meu lado, vejo meu filho dormindo, e isso me motiva a levantar e lutar por ele, porque ele depende de mim para viver!

    Gostei muito do seu texto. ❤️

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