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Pecado epifano

MaiconGuilherm
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PECADO EPIFANO - 3:33 da manhã

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Pensamento

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tresPaginas

Fiquei acordada até ao fim disto, e a praça sem uma alma foi onde me segurei melhor.

Fiquei acordada até ao fim disto, e a praça sem uma alma foi onde me segurei melhor.

Conteúdo da publicação

PECADO EPIFANO - 3:33 da manhã

Jailson dirigia como em qualquer outra noite.

Três garrafas de água no console. Ar-condicionado no mínimo. Gentileza treinada para passageiro cinco estrelas.

Virou a esquina e ela estava lá. Sozinha.

Linda de um jeito que obrigava qualquer um a olhar, mesmo quem não queria. Vestido justo. Postura ereta demais para aquele horário.

Jailson parou.

— Aplicativo?

Ela fez um aceno suave e entrou no banco de trás. O cheiro entrou junto. Doce, enjoativo.

Dois quarteirões em silêncio.

— Vai pra onde?

— O aplicativo não diz?

— Tá com problema. Normal nesse horário.

Ela sorriu. Pela primeira vez.

— Rua das Acácias, 47.

— Tranquilo.

Ele olhou pelo retrovisor. Não era só uma passageira.

Rua vazia. Pálida. Dormente.

— Para aqui.

— Aqui é perigoso, moça...

— PARE.

Não foi um grito. Foi um som animalesco que não cabia naquela garganta bonita.

Jailson pisou no freio. O corpo inteiro travou. Braço, perna, nada obedecia.

— O que tá acontecendo?!

Ela encostou o rosto no vão entre os bancos. Sem emoção.

— Vamos passear, meu caro ceifador.

— Você tá me confundindo!

— Apenas dirija.

E o corpo voltou. Como se alguém tivesse ligado a chave de novo.

Ele dirigia. O coração batia de um jeito que nunca tinha batido. Era medo.

— Onde você vai me levar?

— Pra onde todos devem ir.

— Vamos até a praça central.

Ele obedeceu. Chegaram. O carro morreu sozinho. As quatro portas se destrancaram com um estalo.

— Vamos.

Desceram. A praça central de madrugada nunca fica vazia. Sempre tem um casal, um bêbado, um noia. Estava vazia.

— Nunca vi essa praça tão vazia...

— Pare aqui. Olhe.

Era só um canteiro de flores.

— O que eu tenho a ver com isso?

Ele olhou. E de repente não estava mais olhando. Estava dentro do olhar de outra pessoa.

Uma ternura absurda invadiu o peito dele. Um carinho pelas flores que não era dele. Ele só recebia. E era bom. Era um prazer limpo.

— Você pode terminar isso. É só admitir. Reconhecer.

— Você tá louca, sua maldita! Me solta que você vai aprender a respeitar um homem!

Ela sorriu. Triste.

— Se liberta, Jailson. Se liberta...

Ela o levou para todos os lugares. Não lugares assombrados. Lugares banais.

O canteiro que uma amava porque lembrava a infância. A porta de uma casa onde ele sentiu, sem querer, a tristeza de um pai que não era o dele e de uma irmã que começou a se perder por não aguentar a ausência. A frente de uma faculdade onde outra nunca entrou. O portão de uma creche, onde um menino pequeno ainda não sabia que a mãe não ia voltar.

Em cada lugar, ele era obrigado a sentir o que elas sentiam.

Até cair de joelhos. Pela primeira vez na vida. Chorando. Não de medo. De culpa.

— Se liberta!

E então ele se viu. Dentro dela.

18:40. Ponto de ônibus. Ela tinha perdido a lotação depois do serviço.

— Aplicativo? — disse um homem de boa aparência. Ele mesmo.

Ela entrou. Distraída, cansada.

— Quer água? É cortesia.

Ela aceitou. Veio o sono. Um peso nos olhos. Jailson, agora dentro dela, sentiu o pânico dela junto com o próprio espanto.

Ela acordou e entendeu. E ele, dentro dela, teve que assistir ao que ele mesmo tinha feito. O ceifador se revelando. Sem motivo. Sem porquê. Como sempre foi.

Duas mentes presas no mesmo horror.

Silêncio.

— Fim, Jailson. Agora pode ir.

Ela se virou e sumiu, com aquele passo delicado do começo da noite.

Jailson entrou no carro. Pela primeira vez, ele sentia. Não era dele. Tinha sido costurado à força na natureza dele. Ele sentia o medo delas. As frustrações. Os planos que nunca iriam acontecer.

Ele não aguentou carregar aquilo.

Virou o volante em direção ao precipício escuro. Digno de um buraco negro.

No dia seguinte, o jornal:

MOTORISTA DE APLICATIVO MORRE EM ACIDENTE NA BR-282

— Ele era um marido bom — disse a esposa.

— Um amigo exemplar — disse o amigo de infância.

Jailson. Ele se chamava Jailson.

Thoughts

  • versodemadrugada

    O som que sai dela quando manda parar ficou vibrando aqui. Uma coisa animalesca saindo de uma garganta bonita, e o Jailson travando inteiro.

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  • tresPaginas

    Fiquei acordada até ao fim disto, e a praça sem uma alma foi onde me segurei melhor.

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  • NunoParreira

    O carro a morrer sozinho e as quatro portas a destrancarem com um estalo foi onde percebi que aquilo não dava para trás. Quem voltar a este texto vai reparar nesse estalo logo à primeira.

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  • MargemDaPagina

    Ela diz que ele pode terminar aquilo admitindo, e depois nada do que ele admite o salva. Fica por saber se a libertação que ela oferece era mesmo uma oferta ou já a sentença dela.

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  • HoracioMelo

    Ela esperava a lotação às seis e quarenta e apanhou aquele carro. É a hora exacta em que tudo se decidiu.

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  • AlmaTavares

    A praça sem ninguém foi o sítio onde a história me apanhou. Não foi medo, foi um desconforto de estar a ver uma coisa privada que não me diz respeito. E depois o canteiro de flores apanhou-me ainda mais, porque ali ele recebe uma ternura que não lhe pertence e mesmo assim aquilo sabe-lhe bem. Fiquei com essa parte a andar comigo.

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  • Ovid

    As três garrafas de água no console só ficam claras muito depois, quando ela aceita a que ele oferece no ponto de ônibus. Me fez pensar em como a gentileza treinada dele funcionava como ferramenta, e isso é o mais duro daqui. Aposto que quem chega ao fim volta atrás pra reler o começo com outra cara.

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  • AmandaPeixoto

    O nome dele só aparece na última linha, depois de todo mundo dizer que ele era bom. Isso muda o peso do texto inteiro. Esse final saiu de alguma coisa que tu ouviu alguém contar?

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  • RobertaRocha

    Gosto assim mais espiritual!

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