O câncer é uma doença completamente invasiva e, de certa forma, corruptiva. Ele rouba, aos poucos, o vigor, a esperança e os sonhos. Em sua integridade, começa a apagar os trajetos, os sorrisos e os caminhos percorridos pelo ser humano que antes ali residia. A doença ofusca a alma e a essência de quem ali habita. Ela chama toda a atenção para si e acarreta olhares de pena e anseios. Pessoas angustiadas pela falta do cabelo que antes ali residia, pela mudança do corpo, pelaquilo que o diagnóstico parece ter levado.
Então, por que persistir?
Por que lutar contra algo tão avassalador?
Porque não precisa ser assim.
E talvez seja também falha nossa, muitas vezes, a frieza dos dias que permite que pessoas sejam tratadas como diagnósticos e patologias. Sempre existe algo a fazer. Seja um tratamento, seja um cuidado paliativo. Seja diminuir a dor, oferecer conforto ou simplesmente proporcionar os melhores últimos dias possíveis.
Afinal, a vida deveria ser vivida assim.
Pode não ser um câncer. Pode ser um acidente. Pode ser qualquer coisa. A data marcada coexiste e, ao mesmo tempo, não coexiste para cada um de nós.
O importante é entender que ninguém jamais deveria ser visto pela lente que tem como objetivo diminuir ou apagar essências.
Vivam, porque é preciso.
Valorizem os cuidados, porque ninguém jamais sabe o que virá.
E não sejam reduzidos por olhares carregados de pena.
Porque não há o que se ter pena.
Essa é a sua história.
E, enquanto houver possibilidades, você ainda pode escolher como quer vivê-la.
Então, sim, vale a pena lutar.
Lute pelo sorriso.
Lute pelo olhar que ainda brilha.
Lute pelo abraço.
Lute pelos dias que ainda podem ser vividos.
Lute para escolher o final (inevitável) do seu filme em preto e branco.