HONG SEO-HO
Eu sou o Sr. Difícil, mas prefiro que me chamem de Hong Seo-Ho. Sou professor de música na Escola Primária da Virtude Brilhante. Os meus alunos sabem que prezo muito pela disciplina quando se trata de aprender qualquer instrumento. Acredito que sempre devemos fazer tudo de forma metódica para, assim, obter um bom desempenho.
Há alguns meses, o diretor Park Nam me procurou para trabalhar em um projeto de arte com os alunos que, segundo ele, não se interessam mais pelo tema. Claro que fiquei muito feliz por estar à frente de um projeto dessa forma. Trabalhar com arte e, principalmente, com música me cativa de uma forma que não sei explicar.
Mas minha felicidade se esvaiu quando o Sr. Park fez uma viagem ao Brasil para saber como funcionava a educação por lá e se encantou por um projeto de uma escola. Então, chamou a professora responsável para fazer uma parceria com a nossa escola e liderar o projeto comigo. Disse que, diferentemente da nossa escola, as crianças do projeto dela tinham o prazer de participar das aulas. Ficou encantado com um tal coral musical e uma exposição de arte.
Sr. Park:
— Seo-Ho, você e Paola farão uma dupla extraordinária, confie em mim — disse-me por telefone.
— Por favor, Sr. Park, eu consigo dar conta desse projeto sozinho! Não preciso de alguém para me ajudar — falei seriamente.
— Sem mais discussões, Seo-Ho! Quero aproveitar meu último dia aqui no Brasil. Estou muito feliz que a Paola aceitou nossa oferta. Ela é um amor de menina, aposto que vocês se darão muito bem! — Desligou o telefone.
Bufei de frustração. Como vou fazer para trabalhar ao lado de uma estranha? Não faço ideia de como ela trabalha. Com certeza, vai só me atrapalhar. Mas, se o diretor decidiu, então está decidido. Ela vai ter que se adequar ao meu trabalho.
ALGUNS DIAS DEPOIS...
Saio do trabalho e ligo para o meu amigo Kim Ha-jun. Ele é dono de uma cafeteria que se chama COFFER with MUSIC. É longe da minha casa, mas eu gosto de ir lá para trabalhar. Às vezes, faço alguns shows por lá, e o lugar é o meu refúgio.
— Reserva a minha mesa, chego em algumas horas. Vou passar em casa para tomar um banho.
— Oi, estou bem. Obrigado por perguntar, meu amigo! Reservo, sim! — disse ele de forma irônica.
— Sem gracinhas hoje, Ha-jun. Estou sem cabeça. Amanhã vou conhecer a tal Paola e estou estressado desde já!
— Ok, ok, meu amigo! Reservada desde já!
Desliguei o telefone e fui tomar uma ducha bem quente para aliviar o meu estresse.
Saí do banho, vesti uma roupa confortável: calça preta, camisa preta e meu coturno. Peguei as chaves da minha moto, minha mochila e saí.
Quando cheguei à cafeteria, o local estava lotado. Odeio locais lotados, mas fico feliz pelo meu amigo ter ficado popular. Sigo em direção à minha mesa e vejo que está ocupada por uma moça de cabelos vermelho-vivo que, com certeza, não é daqui. Parto em direção ao meu lugar e digo:
— Você está no meu lugar!
Estou visivelmente impaciente, pois precisava rever o meu projeto para apresentá-lo amanhã.
Ela pegou o celular e começou a digitar algo. Depois, colocou-o na minha direção. A voz do Google Tradutor dizia: “Eu sou brasileira, não compreendo muito bem o seu idioma”. Então, na mesma hora, eu lhe disse em sua língua nativa:
— Você está no meu lugar! — Morei no Brasil durante sete anos. Foi um ótimo período da minha vida.
— Bom, gostaria de saber se aqui está escrito o seu nome, Sr. Arrogante — disse ela, visivelmente irritada.
Mas ela foi a petulante! Será que não viu a placa vermelha?
— Não, mas, quando há uma placa vermelha, isso quer dizer R-E-S-E-R-V-A-D-O — soletrei.
Ela se levantou rapidamente, com o rosto vermelho da cor de seus lindos cachos. Não sou cego, né? A irritante era linda. Ela me disse:
— Faça bom proveito! — E voou porta afora.
Até que foi uma discussão cativante. A maioria das pessoas daqui sempre faz minhas vontades e nunca me contraria. Foi ótimo ter uma boa discussão com alguém que, visivelmente, não baixa a cabeça.
No outro dia, cheguei cedo ao trabalho. Quero estar preparado para essa reunião. Algum tempo depois, chega Ji-Yeon, sempre com um sorriso nos lábios. Parece o idiota do Ha-jun.
— Bom dia, Hong Seo-Ho — falou, acenando.
— Bom dia!
— Vamos esperar a Paola chegar para iniciarmos a nossa reunião.
— Você sabe que não é necessário. Eu sei falar português fluentemente — falei, bufando.
— Do jeito que você está, é capaz de morder nosso cordeirinho. Então, não quero deixá-los sozinhos. Que fique bem claro que são ordens do diretor.
— Bom, já deu o horário, e o seu “cordeirinho” não apareceu. Você sabe que não tolero atrasos!
Ela ficou em silêncio. Sabia que eu tinha razão.
Saí da sala para buscar um café. Ao voltar, escutei uma voz com um sotaque marcante do Brasil. Espera aí, eu conheço essa voz! É parecida com a da irritante da cafeteria.
Quando entrei na sala, era justamente quem eu estava pensando: a irritante da cafeteria. Ela começou a pedir desculpas e depois soltou a seguinte frase:
— Pelo visto, o Sr. Difícil ainda não está aqui. Ainda bem!
De uma forma bem sarcástica, respondi:
— Então é assim que sou conhecido, Ji-Yeon?
Ela ficou pálida como uma folha de papel. Então, era com a irritante que eu teria que dividir o projeto por seis meses.
PAOLA BITTENCOURT
Caraca, por essa eu não esperava! O babaca da cafeteria era o Sr. Difícil, e eu teria que dividir um projeto com ele por seis meses. Esses meses vão ser extremamente longos.
Coloquei o melhor sorriso que pude e me apresentei.
— Olá, sou Paola Bittencourt. Vamos ser parceiros durante esses meses. Espero que a gente consiga entrar em sintonia — falei, simpática.
Nossa, mas como aquele homem era perfeito! Seus cabelos iam até um pouco acima dos ombros, tão lisos e sedosos que brilhavam com a claridade. Acho que o corte se chama repicado. A pele era tão branca quanto a primeira neve, e os olhos eram de um marrom tão intenso que pareciam olhar no fundo da minha alma. Porém, o que mais me chamou a atenção foram os seus lábios, que eram vermelhos iguais a cerejas.
Ele também tinha um estilo marcante, com argolas nas orelhas. Sério, se eu não soubesse que essa criatura já me odeia desde antes da viagem, ele seria meu tipo ideal.
— Absolutamente contra a minha vontade, mas preciso obedecer às ordens.
PUTA MERDA! Que cara mais arrogante!
O decorrer da reunião foi um terror. Tudo o que eu falava, ele rebatia, não concordava ou dava risadinhas sarcásticas, dizendo ser impossível.
— Eu não acho que a ludicidade seja a chave — disse, zombando. — Os alunos precisam de teoria e foco, principalmente para fazer arte.
— Eu sou pedagoga, além de professora de artes. Se tem uma coisa que eu sei é que os alunos aprendem melhor se estiverem numa atmosfera mais lúdica — disse, bufando.
Foi nessa hora que o Sr. Park entrou na sala e soltou mais essa bomba:
— Meus dois artistas, vejo que a reunião está acalorada — falou inocentemente, se ele soubesse que eu estava a ponto de esganar o professor dele.
— Hong, o conselho e eu decidimos que você vai ser a pessoa responsável por ajudar a Paola a aprender coreano.
— O quê? Por quê? — disse, assustado.
— Vocês irão trabalhar juntos no projeto, então unimos o útil ao agradável — disse com a voz mansa.
— Sr. Park, eu posso ajudar a Paola — interveio Ji-Yeon.
— Não, Ji-Yeon, vou precisar de você.
— Sr. Park, eu não quero incomodar o Sr. Arrogante... Quer dizer, o Sr. Hong. Então, eu me viro. Aprendo as coisas de forma rápida — dei o golpe de misericórdia.
Ia ser um inferno ter esse homem como meu professor. Ele vai me torturar!
— Sem mais, Paola. Foi uma decisão do conselho!
— Tudo bem, diretor. Se eu não tenho escolha, eu ensino a Paloma.
— É PAOLAAAAA, PAOLAAAA! — gritei, sem paciência com aquele homem.
— Até mais, meus queridos! Hong, inicie as aulas amanhã mesmo. Quero que Paola consiga se comunicar com os alunos da forma dela.
— Sim, senhor!
Após essa notícia, arrumei minhas coisas e fui em direção à minha moto. Precisava de um chocolate quente e iria para aquela cafeteria.
Coloquei a chave na ignição, mas a moto não funcionava de forma nenhuma.
— Era só o que me faltavaaaaaa! — falei, chutando a moto.
— Ei, Paloma, sei que você não gostou muito de mim, mas não precisa bater na minha moto — falou o arrogante, vindo em minha direção.
— Essa moto é minha!
— Ah, é? — disse, colocando a chave e fazendo a moto funcionar na mesma hora.
Meu Deus, quantas humilhações uma pessoa precisa passar para o senhor levar? Porque acho que ultrapassei o limite.
— Desculpe, Sr. Hong, mas as motos são idênticas e me confundi. Até mais!
O que a gente não faz por um intercâmbio...