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Entre a Raiva e a Temperança

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Por muitas vezes, parece que, por mais que eu tente, por mais que busque a evolução espiritual, ainda existe uma fagulha dentro de mim que, ao menor sinal de fogo, se incendeia e já não consegue enxergar o que está à sua frente. Na minha mocidade, isso parecia até uma qualidade. Sempre tive ótimos resultados em provas, trabalhos e debates quando estava com raiva. Sempre fui capaz de criar a partir dela, de transformar o incômodo em movimento, a indignação em palavras, o sentimento em alguma coisa concreta. 

Mas, de um tempo para cá, parece que tudo o que consigo fazer com essa chama é ferir. Ferir quem concorda comigo, ferir também quem discorda. Como se, no instante em que o fogo se acende, eu perdesse a medida das coisas e me esquecesse de que nem toda batalha precisa ser travada. E, por mais contraditório que pareça, sinto-me errada até mesmo quando escolho o silêncio.

E eu estou cansada.

Cansada de me sentir errada. Cansada de ferir e de ser ferida. Cansada, também, de me importar tanto. Porque, quando a ferida é minha, parece sempre haver uma explicação. É drama, não foi nada, não foi por mal. Sempre existe uma justificativa para as palavras que cortam, para os olhares que machucam, para a insensibilidade de pessoas que também se dizem sensíveis. Sempre há um motivo, uma circunstância, um contexto que torna tudo compreensível, menos a dor de quem ficou do outro lado.

Mas, quando sou eu quem fere, não encontro em mim a mesma indulgência. Eu me martirizo por semanas. Às vezes, por anos. Repasso as palavras, revisito as cenas, procuro o instante exato em que poderia ter feito diferente. E, assim, permaneço presa a um ciclo que parece não conhecer o fim. Machuco, arrependo-me, tento compreender, prometo mudar e, diante de uma nova chama, volto a temer a mim mesma. É um looping eterno, uma roda que gira sem sair do lugar.

E, enquanto isso, vou me afogando. Afogando-me na angústia dos sentimentos, no excesso dos pensamentos, no tumulto das emoções. E, no fundo de tudo, como se fosse  a mesma sensação, o lema: você está errada.

Então, tenho tentado me calar. Voltar-me para dentro, concentrar-me em mim, alcançar o lugar mais íntimo do meu ser, aproximar-me de Deus. Tenho buscado o silêncio como quem procura abrigo de uma tempestade, como quem deseja, por alguns instantes, descansar de si mesma. E, quando estou apenas vivendo a minha espiritualidade, quando me recolho e me entrego ao que acredito ser sagrado, sinto-me bem, sinto-me equilibrada, inteira, em paz. Mas basta que algo me contrarie, que eu testemunhe uma injustiça ou me depare com aquilo que não consigo aceitar, para que a velha fagulha volte a arder. A raiva desperta, a rebeldia se levanta, e aquela chama que eu julgava adormecida torna a iluminar, ou a consumir, tudo ao redor.

Mas será que isso é, de fato, um problema? Será que a raiva precisa ser apagada por completo? Será que o desejo de combater aquilo que considero injusto é, por si só, um defeito? Ou será que o problema está na maneira como acolho essa chama, no que faço com ela quando deixa de ser luz e passa a ser incêndio?

Eu não sei.

Já não sei o que é certo, o que é errado, o que faço bem, o que faço mal. Há momentos em que já não consigo distinguir a consciência que me orienta da culpa que me aprisiona. Sei que existe o bem dentro de mim, mas sei também que existem as falhas, as sombras, os erros que ainda não aprendi a reconhecer sem me condenar. Sei que não sou perfeita, longe disso. E talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente aceitar essa imperfeição sem usá-la como sentença contra mim mesma.

Eu tento pregar a gentileza, a humanidade, a compreensão. E acredito verdadeiramente nisso. Acredito na delicadeza como forma de existência, na possibilidade de sermos mais cuidadosos uns com os outros, na importância de não nos esquecermos de que cada pessoa carrega consigo dores que nem sempre podemos enxergar. Mas também sei que, em muitas situações, não sou gentil. Sei que, às vezes, minhas palavras se tornam duras, que minha indignação ultrapassa os limites do que eu gostaria de ser, que nem sempre consigo oferecer ao outro a compreensão que tanto desejo receber.

Ainda assim, quero ser melhor.

Quero aprender a olhar para as minhas sombras sem permitir que elas determinem quem sou. Quero que os sentimentos ruins que habitam em mim percam a força, que se dissolvam no ar, que deixem de encontrar em qualquer pequena faísca uma razão para incendiar tudo. Mas sei que não é assim que as coisas acontecem. Ninguém se transforma de uma vez, ninguém abandona suas próprias contradições da noite para o dia. Talvez eu esteja no caminho. Talvez seja este o processo, e talvez, ele se molde lento, imperfeito, cheio de retornos e recomeços. Talvez eu precise aceitar que, muitas vezes, ele é amargo.

Mas a vida é linda, é colorida, é possível. Eu sei disso, mesmo que às vezes eu me esqueça. Sei que existe beleza para além das minhas confusões, que há dias em que o mundo parece caber na simplicidade de um instante. Sei que ainda existem encontros, descobertas, afetos e pequenos milagres capazes de nos devolver a vontade de continuar. Não quero perder as esperanças. Não quero que o cansaço me faça esquecer a beleza de estar viva, nem que as minhas falhas me convençam de que não sou capaz de florescer.

Por isso, escrevo. Escrevo para alinhar as minhas confusões, para dar algum contorno ao que, dentro de mim, parece não ter forma. A cada letra digitada, é como se a minha alma pudesse respirar um pouco mais fundo. Como se as palavras abrissem pequenas frestas por onde o ar finalmente pudesse entrar.

Tenho buscado a escrita com a mesma sede, o mesmo desespero e, ao mesmo tempo, o mesmo alívio do primeiro gole de água depois de uma corrida interminável. Uma corrida que, muitas vezes, não acontece no mundo lá fora, mas dentro de nós. Essa corrida incessante que a mente inquieta e a alma agitada nos impõem cotidianamente, como se fosse preciso compreender tudo, resolver tudo, encontrar respostas para tudo, antes mesmo de nos permitirmos descansar.

E eu procuro Deus para me pacificar. Procuro-o não porque espere que Ele elimine todas as minhas contradições, mas porque desejo aprender a habitá-las de outra maneira. Não escrevo estas palavras para culpá-lo pelas vezes em que não consigo encontrar a paz que procuro. Não seria justo atribuir a um Pai tão amoroso a responsabilidade pelos meus próprios erros, pelas minhas escolhas, pelas batalhas que ainda preciso aprender a travar,  e, sobretudo, por aquelas das quais talvez eu precise aprender a me retirar.

Acredito que, se estou neste mundo, é também para aprender. E penso que o aprendizado se faz no amor, sim, mas também na dor. Não porque a dor seja necessária em tudo, nem porque o sofrimento, por si só, nos torne melhores, mas porque existem experiências que nos revelam partes de nós que talvez nunca tivéssemos conhecido de outra forma. Há feridas que nos ensinam sobre os nossos limites, quedas que nos obrigam a rever o caminho, encontros que nos mostram o que ainda precisamos transformar em nós.

Ninguém atravessa esta Terra sem ser marcado. Todos carregamos as marcas do que vivemos, do que perdemos, do que dissemos, do que silenciamos, do que fizemos e do que não conseguimos fazer. Algumas dessas marcas nos endurecem; outras nos tornam mais sensíveis. Algumas nos afastam de nós mesmos; outras nos conduzem, pouco a pouco, de volta para casa.

E eu espero que, entre tantas marcas, eu também encontre a temperança. Que eu aprenda a não confundir o silêncio com a paz, nem a raiva com a força. Que eu não precise me apagar para ser gentil, nem ferir para me fazer ouvir. Que eu consiga defender aquilo em que acredito sem me perder de mim mesma, reconhecer os meus erros sem me transformar neles e acolher a minha humanidade sem deixar de buscar a minha evolução.

Talvez eu nunca deixe de sentir essa fagulha. Talvez ela faça parte de mim, da minha maneira de perceber o mundo, de me indignar, de amar aquilo que considero justo. Mas espero aprender a cuidar dela. A reconhecer quando precisa ser chama e quando ameaça se tornar incêndio. A compreender que nem toda indignação exige uma batalha, que nem toda discordância precisa terminar em ferida e que a paz não significa, necessariamente, ausência de conflito.

Talvez crescer espiritualmente não seja deixar de sentir raiva, tristeza ou indignação. Talvez seja aprender a não entregar a elas o comando de quem somos.

E talvez a temperança não seja o fim do fogo, mas a sabedoria de aprender a conduzi-lo.

Por enquanto, sigo assim, entre o que sou e o que desejo ser, entre a raiva que me incendeia e a fé que me recolhe, entre a culpa que me prende e a esperança que me chama para a frente. Ainda confusa, ainda aprendendo, ainda errando.

Mas sigo. Porque, apesar de tudo, ainda acredito no amor. Ainda acredito na gentileza. Ainda acredito em Deus, na vida e na possibilidade de me tornar alguém que não precise escolher entre ser verdadeira e ser boa. E, enquanto não encontro todas as respostas, continuo escrevendo, continuo buscando, continuo tentando.

Talvez seja isso, afinal, aprender a viver não é chegar ao fim sem falhas, mas atravessar cada uma delas com a disposição de compreender, reparar e recomeçar. Com a esperança de que, um dia, a paz que tanto procuro fora e dentro de mim já não dependa de silenciar quem sou, mas de aprender, finalmente, a ser inteira.


Thoughts

  • Lucimar

    Mulher, a conta que você faz não vale igual pros dois lados. Quando te ferem, sempre aparece desculpa, e quando é você, nenhuma. Se a regra fosse uma só, você ia ter que se perdoar mais, ou cobrar mais dos outros.

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  • IntrusiveThoughts

    Me ficou a parte em que a raiva, antes útil em provas e debates, passa a ferir. Sobre se recolher em silêncio, o ensaio «Cada um ,tem um destino !✨ 🔮» separa solitude de solidão.

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  • IntrusiveThoughts

    Você se sente errada até quando escolhe o silêncio, e isso me parece separar duas coisas que o texto às vezes junta: a raiva e a culpa por ter sentido raiva.

    A primeira aparece diante de uma injustiça e passa. A segunda fica semanas, às vezes anos, e pelo que você descreve é ela que cansa.

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