É noite. O céu está parcialmente nublado. Rua arborizada. As folhas das árvores resistem ao pouco vento que ousa enfrentá-las. Um calafrio na barriga. Ter que andar três quarteirões e meio sozinho. Um medo se faz presente em todas as células do corpo. As luzes dos postes enfrentam as folhas das árvores para iluminar a rua. É uma guerra que, com o passar dos anos, das décadas, as árvores tendem a perder. Mas a natureza é imbatível. Individualmente, árvores perdem as batalhas, uma por uma. Mas a guerra só tem um vencedor: a natureza. Demora, mas essa guerra ela ganha. Nós perdemos.
Dou os primeiros passos. É um caminho reto. Ora iluminado, ora no breu total. Será que consigo chegar bem até o meu destino? Acelero a passada. Um tênis, uma calça, uma camisa com o nome da universidade, uma mochila carregando meses e meses de boletos. Bens materiais, mas muito importantes para esta etapa da vida. Olho sempre à frente, mexendo os olhos em várias direções, especialmente para os breus. Aqueles lugares com a ausência de luz. Será que há algo ali?
Já andei toda a primeira rua. Chego ao cruzamento. Olho para a esquerda, para a direita, nada, apenas eu. Sigo andando, acelero o passo. Me permito olhar para trás. Nada. Continuo andando, olhando para as casas, os portões, os pontos onde alguém poderia se esconder: atrás de árvores, atrás de lixeiras, atrás de carros. Olho em direção à lixeira, com sacos de lixo, e vejo algo se mexendo. Automaticamente, minha mente projeta a imagem de um ser humano encolhido. Meu coração acelera, sinto um gosto de saliva na boca. Engulo. Será que tem alguém ali?
Continuo andando, agora já me preparando para engatar uma corrida. Vou andando em direção, ainda seguindo meu caminho reto. Passando pelos sacos de lixo, olho de lado para ver se é alguém. Não era. Também não sei o que era. Meu inconsciente sempre me engana. Ele quer acreditar que tem algo ali. Mas, nesse momento, não tem. Sigo andando reto. Já estou no final da segunda quadra. Cruzamento. Direita e esquerda. Nada. Me permito olhar para trás. Nada também. Quando olho para frente, a uma quadra de distância: uma pessoa.
Meu coração acelera. Estamos do mesmo lado da rua. Teremos que nos cruzar. Ele pode me atacar. Continuo andando. Com medo, atravesso a rua para o outro lado. Meu coração bate acelerado. As sombras das árvores escondem a pessoa de tempos em tempos. É um homem. Estatura baixa. Roupa escura. Continuo andando. Quando estamos para nos cruzar, no meio da terceira quadra: é uma mulher. Volto a respirar. Respiro fundo. Passo por ela, sem olhar para o lado. Ela está com a bolsa agarrada ao braço. Está com medo também. São medos diferentes. O meu cessou quando vi que era mulher. O dela provavelmente continua.
Chego à esquina. Cruzamento. Esquerda, direita. Olho para trás e percebo que ela estava olhando para trás. O medo dela ainda não sumiu. Mesmo estando uma quadra de distância. Estou a pequenos passos de casa. Acelero o passo mais uma vez. Coloco a bolsa para a frente e pego a chave do portão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete passos. Cheguei. Viro de frente para o portão, olho para o lado: a moça continua andando em direção à avenida em que desci do ônibus. Ela, olhando o tempo todo para todos os lados, para os breus, com o coração acelerado, provavelmente. Pego a chave, encaixo na fechadura e giro. Fecho o portão. Segurança.