Essa frase do Torres García anda junto com um desenho dele, de 1943, o mapa da América do Sul de cabeça pra baixo, com o sul em cima. Na escola nunca me mostraram esse mapa, fui conhecer já adulta num livro emprestado.
Raízes Profundas
Pensamento
Essa frase do Torres García anda junto com um desenho dele, de 1943, o mapa da América do Sul de cabeça pra baixo, com o sul em cima. Na escola nunca me mostraram esse mapa, fui conhecer já adulta num livro emprestado.
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Como escreveu José Saramago, “É preciso sair da ilha para ver a ilha”.
Neste ano, tive a oportunidade de atravessar fronteiras e chegar ao México levando comigo um pedaço do Brasil através da minha pesquisa de mestrado sobre o carnaval, sobre as escolas de samba do nosso país, e sobre a maneira como elas resistem, reinventam-se e reexistem, mesmo quando tudo parece conspirar contra elas.
Eu sempre soube da força do Brasil. Mas há coisas que só a distância nos ensina a enxergar. Quando saímos da nossa ilha, descobrimos outras perspectivas sobre aquilo que somos. Passamos a reconhecer, com mais nitidez, a grandeza da nossa gente, a potência da nossa cultura e a beleza de um povo que, apesar de tantas feridas, insiste em criar, celebrar, transformar e continuar. E, de repente, aquilo que tantas vezes nos parece cotidiano revela-se extraordinário aos olhos de quem nos vê de fora.
Conhecer um pouco mais da América Latina tem feito crescer em mim um orgulho difícil de explicar. Um orgulho que não cabe apenas no Brasil, porque atravessa fronteiras, encontra sotaques semelhantes, reconhece dores compartilhadas e celebra sonhos que, mesmo pronunciados em línguas diferentes, parecem nascer da mesma vontade de existir. Tenho sentido, cada vez mais, a força da nossa união, da nossa irmandade latino-americana. A certeza de que pertencemos a uma história maior, feita de resistência, memória, luta e esperança.
Ontem, votei nas eleições presidenciais vestindo minha camisa da Frida, essa mulher que é referência e inspiração na minha vida. E, naquele gesto, senti o peso e a beleza de um voto que já não era apenas local, nem somente nacional, era continental. Era por tudo aquilo que somos e por tudo o que ainda podemos ser. Porque há algo de profundamente singular na nossa gente, nas nossas raízes, na nossa maneira de transformar a dor em arte, a luta em festa e a memória em caminho. O que temos aqui é único, é raro, é lindo. É motivo de orgulho.
E como sou grata pela educação brasileira, pela cultura que me formou, pelas raízes que me sustentam e por tudo o que aprendi com este chão. Grata por compreender, cada vez mais, que a nossa riqueza não está apenas naquilo que preservamos, mas também naquilo que reinventamos; não apenas no que herdamos, mas no que seguimos construindo coletivamente. Há uma força imensa em reconhecer de onde viemos e perceber que não estamos sozinhos.
Talvez seja por isso que ressoe tanto em mim o ensinamento do uruguaio Joaquín Torres García: “Nosso norte é o sul”. Um convite a olhar para nós mesmos, a reconhecer nossas referências, a valorizar nossos saberes e a compreender que não precisamos olhar sempre para longe para encontrar grandeza. Às vezes, basta mudar a direção do olhar. Redescobrir o que está perto. Reconhecer a beleza que sempre esteve aqui.
Ontem, senti novamente um sopro de vida. Uma espécie de leveza que há algum tempo não me visitava. Como se, por um instante, alguma coisa dentro de mim voltasse a respirar com mais liberdade. E esse sopro trouxe consigo uma vontade imensa de continuar descobrindo o que é nosso, percorrer nossa terra, escutar nossa gente, conhecer nossas histórias, caminhar por lugares que guardam memórias e encontrar, em cada canto, os sinais dessa vida que insiste em florescer.
Quero conhecer mais do Brasil que existe para além dos mapas e das imagens que aprendemos a repetir. Quero conhecer a América que pulsa nas ruas, nas festas populares, nas canções, nos sotaques e nos gestos de quem mantém viva a esperança. Quero encontrar esse mesmo sopro de vida em outros lugares, em outras gentes, em outras formas de existir.
Porque sair da ilha não é deixar de pertencer a ela. É voltar com outros olhos. É descobrir que o nosso lugar no mundo se torna maior quando aprendemos a reconhecer os lugares dos outros. E que, talvez, a beleza de pertencer esteja justamente nisso. Em compreender que nossas raízes são profundas, mas não precisam nos prender; podem ser asas, pontes, caminhos.
E que sorte a nossa nascer nesta parte do mundo. Nesta América que tantas vezes tentaram silenciar, mas que nunca deixou de cantar. Que tantas vezes tentaram apagar, mas que segue inventando novas cores. Que tantas vezes feriram, mas que continua encontrando maneiras de florescer.
Uma América que resiste, reexiste e, apesar de tudo, vive. E que me faz querer viver também, com os olhos mais atentos, os passos mais curiosos e o coração cada vez mais aberto para tudo aquilo que ainda temos a descobrir em nós.
Thoughts
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PermalinkA escola de samba que resiste tem rosto: a costureira que passa o ano no barracão sem ganhar nada, a tia da ala das baianas. Torço pra pesquisa ter pegado essa gente, porque de fora quem aparece mesmo é o desfile.
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PermalinkEssa frase do Torres García anda junto com um desenho dele, de 1943, o mapa da América do Sul de cabeça pra baixo, com o sul em cima. Na escola nunca me mostraram esse mapa, fui conhecer já adulta num livro emprestado.
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