Rapaz, o faroeste italiano fez isso: pegou o americano, trocou a música e a poeira, e ninguém achou que era o mesmo filme.
Por que criar o novo é difícil? Pergunta Sem resposta
Pensamento
Rapaz, o faroeste italiano fez isso: pegou o americano, trocou a música e a poeira, e ninguém achou que era o mesmo filme.
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Spoiler: leva tempo, é chato explicar e, às vezes, o criador pode morrer antes que aquilo que imaginou finalmente exista.
Vejo isso também nas críticas de games. Existe um termo chamado metroidvania, usado para descrever jogos de plataforma com exploração, habilidades que desbloqueiam novos caminhos, chefes difíceis e outras dinâmicas. Mas, às vezes, parece que alguns críticos encontram uma palavra sofisticada e acreditam que, com ela, já explicaram o jogo.
Ora, isso, para mim, é Mario Bros. Eu prefiro chamar as coisas de outra maneira:
Jogo do Mario de vampiro: Castlevania.
Jogo do Mario de tiro: Metroid.
Jogo do Mario de espionagem: Metal Gear Solid.
Jogo do Mario em primeira pessoa: Call of Duty.
Jogo do Mario grego: God of War.
Calma, eu sei que não é bem assim. Ou melhor, não é só assim. Mas é justamente aí que está a questão: muitas vezes, o que muda são as dinâmicas, os elementos, a ambientação e a maneira como tudo se combina. Isso não torna os jogos iguais, mas também não significa que precisamos tratar cada combinação como se tivesse surgido do nada.
O problema começa quando a classificação toma o lugar da crítica. Tudo vira metroidvania, e eu fico com preguiça de um crítico que parece incapaz de explicar o que há de particular naquele jogo. É como se alguém que só joga um determinado estilo resolvesse experimentar outro e, em vez de analisar a obra, passasse mais tempo falando sobre o gênero do que sobre o próprio jogo.
E isso não acontece apenas nos games. Acontece no cinema, na literatura e na música.
Criar o novo exige referências do passado. Podemos copiar, transformar e combinar. Sem passado, não há futuro. O problema é que estamos cercados por uma enxurrada de jogos, filmes e livros que parecem trocar apenas a capa, as cores e alguns detalhes, enquanto repetem fórmulas conhecidas. Há também obras antigas cujos autores já morreram, permitindo que seus trabalhos sejam reutilizados sem o pagamento de royalties, conforme as regras aplicáveis a cada obra. O mercado sabe aproveitar o que já foi testado.
Mas o que acontece quando alguém apresenta algo realmente diferente?
Um editor não deveria se preocupar com a aparência de um escritor que se considera um guru, nem permitir que o autor tente ocupar o lugar de quem entende de edição e mercado. Cada um tem sua função. O problema é quando o editor encontra algo diferente e diz que aquilo não funciona, como se sua experiência com o que já deu certo fosse suficiente para prever tudo o que ainda pode dar certo.
No fundo, talvez ele também queira o novo. Só que deseja um novo que respeite a tradição, que siga as regras conhecidas e que possa ser explicado em poucas palavras. Quer uma novidade que não o obrigue a rever suas certezas.
E existe outra questão: muitas vezes, o mercado não quer necessariamente uma grande obra. Quer um produto que possa vender. O autor paga pelas edições, assume os riscos e, se der certo, ótimo. Se não der, o prejuízo é dele. Não há mistério nisso: o novo não enche barriga só porque é novo.
Mas é curioso observar como uma ideia convencional pode ganhar uma embalagem temática e ser recebida como genial. Imagine um livro de finanças chamado Como Montar Seu Cartel de Drogas com Pabllinho, escrito em formato infantil, com ilustrações coloridas e explicações didáticas. Talvez alguém considere a proposta brilhante simplesmente porque a apresentação é inesperada.
Percebe a contradição? Às vezes, o mercado aceita uma ideia antiga com uma roupagem diferente, mas rejeita uma ideia que realmente reorganiza as coisas.
O novo não precisa inventar todos os elementos. Precisa fazer com que eles funcionem de uma maneira diferente.
Só que criar o novo também exige abandonar aquilo que nos mantém presos.
Talvez você tenha uma câmera fotográfica que quase não usa. Ou um carro parado na garagem, utilizado de vez em quando. Você não tem obrigação de vendê-los. Eles são seus, e ninguém pode exigir que você abra mão deles.
Mas vale pensar: será que aquilo que você guarda por segurança não poderia ajudar a financiar um projeto, abrir um caminho ou aproximar você de um sonho?
Talvez esse objeto seja um peso que o impede de avançar. Talvez seja justamente o recurso que falta para tirar uma ideia da gaveta. Ou talvez você nem tenha uma ideia revolucionária, apenas um projeto que, se realizado, poderia mudar sua vida.
Não existem garantias.
E não estou falando de apostar na sorte, muito menos de transformar a vida em um jogo de azar. Tenha paciência, meu querido amigo. Aposte no seu futuro, mas desconfie também de si mesmo. Tenha medo, questione suas decisões e reconheça que nem toda ideia que parece genial na sua cabeça funcionará no mundo real.
Ainda assim, se você criou algo diferente, reorganizou elementos que todos reconhecem e conseguiu fazer com que funcionassem de uma maneira que ninguém havia percebido, talvez exista ali alguma coisa nova.
O novo assusta. Leva tempo para ser compreendido. Às vezes, é rejeitado justamente porque as pessoas ainda não possuem referências para explicá-lo.
A boa notícia é que hoje temos mais oportunidades de apresentar nossas criações ao mundo do que tínhamos há quarenta anos. Existem projetos engavetados que talvez não encontrassem espaço naquela época, mas que podem encontrar seu público agora. Isso não significa que o sucesso esteja garantido. Significa apenas que existem mais caminhos possíveis.
É preciso arriscar, sim. Mas você não precisa destruir tudo o que conhece nem abandonar completamente sua zona de conforto. Pode ampliá-la.
Imagine que você é um peixe dentro de um aquário e deseja conhecer o oceano. Sair dali parece assustador, porque o aquário oferece aquilo que você conhece: alimento, proteção e limites previsíveis.
Então, em vez de simplesmente abandonar o aquário, imagine que você construa um veículo subaquático, movido a energia solar, capaz de transportar seu pequeno ambiente pelo oceano. Você leva consigo parte do conforto que conhece, mas amplia seus horizontes.
É uma solução absurda? Talvez. É uma metáfora imperfeita? Certamente. Mas a ideia é essa: você não precisa deixar de ser quem é para experimentar algo novo. Pode reorganizar aquilo que já possui para chegar aonde nunca esteve.
Mesmo assim, não é fácil.
Porque, depois de toda essa conversa sobre criatividade, coragem, inovação e futuro, chegamos ao verdadeiro problema.
Não é apenas fazer. É aguentar fazer.
Você pode ter uma ideia extraordinária, comprar os equipamentos, montar o projeto e começar cheio de entusiasmo. Mas consegue repetir as tarefas necessárias quando a novidade passar? Consegue trabalhar quando ninguém estiver olhando, quando os resultados demorarem e quando aquilo que parecia emocionante se transformar em rotina?
Criar é uma coisa. Sustentar a criação é outra.
Talvez o novo não dependa apenas da coragem de abandonar o passado, mas também da disciplina de continuar quando o futuro ainda não deu sinais de que valeu a pena.
Então, eu lhe pergunto:
Você quer mesmo criar algo novo ou está apaixonado apenas pela ideia de ser alguém que criou algo novo?
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Respostas
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PermalinkVender o carro parado pra tirar o projeto da gaveta resolve o começo e quase nunca o meio. Quem quebra raramente quebra no primeiro mês, quebra no sexto, quando o dinheiro da venda acabou e o projeto ainda não se paga.
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PermalinkRapaz, o faroeste italiano fez isso: pegou o americano, trocou a música e a poeira, e ninguém achou que era o mesmo filme.
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