Ler o paradoxo de Teseu em quem se molda para caber num lugar foi uma virada inesperada. Em “Paredes”, outro texto do grupo, um muro vai cedendo com o tempo, sem ninguém o atravessar.
pensamentos sobre pertencer a algum lugar
Pensamento
Ler o paradoxo de Teseu em quem se molda para caber num lugar foi uma virada inesperada. Em “Paredes”, outro texto do grupo, um muro vai cedendo com o tempo, sem ninguém o atravessar.
Conteúdo da publicação
Ao começar a pensar sobre pertencer a algum lugar, veio à minha cabeça uma pergunta: o que realmente significa pertencer a algum lugar?
Será que é quando nos encaixamos naquele ambiente, quando temos amigos, empregos e outras coisas que nos fazem sentir parte de algo?
Para mim, pertencer a algum lugar não é apenas isso. Pertencer é existir perante a sociedade, no espaço em que você gostaria de estar, sem precisar justificar constantemente a própria existência.
Ao pensar por esse lado, podemos perceber que aquilo que vemos à nossa volta pode não ser exatamente aquilo que desejamos. Como mencionei anteriormente, muitas vezes sentimos que precisamos justificar nossa existência. Talvez seja por isso que algumas pessoas recorrem a substâncias como álcool, drogas e nicotina: a ausência de pertencimento pode gerar um vazio que nos consome aos poucos e, na tentativa de silenciá-lo, os vícios podem surgir como uma forma de fuga.
Para mim, o cigarro e a nicotina também representam o refúgio de uma mente que não consegue ficar quieta. Nunca consegui me sentir verdadeiramente encaixado em algum lugar, seja entre pessoas, seja em ambientes de trabalho ou escolares. Essa ausência de pertencimento corrói você quando observa as pessoas à sua volta criando conexões das quais parece não conseguir fazer parte. Claro, também é possível que parte dessa dificuldade esteja relacionada à maneira como construí minhas conexões com as pessoas e os ambientes.
Ao olhar para minha própria perspectiva, percebo que sempre senti um enorme vazio à minha volta, como se existisse um buraco de dezenas de quilômetros entre mim e as outras pessoas. Elas estavam ao meu redor, mas nunca pareciam realmente se aproximar.
Na tentativa de preencher esse espaço, tomei uma das decisões mais equivocadas que poderia tomar: decidi me moldar para pertencer a algum lugar, movido pelo medo de ficar sozinho.
Fingir ser quem você não é apenas para não ficar sozinho talvez seja uma das maiores demonstrações do medo que podemos sentir de nós mesmos. Afinal, até que ponto somos capazes de abandonar quem realmente somos para conquistar a aceitação dos outros?
Ao refletir sobre isso, percebi uma semelhança entre essa situação e o paradoxo do navio de Teseu.
Se todas as peças de um navio forem substituídas ao longo do tempo, ele continuará sendo o mesmo navio? E, se eu modificar tantas partes de mim mesmo, abandonando minhas características e assumindo outras apenas para pertencer a algum lugar, em que momento deixarei de ser quem sou?
Será que, se eu fingir pertencer a algum lugar por tempo suficiente, a ponto de acreditar na minha própria encenação, ainda serei eu mesmo?
Thoughts
-
PermalinkO lugar onde eu menos precisei me explicar foi a padaria da esquina, onde só sabiam que eu levava dois pães e um café. Era pouco, mas ninguém me pedia justificativa de nada.
-
PermalinkLer o paradoxo de Teseu em quem se molda para caber num lugar foi uma virada inesperada. Em “Paredes”, outro texto do grupo, um muro vai cedendo com o tempo, sem ninguém o atravessar.
-
PermalinkA pergunta do final, sobre fingir tanto tempo que você passa a acreditar na própria encenação, é a mais difícil do texto. Eu fiquei pensando que a encenação raramente convence quem está fazendo, ela cansa, e esse cansaço já mostra que tem alguém ali por baixo. Obrigado por escrever isso!
-
PermalinkBah, passei um ano torcendo pro time da turma do trabalho só pra ter assunto no almoço. Saí de lá e não lembrava nem o nome do lateral. As peças que eu troquei pra caber nunca colaram, ficaram só encaixadas.
-
PermalinkAcho que pertencer é sempre poder voltar.
Publicações relacionadas
-
A audácia de prometer
De promessas em promessas o ouvinte pode chegar a acreditar. Imagine que tudo é finito - e É - e agora o ser humano deseja prometer diante de sua finitude. Creia nas promessas de alguém que irá…
-
Quando você irá perceber que o mundo funciona ao contrário
Uma reflexão sobre uma humanidade que aprendeu a sobreviver, mas se esqueceu de viver.
-
MÁX. LIT.
Tudo o que expresso em símbolo e, ou, conceito narrativamente, capaz de (de)codificar um pedaço da psiquê, por meio da linguagem (humana) é literatura.
-
A verdadeira traição começa desde o início
Esse texto pode ser um tanto polêmico.
-
O Mundo e Tudo Que Nele Habita
Não é humanamente possível saber tudo, mas é muito possíve se fazer conhecer sobre as coisas que regem todo o universo, a humanidade, a natureza das coisas.
-
A hipocrisia de ser humano
Existe algo de profundamente perturbador na facilidade com que o ser humano condena nos outros aquilo que, em circunstâncias diferentes, seria perfeitamente capaz de cometer. Apontamos o dedo para a…
-
Esperança
Sempre falei que meu sonho de que todas as pessoas acordassem com esperança era bonito, mas impossível. Porém, peguei-me pensando que, só pelo fato de pensar assim, eu também já estou sem esperança.
-
pensamentos de um domingo anoite
quem eu sou quando ninguém está vendo?
Ao começar a pensar sobre pertencer a algum lugar, veio à minha cabeça uma pergunta: o que realmente significa pertencer a algum lugar?