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Capítulo 2

Bamapa

Conteúdo da publicação

Depois que recebi essa oferta de emprego, várias coisas têm se passado em minha cabeça. Primeiro, como vou conseguir sobreviver durante seis meses longe da minha família (se bem que moro em outro estado, bem longe deles, mas, ainda assim, é o mesmo país), amigos, meu país e meu idioma. Segundo, eu não sou nada padrão, minha pele é parda, meus cabelos são cacheados e vermelho-vivo, olhos grandes e castanhos, cheia de tatuagens. Como vou sobreviver em uma sociedade em que basicamente todos são padrão? Tenho me preocupado bastante com isso. O terceiro é o pior de todos: será que vou conseguir sobreviver sem o arroz e o feijão? Enquanto estou perdida em pensamentos, ouço meu telefone tocar.

— Oi, mãezinha — digo de uma forma carinhosa.

— Oi, filhinha, já arrumou as suas coisas? — diz ela, eufórica.

— Estou no meio disso, mas não sei muito bem o que levar — digo, brincando com um cacho rebelde.

— Paola, te conheço bem, sei que você está vendo alguma forma de levar a casa toda na mala, igual como faz todas as vezes que vem passar as festas de final de ano aqui — diz, sorrindo do outro lado da linha.

— Claro, mãe, preciso de opções para todas as ocasiões. Mas, dessa vez, eu vou morar em outro lugar durante seis meses — digo com o pensamento longe.

— Você precisa se organizar logo, Paola, sua viagem é depois de amanhã. Você e sua mania de deixar tudo para o último minuto — briga ela.

— Tá bem, velhinha, vou me organizar aqui. Até mais tarde — digo, desligando o celular.

Agora sim, depois da pressão da minha mãe, consigo fazer uma lista e me organizar melhor.

DIA DA VIAGEM

Estou aqui no aeroporto, cheia de ansiedade para entrar logo no avião. Acho que exagerei nas malas, foram mais de cinco despachadas. Pelo menos estou levando só o necessário: todas as minhas roupas, sapatos, livros, pincéis, tintas. Tudo o que vou precisar para me sentir eu mesma. Sei que na Coreia deve ter todas essas coisas, mas eu queria levar um pouco do meu espaço.

O voo foi longo e exaustivo. Quando cheguei, me senti totalmente perdida, deslocada, mas logo pensei no meu trabalho. Eu amo a arte! E poder trazer meus conhecimentos para outras pessoas me deixa muito feliz.

Eu comecei a amar a arte depois de um período de muito sofrimento para mim. Pintar me trazia esperança nos meus dias de escuridão. Depois, comecei a inserir a arte no meu trabalho. Criei projetos de canto, desenho e pintura. Foi isso que chamou a atenção do Sr. Park. Ele se interessou pela leveza do projeto e em como as crianças da escola o abraçavam.

Quando desembarquei, já eram 17h30 da tarde. Havia uma moça de cabelos lisos até a cintura, olhos marrons, pele bem branca e lábios vermelhos, me esperando com uma placa escrita com meu nome. Mais tarde, descobri seu nome: Jeong Ji Yeon. Ela era tradutora e advogada da escola e iria me apresentar o contrato.

Assim que entramos no carro, Ji Yeon começou a falar:

— Então, Paola, o Sr. Park me pediu para ficar responsável por você — disse, sorrindo. — Vou levar você ao apartamento onde ficará hospedada até o fim do contrato.

— Obrigada! — lhe disse, um pouco tímida.

— Amanhã teremos uma reunião com os proprietários da escola e você poderá falar suas exigências necessárias para ter uma vida confortável. Eu serei sua tradutora e acompanhante. Qualquer dúvida, pode entrar em contato comigo, pois apenas eu e o Hong Seo-Ho sabemos falar em português — disse, solícita.

— Vou poder pedir o que quiser e serei atendida? — perguntei com os olhos brilhando.

— Sim, seu projeto é muito importante para nós — falou, sorrindo.

Chegamos ao apartamento. Era um lugar perfeito para mim. Tinha uma sala com grandes janelas de vidro e um lugar que seria perfeito para o meu escritório. A cozinha era pequena, mas espaçosa. Meu quarto tinha uma enorme cama de casal e um closet. Era perfeito. Ao decorrer do tempo, deixaria ele mais a minha cara.

— Bom, Paola, amanhã virei te buscar às 15 horas — disse, se despedindo.

Ninguém me avisou como é difícil se acostumar com o fuso horário. São 2h30 da madrugada no Brasil. Me sinto completamente esgotada, porém preciso me organizar para essa reunião. Deixo meus cachos soltos, coloco uma maquiagem bem leve, mas nunca sem o meu delineador. Coloco um vestido midi preto social e uma jaqueta de couro, pois hoje está um pouco frio.

A reunião correu muito bem. Ji Yeon traduziu tudo para mim e, para facilitar ainda mais minha vida, pediu para que eu escolhesse um meio de transporte. E é lógico que eu escolhi uma moto. Detalhe sobre mim: eu adoro motos, me sinto livre pilotando. Escolhi uma Hyosung Aquila GV250.

Fico impressionada com o quanto estou sendo valorizada aqui. Não que no Brasil eu não fosse, mas aqui é como se eles estivessem enxergando ouro em mim.

Saí da reunião, fui buscar a moto junto com Ji Yeon. Ela me deu as coordenadas completas, colocou o GPS no meu celular no meu idioma, para que eu pudesse me encontrar, e assim eu saí pela primeira vez na minha moto, em busca de uma cafeteria para fazer o esqueleto do meu projeto.

Encontro uma bem aconchegante perto do meu apartamento, estaciono a moto e entro. Do lado de dentro, o local está lotado, e só há uma mesa bem afastada desocupada. Notei que tinha uma placa vermelha, mas não liguei muito. Liguei meu notebook, peguei minha agenda, minhas canetas, pedi meu bom café com leite e comecei a trabalhar. Estava tão concentrada que nem reparei quando um homem falou comigo em coreano em um tom muito arrogante. Falo coreano? Ainda não, mas sei quando alguém me trata mal. Peguei meu celular, liguei o tradutor e digitei que era brasileira. Foi aí que, para minha surpresa, ele disse:

— Você está no meu lugar! — disse, impaciente.

— Bom, gostaria de saber se aqui está escrito o seu nome, Sr. Arrogante — disse-lhe, irritada, pois ele atrapalhou meu trabalho.

— Não, mas, quando há uma placa vermelha, isso quer dizer R-E-S-E-R-V-A-D-O — o petulante disse, falando reservado letra por letra.

Fiquei tão puta da vida que juntei minhas coisas e levantei, dizendo:

— Faça bom proveito!

Saí em disparada para a porta do estacionamento, com o coração martelando no peito pela raiva.

— Que babaca, maldito! QUEM ELE PENSA QUE É PARA ME TRATAR MAL? — falei sozinha, colocando o capacete.

Quando estava entrando no meu apartamento, lembrei que saí tão furiosa que esqueci de pagar o café.

— Droga, tudo culpa daquele estúpido.

— Amanhã, quando for para o trabalho, passo por lá e pago.

Tirei minha roupa, tomei um banho demorado e me deitei assistindo à minha série conforto, FRIENDS. Olhei as mensagens do celular e havia mensagens da minha mãe, do senhor Park e uma da Ji Yeon.

Senhor Park:

Senhorita Paola, amanhã você, juntamente com a Ji Yeon e o Sr. Seo-Ho, irá trabalhar em equipe.

Ji Yeon:

Paola, amanhã teremos um longo caminho pela frente. Acho que o Sr. Park já te alertou sobre seu parceiro de equipe.

Paola:

Sim, estou ansiosa para conhecer o Sr. Difícil.

Antes de pegar no sono, a imagem do babaca mal-educado veio em meus pensamentos. Como aquele idiota podia ser tão bonito? Alto, cabelos um pouco acima do ombro, com o coque samurai, branco e com os olhos mais lindos que eu já vi. Além de tudo, ainda vestia uma camisa do Metallica. Se não fosse a forma como nos conhecemos, eu com certeza me interessaria por ele.

— Aff, Paola, vai dormir, que amanhã o dia vai ser longo.

Acordei atrasada, para variar. Esse fuso horário... preciso me acostumar. Recebi uma mensagem da Ji dizendo que ela e o meu parceiro de projeto já estavam à minha espera. Me arrumei rápido, peguei minha bolsa, subi na moto e fui. Sorte a minha que a escola fica a apenas 10 minutos da minha casa.

Entrei na sala e vi apenas a Ji. Fiquei aliviada e lhe disse:

— Pelo visto, o Sr. Difícil ainda não está aqui.

Ji fez uma cara espantada.

— Então é assim que sou conhecido, Ji Yeon?

Fiquei pálida e me virei devagar, com um sorriso amarelo, mas não acreditei no que meus olhos viram. Era o babaca da cafeteria.

Ele seria meu parceiro de trabalho pelos próximos seis meses.

Thoughts

  • Laudelina

    Cinco malas com pincéis e tintas, e logo o Sr. Arrogante soletrando reservado. Em «Simplesmente Você», conto do grupo, outra brasileira também desembarca numa cidade estrangeira.

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  • Romildo

    Daí, mais de cinco malas despachadas pra seis meses kkk. Queria ver a Ji Yeon enfiando tudo isso no carro.

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  • andorinha14

    Mano, ele respondeu em português logo depois que ela digitou que era brasileira. Palpite: o Sr. Difícil é o Hong Seo-Ho, um dos dois que falam a língua por lá.

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