Uma comédia infernal sobre política, religião e a preferência humana por um canalha conhecido.
O Diabo estava cansado.
Não cansado de pecar, porque pecar era serviço dos outros. Estava cansado de levar a culpa por tudo.
Há milênios exercia a mesma função: acusador oficial dos defeitos humanos, bode expiatório universal e responsável técnico por todas as decisões que as pessoas tomavam por conta própria.
O sujeito traía a esposa? Era tentação do Diabo.
O pastor desviava o dinheiro da igreja? Era uma armadilha do Diabo.
O político roubava milhões? Era uma conspiração do Diabo.
O homem espancava a mulher, mentia para os filhos, humilhava os funcionários e passava a perna no sócio? O Diabo estava trabalhando na vida dele.
Era impressionante. O Diabo tinha milhões de funcionários na Terra, mas nenhum deles precisava bater ponto no inferno. Bastava cometer uma atrocidade e terceirizar a culpa.
Naquela manhã, ele fez as contas.
Seu nome era pronunciado mais vezes dentro das igrejas do que nas prisões. Nos templos, havia sermões inteiros dedicados a ele. Nas cadeias, pelo menos, os presos raramente precisavam invocá-lo para explicar por que estavam ali.
O Diabo convocou uma coletiva de imprensa.
— Depois de tantos séculos de dedicação, venho comunicar minha aposentadoria.
O inferno entrou em pânico.
Os demônios se entreolharam. Um deles deixou cair a prancheta. Outro perguntou se a aposentadoria incluía o adicional por insalubridade.
— Quem vai assumir o seu lugar? — perguntou um jornalista.
— Não sei. Estou pensando em alguém com experiência administrativa, capacidade de mediação e disposição para ouvir os dois lados.
— Deus?
O Diabo soltou uma gargalhada.
— Não seja ridículo. Ele já tem assessoria de imprensa demais.
Foi então que anunciou seu substituto: Hades, senhor do mundo dos mortos na mitologia grega.
Uma terceira via.
Hades aceitou o cargo depois de uma breve negociação. Não exigiu chifres, tridente ou contrato de exclusividade. Pediu apenas que parassem de confundi-lo com o antigo ocupante.
— Eu administro os mortos — explicou. — Não sou responsável pelas decisões dos vivos.
O Diabo sorriu.
— Vai aprender.
E foi embora de férias.
A lua de mel com o novo Diabo
No início, os pastores adoraram Hades.
Finalmente, diziam, um Diabo diferente. Mais discreto, menos teatral, sem aquela velha imagem de criatura vermelha que parecia ter saído de uma fantasia de carnaval.
Hades não precisava gritar. Não precisava aparecer em pesadelos. Não precisava fazer ninguém rolar pelo chão durante o culto.
Sua proposta era simples: cada pessoa responderia pelos próprios atos, e o inferno deixaria de ser usado como departamento de relações públicas da humanidade.
Os pastores aplaudiram.
— Está vendo? — diziam. — O Diabo antigo era ultrapassado. Esse tem outra visão de mundo!
Hades concedeu entrevistas, participou de debates e apareceu em programas religiosos. Falava sobre responsabilidade, consequências e limites. Não prometia destruir os adversários. Não oferecia explicações sobrenaturais para problemas que podiam ser resolvidos com honestidade.
Era um sucesso.
Durante algumas semanas.
Até que um pastor foi flagrado desviando dinheiro dos fiéis.
— Hades, isso é uma injustiça! — protestou o religioso. — O senhor precisa reconhecer que fui vítima de uma tentação!
Hades consultou os documentos.
— O senhor transferiu o dinheiro para três contas próprias, comprou um apartamento e registrou o veículo no nome da cunhada.
— Mas o senhor não compreende a batalha espiritual!
— Compreendo perfeitamente a movimentação bancária.
O pastor ficou indignado.
— Esse Diabo não tem misericórdia!
Na semana seguinte, outro líder religioso foi acusado de perseguir um adversário político.
— O senhor precisa fazer alguma coisa! — exigiu.
— Fazer o quê?
— Interferir! Mostrar que meu inimigo está a serviço das trevas!
Hades examinou as declarações públicas dos dois.
— Seu adversário apresentou documentos. O senhor apresentou um vídeo de quarenta minutos chamando-o de servo de Satanás.
— Exatamente! É disso que estou falando!
Hades começou a perceber que havia aceitado um emprego muito pior do que imaginava.
O problema não era administrar os mortos.
Era lidar com os vivos que não aceitavam a possibilidade de estarem errados.
O Diabo dos outros
A situação se agravou quando Hades decidiu visitar as igrejas.
Em uma delas, ouviu um sermão sobre a corrupção moral da sociedade.
O pastor denunciava a mentira, a ganância, a violência, a desonestidade e a falta de caráter. A congregação respondia com améns entusiasmados.
Hades, sentado na última fileira, ficou impressionado.
Finalmente alguém compreendia o problema.
Até o pastor apontar para um político que estava na primeira fila.
— Esse homem é um escolhido de Deus! Um guerreiro contra a corrupção!
Hades abriu uma pasta.
— Há três investigações, duas condenações em primeira instância e uma coleção de contratos suspeitos relacionados a esse cidadão.
O pastor interrompeu o sermão.
— O senhor está perseguindo um homem de Deus!
— Eu sou Hades.
— Pior ainda! Um demônio querendo destruir um homem de Deus!
— Há cinco minutos o senhor estava falando contra a corrupção.
— E continuo falando!
— Então por que está defendendo o sujeito?
O pastor ergueu os braços.
— Porque ele está do nosso lado!
Hades ficou em silêncio.
Era a primeira vez, em milhares de anos, que alguém lhe oferecia uma definição tão precisa da moral humana.
O pecado era abominável.
Desde que fosse cometido pelo adversário.
A corrupção era inaceitável.
Desde que não beneficiasse o próprio grupo.
A mentira era obra das trevas.
Desde que não fosse contada pelo pastor da casa.
O inferno, afinal, não era uma questão de comportamento.
Era uma questão de torcida.
O retorno do Diabo original
Enquanto isso, o Diabo aproveitava suas férias em uma ilha paradisíaca.
Sem acusações, sem sermões e sem precisar responder por decisões que não havia tomado, começou a recuperar o prazer de existir.
Até que seu telefone tocou.
Era um pastor.
— Precisamos conversar.
— Não estou mais trabalhando.
— Mas a situação saiu do controle!
— Que situação?
— Hades!
O Diabo suspirou.
— O que ele fez?
— Está exigindo responsabilidade das pessoas!
O Diabo ficou alguns segundos em silêncio.
Depois começou a rir tanto que precisou se sentar.
— Vocês passaram séculos dizendo que eu era o problema. Agora estão reclamando porque meu substituto não aceita ser culpado pelos problemas de vocês?
— Não é isso!
— Então o que é?
— Hades não tem o mesmo apelo que você.
O Diabo parou de rir.
— Como assim?
— Você tinha presença. Tinha tradição. As pessoas conheciam você. Sabiam o que esperar. Hades é muito técnico. Fala de consequências, apresenta documentos, exige provas. Isso está afastando os fiéis.
— O senhor está dizendo que prefere um Diabo que aceite levar a culpa?
— Não coloque palavras na minha boca!
— Não precisa. O senhor já colocou um político corrupto no púlpito.
O pastor desligou.
Naquela mesma noite, começaram as campanhas pelo retorno do Diabo.
Os sermões mudaram de tom.
Hades era frio, burocrático, estrangeiro. Não compreendia a cultura local. Não respeitava as tradições. Não tinha a sensibilidade necessária para entender os problemas da humanidade.
Um influenciador religioso publicou um vídeo:
“HADES É PIOR QUE O DIABO? ENTENDA A VERDADE QUE NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA!”
Em poucas horas, o vídeo alcançou milhões de visualizações.
O Diabo original virou uma figura nostálgica. Os pastores lembravam com carinho de quando podiam atribuir a ele os próprios fracassos sem precisar apresentar recibos.
Hades, por outro lado, queria explicações.
E explicações são péssimas para quem vive de acusações.
A eleição infernal
A crise se tornou política.
Um grupo de líderes religiosos sugeriu que o inferno realizasse uma eleição para escolher definitivamente seu novo administrador.
Hades concordou.
— Excelente. Que vença o candidato mais preparado.
O Diabo original, ainda de férias, foi convocado para concorrer.
— Não tenho interesse — respondeu.
— Mas você é popular!
— E daí?
— As pessoas conhecem você!
— Conhecer alguém não significa que essa pessoa seja competente.
O assessor que organizava a eleição anotou a frase e imediatamente a transformou em slogan de Hades.
Foi um desastre.
A campanha de Hades defendia transparência, responsabilidade e avaliação de resultados. A do Diabo prometia recuperar as tradições, proteger os valores da família e impedir que forças estrangeiras interferissem nos assuntos do inferno.
O Diabo não tinha apresentado uma única proposta administrativa.
Não precisava.
Seus apoiadores diziam que ele era imperfeito, mas era o Diabo deles.
Hades podia ser mais competente, mais justo e até menos cruel. Nada disso importava. Era o Diabo dos outros.
Na reta final da campanha, descobriram que um dos principais apoiadores do Diabo original tinha um passado criminoso.
A equipe de campanha divulgou uma nota:
— Reconhecemos que nosso candidato possui algumas falhas, mas ninguém é perfeito.
Quando descobriram que um aliado de Hades havia cometido uma infração muito menos grave, a resposta foi imediata:
— Isso demonstra a completa falta de caráter da oposição!
O mesmo eleitor que exigia punição exemplar para o adversário aceitava explicações generosas para o próprio candidato.
A mesma igreja que pregava o arrependimento defendia a impunidade quando o acusado era um dos seus.
O mesmo pastor que condenava os pecadores declarava que as acusações contra seu aliado eram perseguição religiosa.
E todos tinham uma justificativa.
A eleição terminou com a vitória esmagadora do Diabo original.
Hades ficou em segundo lugar.
O terceiro colocado foi um demônio que prometeu acabar com a corrupção em trinta dias, embora estivesse sendo investigado por desviar verbas destinadas à construção de caldeirões públicos.
Recebeu votos suficientes para eleger uma bancada.
O discurso da vitória
O Diabo subiu ao palco.
A multidão gritava seu nome.
Ele olhou para os pastores, para os políticos, para os influenciadores e para os fiéis que haviam passado semanas denunciando a existência do mal enquanto negociavam com ele nos bastidores.
Então começou:
— Meus queridos humanos, quero agradecer a confiança de vocês. É uma honra voltar ao cargo de responsável por todos os erros que vocês cometerem daqui para frente.
A multidão aplaudiu.
— Quero garantir que nada mudará. Vocês poderão continuar mentindo, desde que digam que foram tentados. Poderão continuar roubando, desde que afirmem que estão sendo perseguidos. Poderão continuar odiando, desde que apresentem o ódio como defesa dos bons costumes.
Os aplausos aumentaram.
— E, quando alguém questionar suas escolhas, não se preocupem. Eu estarei aqui. Levarei a culpa por vocês, como sempre fiz.
Um pastor chorou de emoção.
— Esse é o nosso Diabo!
O Diabo ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Só tenho uma condição.
A multidão parou.
— Nunca mais digam que fui eu quem tomou as decisões por vocês.
Silêncio absoluto.
Um fiel se levantou.
— Isso é um absurdo! O senhor está querendo tirar nossa liberdade!
O Diabo sorriu.
— Não, meu caro. Estou devolvendo a vocês uma coisa que nunca foi minha.
E desceu do palco.
Moral da história
Naquela noite, Hades voltou para o mundo dos mortos. Não estava decepcionado com a derrota. Estava decepcionado por ter acreditado que as pessoas procuravam alguém melhor.
Elas procuravam alguém que confirmasse que já estavam certas.
O Diabo reassumiu seu escritório, encontrou a mesa coberta de reclamações e percebeu que nada havia mudado.
Havia novos pecados, velhas desculpas e uma fila de pessoas esperando para transferir suas responsabilidades.
Ele abriu a primeira carta.
Era de um pastor que havia sido flagrado em uma fraude.
O homem alegava perseguição, inveja e uma conspiração contra sua missão divina.
O Diabo pegou a caneta, escreveu não é problema meu e carimbou o documento.
Depois pensou melhor.
Riscou a frase e escreveu:
É problema dele. Mas, pelo visto, fui eleito para continuar levando a culpa.
Guardou a carta, apagou as luzes e foi dormir.
Pela primeira vez em milênios, sentiu pena dos humanos.
Não porque fossem maus.
Mas porque haviam transformado até a escolha do Diabo em uma disputa entre quem era o pior e quem pertencia ao grupo certo.
No fundo, não queriam acabar com o mal.
Queriam apenas garantir que o mal continuasse sendo praticado pelos outros.
E, se fosse necessário eleger um canalha para governá-los, não haveria problema algum.
Desde que fosse o canalha da igreja deles, indicado pelo pastor deles, abençoado pelos valores deles e protegido pelas desculpas deles.
Porque o Diabo dos outros é sempre uma ameaça à humanidade.
O nosso, quando muito, está passando por uma fase difícil.
A humanidade não quer se livrar do Diabo. Quer apenas impedir que o Diabo do vizinho ocupe o poder.
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