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Uma história sobre as dores que me ensinaram a florescer.
Às vezes, olho para um girassol e sinto que existe um pedaço de mim escondido entre suas pétalas.
Talvez porque, assim como ele, eu também tenha passado tanto tempo procurando uma luz que quase me esqueci de tudo o que crescia dentro de mim.
Eu conheço a escuridão. Não aquela que chega quando o sol se põe, mas aquela que se instala por dentro, quando a vida continua acontecendo lá fora e, ainda assim, alguma coisa em nós já não sabe como continuar.
Conheço os dias em que florescer parecia uma tarefa impossível, em que carregar o próprio coração era mais difícil do que explicar ao mundo por que eu já não era a mesma.
E talvez ninguém tenha percebido quantas vezes precisei me reconstruir em silêncio, quantas versões de mim precisei deixar partir para que a mulher que sou hoje pudesse finalmente respirar.
Mas o girassol me faz pensar que nem toda beleza nasce da facilidade. Existem flores que carregam no caule a memória dos ventos, e pétalas que só existem porque, apesar de tudo, a vida insistiu em continuar.
E eu também insisti.
Mesmo quando meus sonhos perderam a cor, mesmo quando algumas despedidas levaram consigo partes de quem eu era, mesmo quando precisei aceitar que certas coisas não voltariam a ser como antes.
Eu insisti.
Não porque fosse forte todos os dias, mas porque, no fundo, havia em mim alguma coisa pequena, quase invisível, que ainda acreditava na possibilidade de uma nova primavera.
E hoje compreendo: talvez eu tenha passado tempo demais procurando no mundo a luz que me faltava, sem perceber que algumas luzes não chegam para nos salvar.
Chegam apenas para nos lembrar que ainda podemos nos salvar daquilo que nos convenceu de que não havia mais saída.
O girassol não me ensina a nunca sofrer. Ensina-me que a dor não precisa ser o destino final de uma história.
Que posso carregar cicatrizes sem fazer delas minha identidade. Que posso sentir saudade de quem fui sem precisar voltar a ser aquela pessoa. Que recomeçar não significa esquecer o que me quebrou, mas descobrir que aquilo não teve o poder de me terminar.
E, se hoje minhas pétalas são diferentes, se meu olhar já não procura as mesmas coisas, se aprendi a reconhecer a ausência sem confundi-la com o meu próprio vazio, é porque alguma coisa em mim amadureceu até mesmo nos invernos que eu jamais teria escolhido viver.
Talvez seja isso que me une ao girassol: não a obrigação de estar sempre voltada para a luz, mas a liberdade de continuar sendo flor mesmo nos dias em que o céu não me responde.
Porque eu não quero mais florescer apenas para provar que sobrevivi.
Quero florescer porque ainda há vida em mim. Porque ainda existem caminhos que desconheço, sonhos que não tiveram sua vez, e uma versão de mim que merece conhecer a paz de não precisar lutar o tempo inteiro.
E quando eu finalmente olhar para trás, não quero enxergar apenas os jardins que não consegui cultivar, nem as estações que me fizeram chorar.
Quero reconhecer a mulher que atravessou cada uma delas sem saber exatamente onde chegaria, mas que, mesmo ferida pela vida, não permitiu que a dor lhe roubasse para sempre a capacidade de florescer.
Porque eu e o girassol temos algo em comum: não somos feitos apenas da luz que recebemos, mas também de tudo aquilo que conseguimos atravessar sem deixar morrer a possibilidade de florescer.
E talvez meu maior recomeço não seja o dia em que eu voltar a sorrir, nem aquele em que o mundo perceber que finalmente estou bem.
Talvez seja o instante silencioso em que eu olhar para mim mesma e já não enxergar apenas tudo o que perdi, mas também tudo o que, apesar de tudo, consegui me tornar.
E, nesse dia, não precisarei mais perguntar ao sol se ainda mereço a luz.
Serei apenas eu, de raízes profundas, pétalas imperfeitas e coração aberto para a vida.
Eu e o girassol.
Duas histórias que conheceram as sombras, mas que ainda guardam, dentro de si, a coragem de florescer.
Não porque nunca conheceram a escuridão, mas porque descobriram que a escuridão também pode ser o lugar onde um novo começo cria raízes. 🌻