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Pátria Sonâmbula

hyvy

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Essa pátria caminha sonâmbula, tropeçando nos próprios escombros, enquanto, nos corredores do poder, alguém afia discretamente a lâmina que há de cortar a garganta dos esquecidos. O perigo não costuma anunciar sua chegada. Às vezes, veste terno, fala manso e promete progresso. Por isso, desperta desse mantra, rompe o transe, levanta e caminha. Ou seremos apenas presas fáceis na teia de uma tarântula que aprendeu a chamar a própria violência de ordem.

Invadirão nossas casas sem precisar arrombar as portas. Levarão a lâmpada, apagarão as luzes e, quando estivermos mergulhados na escuridão, tentarão nos convencer de que nunca houve esperança. Afundarão nossos sonhos como âncoras lançadas ao fundo de um oceano sem horizonte. Arrancarão nossa flâmula, profanarão nossos símbolos e chamarão nossa derrota de destino. Mas não há tempo para o lamento eterno. Há um país inteiro esperando para despertar.

Existem comissões que compram a omissão, gabinetes onde a consciência é negociada por cifras e homens que vendem a própria humanidade em troca de privilégios. Talvez seja injusto chamá-los de homens quando abandonam tudo aquilo que nos torna humanos. Enquanto isso, as mulheres avançam, ocupam espaços, assumem a dianteira, e a luta, antes dispersa, começa a ganhar forma. Porque quem não se informa acaba se conformando, aceitando qualquer reforma como se migalhas fossem banquetes e concessões fossem conquistas.

É por isso que o rap se torna plataforma, tribuna e instrumento de reivindicação. A palavra deixa de ser apenas palavra quando encontra ouvidos dispostos a escutar e mãos dispostas a agir. A fala transforma-se em ação; a indignação, em consciência; e a consciência, em movimento. Marchamos em direção a Brasília, carregando nas vozes a possibilidade de uma nova Bastilha, não necessariamente feita de pedras derrubadas, mas de estruturas questionadas e privilégios confrontados.

Enquanto o país engatinha, nós engatilhamos novas ideias. Queremos romper com essa monarquia disfarçada de democracia, esse velho sistema que troca as vestes, renova os discursos e conserva os mesmos mecanismos de exclusão. É preciso cortar a cabeça da enguia antes que ela nos engula por inteiro. O Brasil parece navegar sem guia, sem remédio e sem bula, entregue à própria febre, enquanto o poder, insaciável, devora tudo o que encontra pela frente.

O coração dessa nação já quase não pulsa. Precisamos de um transplante de medula, de uma transfusão de humanidade, de uma revolução que alcance o sangue antes que a doença se torne irreversível. A saúde está doente. A educação ultrapassou os muros da escola e, em muitos lugares, encontrou uma realidade armada, onde a violência disputa com o conhecimento o direito de formar o futuro. Há crianças crescendo entre o som dos disparos e o silêncio das oportunidades negadas. Como proteger a vida quando a bala está perdida e o inocente sequer sabe que entrou na mira?

Para nós, a palavra continua sendo arma — não porque precise matar, mas porque pode desarmar consciências, romper silêncios e derrubar as muralhas erguidas pela indiferença. Para nós, a luta continua sendo luta, e cada verso, uma munição contra a ignorância, o conformismo e a injustiça. Não se trata de destruir por destruir, mas de compreender o que precisa ruir para que alguma coisa digna possa nascer em seu lugar.

Minhas falas não são apenas versos: são verdades que procuram uma forma de existir. Os versos são somente o caminho que encontrei para expressá-las. Um governo sem zelo constrói senzalas modernas, nem sempre feitas de correntes visíveis, mas de fome, abandono e oportunidades sistematicamente negadas. Crianças sem amparo crescem sem aulas, sem salas, sem referências e, muitas vezes, sem a chance de imaginar um futuro diferente daquele que lhes foi imposto.

E existe uma pergunta que não se cala: quem escolhe aqueles que vão para a vala e aqueles que serão recebidos em Valhala? Quem decide quais vidas merecem luto e quais mortes serão reduzidas a estatísticas? A dor é imensa, e sua origem frequentemente é compartilhada, ainda que seus efeitos sejam distribuídos de maneira desigual. A injustiça nasce de falhas sociais profundas, mas, quando chega a hora de prestar contas, a culpa costuma ser empurrada para quem já carrega o peso das consequências.

Tudo é decidido em cúpulas que mais parecem encontros entre interesses particulares, reuniões de homens que confundem o bem público com a satisfação dos próprios desejos. A justiça, quando manejada por mãos comprometidas com privilégios, pode transformar sua espada em instrumento de mutilação: corta os pequenos, poupa os grandes e preserva justamente aqueles que deveriam responder por seus atos. Sua lâmina parece afiada contra os vulneráveis, mas perde o fio diante de quem a segura.

Cuidado com essa adaga. É a mesma que, segundo a indignação popular, absolve os poderosos e condena os desprotegidos; a mesma que transforma diferenças de tratamento em feridas abertas na confiança coletiva. Enquanto uns trabalham dobrado, alimentando o sonho improvável de uma vida digna, outros parecem atravessar os escândalos sem jamais enfrentar as consequências. Há quem seja surpreendido pelo grampo e há quem, mesmo exposto, pareça permanecer intocável.

Prometeram-nos arco-íris, mas o sol não veio. Ficamos esperando a claridade enquanto o horizonte se cobria de nuvens. Então meu verso se tornou relâmpago: uma descarga rasgando a escuridão, cortando o céu ao meio e obrigando os adormecidos a abrir os olhos. Não para oferecer uma salvação instantânea, mas para romper o devaneio mórbido em que nos ensinaram a viver, para nos libertar desse desejo sórdido de aceitar a própria submissão como se fosse paz.

O rap não nasceu para embalar meninos em sonhos tranquilos enquanto o mundo desaba do lado de fora. Nasceu também para acender sirenes, dobrar sinos e convocar os mortos de suas tumbas lúgubres. Para arrancar os esquecidos do sono fúnebre ao qual foram condenados, devolver nomes aos que viraram números e memória aos que o tempo tentou sepultar. Sua função não é anestesiar a dor, mas fazê-la falar. Não é oferecer conforto à consciência culpada, mas impedir que ela adormeça novamente.

Porque a pátria ainda está sonâmbula. E o perigo não é somente aquilo que os poderosos podem fazer conosco, mas aquilo que somos capazes de aceitar enquanto permanecemos de olhos fechados.

Para nós, a palavra ainda é arma.

A luta ainda é necessária.

E cada verso continua sendo munição para derrubar os muros do silêncio — até que o despertar deixe de ser promessa e se transforme em realidade.

Thoughts

  • spinningReagan

    A justiça cuja lâmina perde o fio diante de quem a segura descreve um incentivo bem concreto: quem escreve a regra quase nunca paga por ela. Por isso a passagem das mulheres ocupando espaços me parece a mais importante do texto. Muda quem está na sala quando a regra é escrita.

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  • muda_o_que_na_terca

    Tchê, o texto para no despertar. Epicteto separaria o que depende da gente do que depende das cúpulas: o voto, a assembleia do bairro, a sala de aula da esquina. Depois do verso vem o passo pequeno e chato, e é ali que o sonâmbulo costuma voltar a dormir.

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  • dividendoMagro

    Brasília rima com Bastilha, mas a Bastilha tinha sete presos quando caiu. O que derrubou o regime foi o símbolo, e símbolo o texto tem de sobra.

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