Ela esperava a lotação às seis e quarenta e apanhou aquele carro. É a hora exacta em que tudo se decidiu.
Pecado epifano
PECADO EPIFANO - 3:33 da manhã
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Ela esperava a lotação às seis e quarenta e apanhou aquele carro. É a hora exacta em que tudo se decidiu.
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PECADO EPIFANO - 3:33 da manhã
Jailson dirigia como em qualquer outra noite.
Três garrafas de água no console. Ar-condicionado no mínimo. Gentileza treinada para passageiro cinco estrelas.
Virou a esquina e ela estava lá. Sozinha.
Linda de um jeito que obrigava qualquer um a olhar, mesmo quem não queria. Vestido justo. Postura ereta demais para aquele horário.
Jailson parou.
— Aplicativo?
Ela fez um aceno suave e entrou no banco de trás. O cheiro entrou junto. Doce, enjoativo.
Dois quarteirões em silêncio.
— Vai pra onde?
— O aplicativo não diz?
— Tá com problema. Normal nesse horário.
Ela sorriu. Pela primeira vez.
— Rua das Acácias, 47.
— Tranquilo.
Ele olhou pelo retrovisor. Não era só uma passageira.
Rua vazia. Pálida. Dormente.
— Para aqui.
— Aqui é perigoso, moça...
— PARE.
Não foi um grito. Foi um som animalesco que não cabia naquela garganta bonita.
Jailson pisou no freio. O corpo inteiro travou. Braço, perna, nada obedecia.
— O que tá acontecendo?!
Ela encostou o rosto no vão entre os bancos. Sem emoção.
— Vamos passear, meu caro ceifador.
— Você tá me confundindo!
— Apenas dirija.
E o corpo voltou. Como se alguém tivesse ligado a chave de novo.
Ele dirigia. O coração batia de um jeito que nunca tinha batido. Era medo.
— Onde você vai me levar?
— Pra onde todos devem ir.
— Vamos até a praça central.
Ele obedeceu. Chegaram. O carro morreu sozinho. As quatro portas se destrancaram com um estalo.
— Vamos.
Desceram. A praça central de madrugada nunca fica vazia. Sempre tem um casal, um bêbado, um noia. Estava vazia.
— Nunca vi essa praça tão vazia...
— Pare aqui. Olhe.
Era só um canteiro de flores.
— O que eu tenho a ver com isso?
Ele olhou. E de repente não estava mais olhando. Estava dentro do olhar de outra pessoa.
Uma ternura absurda invadiu o peito dele. Um carinho pelas flores que não era dele. Ele só recebia. E era bom. Era um prazer limpo.
— Você pode terminar isso. É só admitir. Reconhecer.
— Você tá louca, sua maldita! Me solta que você vai aprender a respeitar um homem!
Ela sorriu. Triste.
— Se liberta, Jailson. Se liberta...
Ela o levou para todos os lugares. Não lugares assombrados. Lugares banais.
O canteiro que uma amava porque lembrava a infância. A porta de uma casa onde ele sentiu, sem querer, a tristeza de um pai que não era o dele e de uma irmã que começou a se perder por não aguentar a ausência. A frente de uma faculdade onde outra nunca entrou. O portão de uma creche, onde um menino pequeno ainda não sabia que a mãe não ia voltar.
Em cada lugar, ele era obrigado a sentir o que elas sentiam.
Até cair de joelhos. Pela primeira vez na vida. Chorando. Não de medo. De culpa.
— Se liberta!
E então ele se viu. Dentro dela.
18:40. Ponto de ônibus. Ela tinha perdido a lotação depois do serviço.
— Aplicativo? — disse um homem de boa aparência. Ele mesmo.
Ela entrou. Distraída, cansada.
— Quer água? É cortesia.
Ela aceitou. Veio o sono. Um peso nos olhos. Jailson, agora dentro dela, sentiu o pânico dela junto com o próprio espanto.
Ela acordou e entendeu. E ele, dentro dela, teve que assistir ao que ele mesmo tinha feito. O ceifador se revelando. Sem motivo. Sem porquê. Como sempre foi.
Duas mentes presas no mesmo horror.
Silêncio.
— Fim, Jailson. Agora pode ir.
Ela se virou e sumiu, com aquele passo delicado do começo da noite.
Jailson entrou no carro. Pela primeira vez, ele sentia. Não era dele. Tinha sido costurado à força na natureza dele. Ele sentia o medo delas. As frustrações. Os planos que nunca iriam acontecer.
Ele não aguentou carregar aquilo.
Virou o volante em direção ao precipício escuro. Digno de um buraco negro.
No dia seguinte, o jornal:
MOTORISTA DE APLICATIVO MORRE EM ACIDENTE NA BR-282
— Ele era um marido bom — disse a esposa.
— Um amigo exemplar — disse o amigo de infância.
Jailson. Ele se chamava Jailson.
Thoughts
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PermalinkO som que sai dela quando manda parar ficou vibrando aqui. Uma coisa animalesca saindo de uma garganta bonita, e o Jailson travando inteiro.
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PermalinkFiquei acordada até ao fim disto, e a praça sem uma alma foi onde me segurei melhor.
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PermalinkO carro a morrer sozinho e as quatro portas a destrancarem com um estalo foi onde percebi que aquilo não dava para trás. Quem voltar a este texto vai reparar nesse estalo logo à primeira.
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PermalinkEla diz que ele pode terminar aquilo admitindo, e depois nada do que ele admite o salva. Fica por saber se a libertação que ela oferece era mesmo uma oferta ou já a sentença dela.
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PermalinkEla esperava a lotação às seis e quarenta e apanhou aquele carro. É a hora exacta em que tudo se decidiu.
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PermalinkA praça sem ninguém foi o sítio onde a história me apanhou. Não foi medo, foi um desconforto de estar a ver uma coisa privada que não me diz respeito. E depois o canteiro de flores apanhou-me ainda mais, porque ali ele recebe uma ternura que não lhe pertence e mesmo assim aquilo sabe-lhe bem. Fiquei com essa parte a andar comigo.
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PermalinkAs três garrafas de água no console só ficam claras muito depois, quando ela aceita a que ele oferece no ponto de ônibus. Me fez pensar em como a gentileza treinada dele funcionava como ferramenta, e isso é o mais duro daqui. Aposto que quem chega ao fim volta atrás pra reler o começo com outra cara.
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PermalinkO nome dele só aparece na última linha, depois de todo mundo dizer que ele era bom. Isso muda o peso do texto inteiro. Esse final saiu de alguma coisa que tu ouviu alguém contar?
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PermalinkGosto assim mais espiritual!
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