Por que Oca da Índia? Na adolescência meu apelido era índia...
Durante muito tempo, ouvi que eu era uma “cabeça oca”. A expressão era usada no sentido de vazio, como se não houvesse nada dentro. Mas, com o tempo, comecei a perceber que a palavra “oca” poderia significar justamente o contrário.
A oca é uma casa. É um lugar de morada, de proteção, de convivência e de pertencimento. É também uma imagem que remete aos povos originários e à ancestralidade da terra.
Não tenho registro indígena. Sei, porém, por histórias familiares, que meus avós e bisavós possuíam essa linhagem, embora eu não tenha tido contato direto com ela.
Nasci em uma reserva ambiental e cresci carregando uma sensação difícil de explicar. Sempre fui cidade demais para ser indígena e indígena demais para me sentir completamente pertencente à cidade.
Essa ausência de contato com a própria ancestralidade acabou se transformando em um conflito existencial profundo. Eu carregava uma origem que não conhecia completamente e, ao mesmo tempo, não me reconhecia inteiramente no lugar onde havia aprendido a viver.
Por isso, durante muito tempo, a pergunta sobre onde eu pertencia permaneceu sem resposta.
Até que comecei a perceber que talvez a minha casa não precisasse ser necessariamente um lugar externo.
Talvez minha casa pudesse ser minha própria mente.
A partir dessa compreensão, a ideia de Oca da Índia ganhou outro significado.
Minha mente é minha oca. É meu espaço de morada, meu território interior, o lugar onde planto aquilo que desejo cultivar, onde nutro ideias, sentimentos e experiências, onde crio, transformo e transmuto aquilo que recebo da vida.
Minha oca não representa uma tentativa de reivindicar uma identidade indígena que não possuo ou de me apropriar de uma cultura à qual não tive pertencimento direto.
Ela representa, para mim, o reconhecimento de uma relação íntima com a ancestralidade, com a terra e com aquilo que existe dentro de mim como possibilidade de raiz.
“Oca da Índia” tornou-se, assim, uma maneira de nomear o meu território interior.
É onde meu universo começa a criar raízes.
É a casa onde aquilo que recebo do mundo pode ser transformado em pensamento, criação, consciência e significado.
Talvez a mesma palavra que um dia foi usada para dizer que minha cabeça era vazia tenha se transformado naquilo que hoje considero uma das minhas maiores riquezas: descobrir que dentro dessa “oca” existe um universo inteiro.
Minha casa não é aquilo que os outros conseguem definir sobre mim. Minha casa é aquilo que cultivo dentro de mim;
É ali que eu planto.
É ali que eu nutro.
É ali que eu crio.
É ali que eu transmuto.
Por isso, para mim, Oca da Índia não é apenas um nome. É uma forma de dizer: aqui começa o meu território.
Aqui começa a minha raiz.
Aqui começa o meu universo.