Ao começar a pensar sobre pertencer a algum lugar, veio à minha cabeça uma pergunta: o que realmente significa pertencer a algum lugar?
Será que é quando nos encaixamos naquele ambiente, quando temos amigos, empregos e outras coisas que nos fazem sentir parte de algo?
Para mim, pertencer a algum lugar não é apenas isso. Pertencer é existir perante a sociedade, no espaço em que você gostaria de estar, sem precisar justificar constantemente a própria existência.
Ao pensar por esse lado, podemos perceber que aquilo que vemos à nossa volta pode não ser exatamente aquilo que desejamos. Como mencionei anteriormente, muitas vezes sentimos que precisamos justificar nossa existência. Talvez seja por isso que algumas pessoas recorrem a substâncias como álcool, drogas e nicotina: a ausência de pertencimento pode gerar um vazio que nos consome aos poucos e, na tentativa de silenciá-lo, os vícios podem surgir como uma forma de fuga.
Para mim, o cigarro e a nicotina também representam o refúgio de uma mente que não consegue ficar quieta. Nunca consegui me sentir verdadeiramente encaixado em algum lugar, seja entre pessoas, seja em ambientes de trabalho ou escolares. Essa ausência de pertencimento corrói você quando observa as pessoas à sua volta criando conexões das quais parece não conseguir fazer parte. Claro, também é possível que parte dessa dificuldade esteja relacionada à maneira como construí minhas conexões com as pessoas e os ambientes.
Ao olhar para minha própria perspectiva, percebo que sempre senti um enorme vazio à minha volta, como se existisse um buraco de dezenas de quilômetros entre mim e as outras pessoas. Elas estavam ao meu redor, mas nunca pareciam realmente se aproximar.
Na tentativa de preencher esse espaço, tomei uma das decisões mais equivocadas que poderia tomar: decidi me moldar para pertencer a algum lugar, movido pelo medo de ficar sozinho.
Fingir ser quem você não é apenas para não ficar sozinho talvez seja uma das maiores demonstrações do medo que podemos sentir de nós mesmos. Afinal, até que ponto somos capazes de abandonar quem realmente somos para conquistar a aceitação dos outros?
Ao refletir sobre isso, percebi uma semelhança entre essa situação e o paradoxo do navio de Teseu.
Se todas as peças de um navio forem substituídas ao longo do tempo, ele continuará sendo o mesmo navio? E, se eu modificar tantas partes de mim mesmo, abandonando minhas características e assumindo outras apenas para pertencer a algum lugar, em que momento deixarei de ser quem sou?
Será que, se eu fingir pertencer a algum lugar por tempo suficiente, a ponto de acreditar na minha própria encenação, ainda serei eu mesmo?