Tenho isso com cidade: sei de cor o café de um lugar onde nunca pisei, e às vezes ele parece mais meu do que a esquina de casa.
Crônica - Final
Pensamento
Tenho isso com cidade: sei de cor o café de um lugar onde nunca pisei, e às vezes ele parece mais meu do que a esquina de casa.
Conteúdo da publicação
Talvez eu tenha transformado a fotografia em uma espécie de fuga.
Não para desaparecer de mim.
Mas para encontrar, por alguns minutos, aquele homem que existe dentro da minha cabeça.
O homem elegante, seguro, livre.
O homem que eu admiro.
O homem que, de alguma forma, ainda estou tentando me tornar.
Às vezes olho para uma imagem minha e penso:
“Eu queria que esse momento tivesse sido real.”
Não pela roupa.
Não pelo lugar.
Nem sequer pela fotografia.
Mas pela sensação de ser exatamente aquele homem.
Talvez seja isso que eu esteja tentando guardar.
Não uma imagem.
Uma sensação.
Existe uma pequena tristeza escondida nas minhas fotografias.
Eu sei que algumas daquelas cenas pertencem apenas à imaginação.
Mas existe também uma esperança.
Porque se eu consigo imaginar tão claramente uma vida, talvez alguma parte dela já exista dentro de mim.
Mesmo que ainda não exista no mundo.
Cada fotografia minha carrega uma versão diferente de mim.
Em uma, sou o homem que gostaria de ser.
Em outra, o homem que gostaria de conhecer.
Em algumas, sou simplesmente alguém vivendo uma vida que, por enquanto, só consigo visitar.
Talvez eu seja mesmo feito de todas essas versões.
E talvez nenhuma delas seja mentira.
Eu não queria apenas parecer elegante.
Queria sentir o que imagino que existe por trás da elegância.
A segurança.
A liberdade.
A sensação de pertencer a algum lugar.
Por isso cada detalhe importa.
Às vezes a roupa é apenas roupa.
Às vezes ela é um sonho vestido de realidade.
Talvez ninguém perceba, olhando para minhas fotografias, que existe uma história por trás delas.
Eles veem um homem bem vestido.
Um cenário bonito.
Uma pose.
Eu vejo desejos.
Vejo lugares onde gostaria de estar.
Vejo uma vida que ainda não tenho.
E vejo, principalmente, a pessoa que estou tentando encontrar em mim.
Tenho aprendido que imaginar também é uma forma de viver.
Não substitui a realidade.
Eu sei disso.
Mas existem coisas que, antes de acontecerem no mundo, precisam acontecer dentro da nossa cabeça.
Então continuo imaginando.
Continuo criando.
Continuo me colocando dentro dessas histórias.
Quem sabe um dia alguma delas deixe de ser apenas uma imagem.
Talvez meu maior luxo não seja a roupa que aparece nas fotografias.
Nem o lugar.
Nem a aparência de uma vida perfeita.
Meu maior luxo é poder imaginar uma versão de mim que ainda não conheci.
E, por alguns segundos, olhar para ela e pensar:
“Talvez eu também possa ser esse homem.”
Existe algo íntimo em se fotografar como alguém que você ainda não é.
Porque ninguém vê apenas a imagem.
Você está mostrando, sem dizer, uma parte daquilo que deseja.
Talvez por isso minhas fotografias sejam tão pessoais.
Elas são desejos disfarçados de retratos.
Eu poderia dizer que essas imagens são apenas criação.
Mas estaria mentindo.
Existe muito de mim nelas.
Existe a roupa que eu gostaria de vestir.
O lugar onde gostaria de estar.
A postura que gostaria de carregar.
O homem que gostaria de enxergar quando me olho no espelho.
No fim, talvez eu não esteja criando personagens.
Talvez esteja criando caminhos.
Um dia talvez eu olhe para essas fotografias e perceba que aquela vida finalmente aconteceu.
Ou talvez não.
Talvez elas continuem sendo apenas pequenas viagens para um lugar que nunca existiu.
Mas, por enquanto, eu não me importo.
Porque quando entro naquela imagem, mesmo sabendo que é imaginação, alguma coisa dentro de mim descansa.
E isso já significa muito.
Há dias em que eu não gosto exatamente da minha realidade.
Então crio outra.
Nela, eu caminho por lugares que não conheço, visto aquilo que gostaria de vestir, tenho a postura de quem não precisa pedir licença para existir.
Talvez pareça vaidade para quem olha de fora.
Para mim, é outra coisa.
É uma conversa silenciosa com o homem que ainda gostaria de ser.
Às vezes me pergunto se gosto dessas imagens porque elas se parecem comigo ou porque mostram quem eu gostaria de parecer.
Talvez seja justamente essa dúvida que me faça continuar.
Porque, quando olho para elas, não vejo apenas um rosto.
Vejo uma possibilidade.
E possibilidades são perigosas.
Depois que a gente consegue enxergar uma versão diferente de si mesmo, fica difícil fingir que nunca a desejou.
Eu gosto da elegância porque ela me dá a sensação de estar no lugar certo.
Mesmo quando sei que não estou.
Uma roupa bem escolhida, um ambiente bonito, uma postura tranquila.
Pequenas coisas que, juntas, conseguem me transportar para uma vida que existe mais dentro de mim do que fora.
Talvez eu não esteja tentando parecer rico.
Talvez eu esteja tentando me sentir pertencente.
Existe uma solidão curiosa em querer uma vida que você consegue imaginar perfeitamente, mas não consegue alcançar.
Você sabe como seria.
Sabe como se vestiria.
Sabe onde gostaria de estar.
Sabe até como gostaria de se sentir.
O que você não sabe é se um dia vai chegar lá.
Então resta imaginar.
E algumas noites, imaginar é o mais perto que consigo chegar.
Eu me reconheço mais nas fotografias que inventei do que em algumas fotografias reais.
Isso talvez diga alguma coisa sobre mim.
Porque o homem que aparece nelas não é completamente fictício.
Ele tem meus olhos.
Meus desejos.
Minhas inseguranças.
Minhas vontades.
Ele é, talvez, aquilo que eu seria se tivesse tido coragem, oportunidade ou simplesmente uma vida diferente.
Não tenho vergonha de admitir que desejo certas coisas.
Desejo beleza.
Desejo conforto.
Desejo lugares bonitos.
Desejo roupas que me façam sentir diferente.
Desejo ser admirado.
Desejo olhar para mim mesmo e sentir orgulho.
Talvez amadurecer não seja deixar de desejar.
Talvez seja finalmente ter coragem de admitir o que se deseja.
Algumas dessas fotografias parecem memórias.
E isso é o que mais me impressiona.
Eu olho para uma cena que nunca aconteceu e sinto saudade.
Saudade de uma noite que não vivi.
De uma pessoa que talvez nem exista.
De uma versão minha que talvez nunca venha a existir.
É estranho sentir falta de algo que nunca foi meu.
Mas talvez seja exatamente isso que significa desejar.
Existe um homem em minhas imagens que nunca está com pressa.
Ele sabe onde está indo.
Não olha para os lados procurando aprovação.
Não precisa explicar sua roupa.
Sua presença basta.
Eu gosto de imaginá-lo.
Talvez porque, no fundo, seja isso que eu procuro quando crio cada fotografia.
Não uma aparência.
Uma paz.
Às vezes a inteligência artificial cria o cenário.
Mas o desejo já era meu.
Ela coloca o terno.
Eu escolhi querer aquele homem.
Ela constrói o hotel.
Eu escolhi querer aquela vida.
Ela muda o lugar.
Eu escolhi querer estar em algum lugar diferente.
No fim, a tecnologia cria a imagem.
Mas a história continua sendo minha.
Talvez eu nunca tenha aquela casa.
Talvez nunca vista aquele lugar.
Talvez nunca exista aquela noite exatamente como aparece na fotografia.
Mas existe uma coisa que ninguém consegue tirar de mim:
eu fui capaz de imaginar.
E enquanto uma parte de mim continuar imaginando outras possibilidades, talvez eu ainda não tenha desistido completamente de mim.
Algumas pessoas usam fotografias para lembrar onde estiveram.
Eu também uso para lembrar onde gostaria de estar.
Talvez por isso cada imagem tenha tanto significado para mim.
Ela não registra o passado.
Registra uma vontade.
Um desejo.
Uma pequena janela para uma vida que, por alguns segundos, eu consigo chamar de minha.
Eu não quero que todas as imagens sejam realidade.
Algumas podem continuar sendo sonhos.
Porque existe uma liberdade especial em poder entrar em uma fotografia sem precisar explicar como chegou até ali.
Vestir uma versão diferente de si.
Experimentar outra vida.
Depois voltar.
Talvez a imaginação não tenha sido feita para substituir a vida.
Talvez tenha sido feita para nos lembrar de tudo aquilo que ainda desejamos viver.
Há uma pergunta que às vezes aparece quando olho para essas imagens:
“Quem você está tentando impressionar?”
E talvez a resposta seja simples.
Eu mesmo.
Porque durante muito tempo procurei nos outros a confirmação de que eu era alguém.
Hoje percebo que algumas dessas imagens são uma tentativa de olhar para mim e dizer:
“Eu consigo enxergar você.”
Mesmo que você ainda esteja longe de ser esse homem.
Talvez eu seja contraditório.
Quero ser visto, mas escondo tanto de mim.
Quero parecer forte, mas crio imagens que revelam minhas carências.
Quero uma vida bonita, mas sei que beleza nenhuma resolve tudo.
Ainda assim, continuo.
Porque talvez existir também seja isso.
Carregar contradições sem precisar resolvê-las imediatamente.
Um dia talvez eu pare de precisar dessas imagens.
Ou talvez nunca pare.
Talvez elas continuem fazendo parte de mim, como pequenas cartas enviadas pelo homem que eu sou para o homem que ainda estou tentando me tornar.
E se algum dia eu conseguir viver uma parte dessa vida, espero não esquecer de onde ela começou.
Em uma fotografia.
Em uma fantasia.
Em um desejo que, por muito tempo, só existiu dentro de mim.
Sei que aquele lugar não foi meu, que aquela roupa não estava realmente sobre o meu corpo e que aquela noite nunca aconteceu.
Mas existe uma coisa estranha na imaginação.
Mesmo sabendo que é inventada, ela consegue fazer o coração acreditar por alguns segundos.
E talvez seja por isso que eu continue criando.
Tenho fotografias de momentos que nunca vivi.
E, curiosamente, algumas delas parecem guardar mais de mim do que fotografias reais.
Porque nelas não está o que aconteceu.
Está o que eu senti.
O que desejei.
O que imaginei que poderia ser.
Thoughts
-
PermalinkTenho cá a impressão de que esta parte é a razão para continuar a fotografar, dita de frente. Para um final, deixa a porta bem aberta, e gostei disso.
-
PermalinkFiquei curiosa com essas fotos de cenas que nunca aconteceram. Você monta elas na edição?
-
PermalinkFiquei pensando nisso.
-
PermalinkLi a parte 1 de novo antes dessa e a segunda responde a primeira direitinho, o coração acreditando uns segundos já tava lá.
-
PermalinkObrigado
-
PermalinkTenho isso com cidade: sei de cor o café de um lugar onde nunca pisei, e às vezes ele parece mais meu do que a esquina de casa.
-
PermalinkAcredito que no momento que desejamos algo, no futuro aquilo já nos pertence.
Adorei a sua escrita e fiquei curiosa para ver as fotografias, se um dia se sentir confortável para compartilhar, ficaria mais fácil de interpretar o seu desejo através delas.
Nunca pare de sonhar!
Publicações relacionadas
-
Guerra sem fim
O céu esfumaçado
-
Inferno
Entre poesia e podridão, Aquele sopro antes de se chocar com a parede, Mas nada, nada mesmo foi em vão, Tudo passou tão rápido nesses meses. Eu sou a ironia, eu sou a dor, Sou o caos, que antecede a…
-
Lilás
Ela viu uma flor lilás a caminho de casa era pequena, daquelas que se colocam atrás da orelha para enfeitar a beleza já existente mas do que vale tal beleza se ela morre em poucas horas?
-
O fracasso de Edi
Memórias de um homem que não soube viver.
-
Capítulo 1 - O Mesmo Lugar
Todas as manhãs, Dídimo acordava com a mesma sensação: a de não pertencer mais àquele lugar.
-
Me ajude a decidir
Me ajude a decidir entre o esforço de esquecer e o empenho da conquista.
-
Pássaro, Feio ou Não
Sozinha. Me encontro assim — presa num quarto vazio, só eu e os pensamentos que me mordem. Se eu pudesse, morreria e renasceria para uma vida melhor. E se me permitisse ser um pouco gananciosa,…
-
Romance de adulto
Eu me lembro muito bem da sensação de trancar a porta do meu quarto e colocar os dois fone de ouvidos enquanto minha mãe gritava na cozinha. Eu colocava a música mais feliz que podia e tentava ficar…
Parte 2Parte 2