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Entre o Sangue do Cravo e o Mistério da Dália

Dudaah

Conteúdo da publicação

Uma poesia sobre o encontro entre a intensidade de amar e a profundidade de existir.

Havia um cravo vermelho que florescia como quem não sabia amar pela metade.

Carregava nas pétalas a cor de tudo aquilo que arde, dos sentimentos que não encontram abrigo, das palavras que morrem na garganta porque o coração, às vezes, sente mais do que a alma consegue explicar.

Era vermelho como as promessas feitas no silêncio, como os desejos que sobrevivem à ausência, como certas lembranças que o tempo tenta apagar, mas que continuam florescendo onde ninguém mais procura.

E, num canto mais profundo do jardim, havia uma dália lilás, vestida de roxo nas extremidades, como se a noite tivesse deixado um pouco de sua eternidade sobre ela.

Não precisava gritar para ser notada. Havia nela uma espécie de mistério que não se revelava ao primeiro olhar.

Suas pétalas eram camadas de silêncio, segredos que não se entregavam facilmente, pequenos universos guardados no intervalo entre a luz e a escuridão.

Se o cravo era o incêndio, a dália era o céu depois dele.

Se um sentia tudo de uma vez, a outra parecia conhecer a arte de esconder oceanos dentro de uma única pétala.

E, ainda assim, ambos compreendiam a mesma linguagem: aquela que nasce quando existir deixa de ser apenas respirar e passa a significar alguma coisa.

O cravo admirava a dália porque ela não precisava sangrar para provar que havia sobrevivido.

A dália admirava o cravo porque ele não tinha vergonha de revelar a cor de suas feridas, nem de permanecer vermelho mesmo depois das tempestades.

Talvez fosse isso que os aproximasse: um carregava a coragem de sentir; o outro, a profundidade de compreender.

E, entre os dois, o jardim descobriu que existem formas diferentes de ser intenso.

Há quem ame como o cravo: com o peito aberto, sem economizar a própria chama.

E há quem ame como a dália: em profundidades que poucos alcançam, com sentimentos que não cabem na superfície de um gesto.

Mas nenhum deles sabia que a beleza mais rara não estava em serem iguais.

Estava em permanecerem inteiros mesmo diante daquilo que não conseguiam compreender um no outro.

Porque o vermelho não precisava apagar o lilás para existir.

E o roxo não precisava silenciar o vermelho para ser profundo.

Havia espaço no jardim para o fogo e para o mistério, para a coragem e para o silêncio, para quem se entrega e para quem ainda aprende a abrir as próprias pétalas.

E talvez a vida seja exatamente isso: encontrar aquilo que é diferente de nós sem transformar a diferença numa razão para partir.

Nem todo encontro acontece para que duas flores se tornem uma.

Alguns acontecem para ensinar que é possível florescer lado a lado, sem perder a própria cor, sem abandonar as próprias raízes, sem exigir que o outro tenha a mesma forma de sentir.

E, se algum dia o vento arrancar suas pétalas do jardim, o cravo deixará no chão a memória de sua chama.

A dália deixará o segredo de suas profundezas.

E quem passar por ali talvez compreenda, mesmo sem saber seus nomes, que houve naquele lugar algo maior do que a beleza de duas flores.

Houve um encontro entre aquilo que arde e aquilo que permanece inexplicável.

Entre o sangue de um cravo e o mistério de uma dália.

E nenhuma das duas precisou deixar de ser o que era para tornar aquele jardim inesquecível.

Thoughts

  • luluca

    Égua, eu fiquei do lado da dália, a que guarda oceano numa pétala só. Pra mim todo casal tem um cravo e uma dália, e o difícil é o cravo aprender a esperar o silêncio da outra.

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  • sambista

    Olha, lembrei na hora da cantiga do cravo que brigou com a rosa. Aqui o cravo encontra uma dália e ninguém sai despedaçado, cada um fica com a própria cor. Gostei dessa paz no jardim.

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  • Gilsao

    ❤️❤️

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Uma poesia sobre o encontro entre a intensidade de amar e a profundidade de existir.

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