Nunca soube explicar tudo o que se passa dentro de mim. Às vezes, nem eu mesma me entendo. Posso ter certeza de alguma coisa pela manhã e, à noite, estar questionando tudo outra vez. Penso demais, observo detalhes que talvez ninguém perceba e guardo sentimentos que nem sempre sei transformar em palavras.
Aprendi a gostar da minha própria companhia. Não preciso de barulho para me sentir viva, nem de alguém por perto para dar sentidos aos meus dias. Há uma tranquilidade em estar comigo mesma que poucas coisas conseguem substituir. Mas seria mentira dizer que nunca sinto falta de alguém. Também tenho vontade de compartilhar meus pensamentos, rir de coisas bobas e encontrar uma presença com a qual o silêncio não pareça distância.
O que acontece é que não sei aceitar qualquer companhia apenas para não estar sozinha.
Não me atraem as incertezas prolongadas, os jogos de interesse ou palavras que não encontram correspondência nas atitudes. Prefiro a sinceridade, mesmo quando ela dói. Não quero precisar medir o mínimo, interpretar sinais o tempo inteiro ou convencer alguém de que vale a pena ficar.
Talvez eu tenha me acostumado a resolver tudo sozinha. Quando alguma coisa me machuca, meu primeiro impulso costuma ser me recolher, pensar e tentar colocar as coisas no lugar sem envolver ninguém. Nem sempre sei pedir ajuda, e admitir que alguma coisa me atingiu pode ser mais difícil do que simplesmente fingir que não fez diferença.
Às vezes, me pergunto se essa maneira de agir me protege ou se também me afasta de experiências que poderiam me fazer bem. Ainda não tenho uma resposta para tudo. E talvez umas das minhas maiores dificuldades seja justamente aceitar que não posso saber.
Não quero que alguém precise me decifrar. Quero poder ser compreendida sem transformar cada sentimento em uma explicação, sem precisar justificar meus momentos de silêncio ou esconder minhas contradições para parecer mais fácil de amar.
Tenho minhas próprias exigências, meus limites e minhas maneiras de enxergar o mundo. Não espero que todos concordem comigo, mas não consigo viver apenas pra corresponder os que esperam de mim. Preciso sentir que minhas escolhas me pertencem, mesmo quando erro, mesmo quando ainda não sei exatamente para onde estou indo.
Por muito tempo, imaginei a liberdade como a possibilidade de ir embora sempre que alguma coisa deixasse de fazer sentido. Hoje, começo a perceber que ela também pode estar em permanecer por vontade própria, confiar sem perder a consciência de quem sou e permitir que alguém se aproxime sem sentir que estou entregando uma parte de mim.
Não quero usar minha independência como uma muralha, nem transformar minha dificuldade de demostrar sentimentos em uma prova de força. Estou aprendendo que não preciso escolher entre me proteger e me permitir sentir. Posso ter limites sem fechar todas as portas. Posso amar alguém sem fazer de mim mesma uma ausência.
Ainda tenho muito a descobrir sobre quem sou, sobre o que sinto e sobre aquilo que desejo para a minha vida. Não preciso resolver tudo agora, muito menos encontrar alguém que tenha todas as respostas .
No fim, não quero uma vida em que precise escolher entre ser amada e ser eu mesma.
Se eu tiver que abandonar a mim mesma para que alguém permaneça, prefiro a despedida. Não porque não saiba amar, mas porque estou aprendendo que o amor não deveria exigir a minha renúncia. Quero poder olhar para a vida que construí e reconhecer nela as minhas escolhas, os meus erros, os meus desejos e a mulher que me tornei. Se alguém caminhar ao meu lado, que seja para conhecer o mundo comigo, não para decidir até onde posso ir. Afinal, não passei tanto tempo tentando me encontrar para me perder novamente nas expectativas de outra pessoa.