Uma reflexão sobre uma humanidade que aprendeu a sobreviver, mas se esqueceu de viver.
Quando você irá perceber
que o mundo funciona ao contrário?
Que os loucos, às vezes, são os únicos
que ainda ousam questionar a realidade,
enquanto os considerados normais
passam a vida inteira
obedecendo à própria infelicidade?
Construímos prédios tão altos
para esconder o quanto nos sentimos pequenos,
inventamos relógios para controlar o tempo
e, ainda assim,
não sabemos o que fazer
com os minutos que nos restam.
Chamamos de sucesso
a capacidade de conquistar o mundo,
mas ninguém nos ensinou
o que fazer quando perdemos a nós mesmos.
Aprendemos a calcular fortunas,
mas não sabemos medir a saudade.
Aprendemos idiomas para conversar com estrangeiros,
mas desaprendemos a linguagem
de quem está ao nosso lado.
De que adianta ser alguém aos olhos do mundo
se, quando a noite chega,
você já não reconhece quem existe no espelho?
Talvez essa seja a maior tragédia da humanidade:
não a falta de respostas,
mas a quantidade de perguntas
que deixamos morrer dentro de nós.
Há pessoas tão pobres
que a única coisa que possuem
é dinheiro.
E há outras tão famintas de amor
que confundem qualquer migalha
com um banquete.
O mundo nos ensinou a competir
quando deveríamos aprender a compreender.
Ensinou-nos a acumular
quando deveríamos aprender a repartir.
E, nessa corrida absurda para chegar a algum lugar,
quantos de nós já chegaram longe
sem jamais terem saído do próprio vazio?
Quantos vestem a armadura da indiferença
porque um dia sentiram demais?
Quantos transformaram o coração em fortaleza
depois que alguém lhes ensinou
que amar era oferecer munição
para a própria tristeza?
Talvez cada pessoa que atravessa a rua
carregue uma guerra que não sabemos nomear,
um pedido de socorro que não aprendeu a pronunciar,
uma infância que ainda procura abrigo
dentro de um adulto que finge saber o caminho.
E nós passamos.
Com os olhos presos às telas,
os pensamentos presos ao amanhã
e o coração preso a um passado
que juramos ter superado.
Quando foi que nos tornamos tão ocupados
tentando viver melhor
que nos esquecemos de simplesmente viver?
Talvez o verdadeiro vendedor de sonhos
não seja aquele que oferece ilusões,
mas aquele que nos devolve a coragem
de questionar as certezas
que nos mantêm aprisionados.
Porque há sonhos que não precisam ser comprados.
Precisam ser resgatados.
A coragem de recomeçar.
A liberdade de dizer não.
A humildade de admitir que estamos perdidos.
A ousadia de abandonar uma estrada
só porque todos juram
que ela é a única que leva ao destino.
Talvez o mundo comece a mudar
quando deixamos de perguntar
quanto vale uma pessoa
e começamos a perguntar
quanta humanidade existe
na maneira como a tratamos.
Não precisamos de uma humanidade
que nunca caia.
Precisamos de uma que, ao encontrar alguém no chão,
não pergunte primeiro por que ele caiu,
mas se ainda consegue levantar.
E, se não conseguir,
que se sente ao lado dele
até que o peso do mundo
deixe de parecer impossível.
Porque talvez a maior revolução
seja interromper a própria dor
antes que ela se transforme
na ferida de outra pessoa.
É conhecer a crueldade da existência
e, ainda assim,
escolher não se tornar cruel.
E agora eu volto à pergunta:
Quando você irá perceber
que o mundo funciona ao contrário?
Quando irá entender
que nem todo silêncio significa paz,
que nem todo sorriso é felicidade
e que nem toda pessoa que parece louca
perdeu a razão?
Talvez a pergunta nunca tenha sido
por que o mundo funciona ao contrário.
Talvez a pergunta seja outra:
Se você já percebeu,
por que continua ajudando-o
a permanecer assim?