A paixão é o fogo que o olhar acende antes de o coração conhecer aquilo que contempla. É uma mistura de febre, desejo e encantamento que nos faz ver no outro aquilo que desejamos e que, por algum tempo, nos convence de que a fantasia é real.
Porém, o tempo é um juiz que não se deixa seduzir.
Revela o rosto que o encanto escondia, as imperfeições que o desejo ignorava e as contradições que nenhum sonho conseguiria sustentar.
E é então que o amor começa.
Amar não é adorar a imagem que inventamos de alguém, mas reconhecer a pessoa que permanece quando a imagem desaparece.
A paixão deseja possuir o instante.
O amor aceita o tempo.
A paixão pergunta: “Como me faz sentir?”
O amor questiona: “Quem é você quando já não consegue me encantar?”
Talvez amar seja contemplar o outro sem querer reescrevê-lo.
É conhecer as suas sombras e, mesmo assim, não apagar a sua luz.
É descobrir que aquele que parecia perfeito nunca o foi e que, precisamente por ser humano, se tornou digno de ser amado.
Porque todo fogo tem o seu fim.
No entanto, há um amor que, depois de atravessar o incêndio, não morre.
Transforma-se.
Já não é uma chama que consome, mas uma brasa que aquece.
E talvez seja justamente aí que esteja a diferença:
quando a paixão deixa de nos cegar, o amor finalmente nos permite ver.