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Espanhola

LuAndrade

Conteúdo da publicação

Como pode alguém permanecer tanto tempo em nós tendo estado tão pouco?

Eu tinha acabado de completar dezenove anos quando o encontrei. Ele, se minha memória não me trai, já havia vivido quarenta e seis. Havia entre nós uma distância de quase três décadas, uma vida inteira de experiências que me antecediam e que, talvez por isso mesmo, tornavam sua presença tão intrigante aos meus olhos.

E, ainda assim, conversamos como se a idade fosse apenas um detalhe biográfico, incapaz de atravessar a afinidade que, por algumas horas, nos manteve ali. Tantos assuntos, tantas coincidências, tantas pequenas descobertas. Eu o ouvia e, a cada palavra, parecia encontrar alguma nova razão para permanecer.

Houve também a intimidade dos corpos, a descoberta da pele alheia, o calor de uma proximidade que não se limitou ao desejo físico. Ou talvez tenha sido justamente o desejo que tornou tudo tão extraordinariamente próximo. Não sei. Ainda não aprendi a distinguir onde termina o encantamento e onde começa a vontade de possuir aquilo que nos escapa.

Lembro-me, sobretudo, de ter sido desejada.

Ele me disse que me queria, que lamentaria não termos aproveitado melhor a oportunidade, que gostaria de ter tido mais tempo para me conhecer. E eu, tão jovem, tão pouco experimentada nas delicadezas e nas armadilhas do querer, acolhi aquelas palavras com a curiosidade de quem encontra um livro desconhecido e, ao abri-lo, descobre cores que sequer sabia nomear.

Talvez eu também tenha me revelado assim: página após página, sem saber ao certo o que oferecia, encantada demais com a descoberta para me preocupar com o destino da história.

Depois, fomos embora.

Ele para a vida dele; eu, para a minha. E o tempo, que costuma ser tão eficiente em transformar presenças em lembranças, fez o que lhe cabia. Passou. Um ano inteiro se interpôs entre aquele encontro e este instante em que ainda me pego pensando nele.

De vez em quando, espiamos a vida um do outro pelas frestas das redes sociais, como dois curiosos que não ousam bater à porta, mas tampouco conseguem ignorar completamente a existência da casa. Não sei o que ele procura quando me olha de longe. Não sei sequer se procura alguma coisa.

Sei apenas que ainda guardo a nostalgia de termos existido, por um breve instante, na vida um do outro.

E é estranho. Mal tive tempo de conhecê-lo. Não sei como seria sua presença nos dias comuns, como reagiria às minhas contradições, quais seriam seus defeitos quando o encanto deixasse de iluminá-los. Conheço fragmentos, conversas, gestos, palavras e uma intimidade que, embora verdadeira, não me concede o direito de afirmar que conheço o homem inteiro.

Ainda assim, há nele alguma coisa que desejo.

Talvez seja ele, propriamente, com tudo aquilo que pude conhecer e tudo o que ainda me escapa. Talvez seja a possibilidade de reencontrá-lo e descobrir que a afinidade não pertencia somente àquela ocasião. Ou talvez eu deseje a versão de mim que existiu ao seu lado: curiosa, entregue, desarmada diante de alguém que despertava tanto a minha atenção quanto o meu corpo.

Não sei se desejo possuí-lo ou se desejo compreender o que, nele, me faz querer tanto.

Há uma diferença entre sentir falta de alguém e sentir falta daquilo que não tivemos tempo de viver. E talvez eu habite justamente esse intervalo, esse território indefinido entre a lembrança e a possibilidade, onde nada terminou propriamente porque quase nada chegou a começar.

Se ele aparecesse amanhã, creio que ficaria feliz.

E essa constatação, tão simples, talvez seja a parte mais honesta de toda esta história.

Não sei o que faria com a oportunidade de conhecê-lo novamente. Não sei se encontraríamos a mesma sintonia, se as palavras ainda fluiriam com aquela facilidade ou se descobriríamos, finalmente, que a beleza daquele encontro dependia também de sua brevidade.

Mas gostaria de descobrir.

Talvez seja isso que me resta: não uma promessa, não uma expectativa, muito menos a certeza de que fomos feitos para alguma coisa além daquele instante. Apenas a vontade de reencontrar um homem que, por algumas horas, deixou de ser um desconhecido e se tornou uma possibilidade.

E há algo quase melancólico em admitir que, depois de um ano, ainda me agrada a ideia de voltar à primeira página.

Não porque eu saiba como termina a história.

Mas porque, por alguma razão que ainda não compreendo, nunca deixei de ter curiosidade de lê-la.

Escrevo sobre uma experiência vivida aos dezenove anos, com a consciência da diferença de idade que existia entre nós. Não pretendo romantizar essa diferença, tampouco afirmar conhecer todas as intenções do outro. Apenas relato, com a honestidade que me é possível, a maneira como vivi aquele encontro e os sentimentos que permaneceram em mim.

Compreendo que cada leitor possa interpretá-lo de uma perspectiva diferente, mas espero que a reflexão não se transforme em condenação automática, nem que a minha experiência seja reduzida a um rótulo. Este texto não pretende estabelecer verdades sobre o homem que conheci, mas dar palavras àquilo que senti, vivi e ainda procuro compreender.

#escritaautoral #prosapoética #nostalgia #memóriasafetivas #desejo #saudade #literaturacontemporânea

Thoughts

  • Antonio_Goncalves

    Se o acontecido foi há um ano, hoje você tem 20. Pela maturidade que demonstra, a grande diferença de idade deixa de ter importância. Tem uma frase que diz mais ou menos "posso encantar alguém por um tempo, mas depois disso precisarei ser eu mesmo". A situação que você apresenta é exatamente isso, um momento cheio de encantos positivamente sufocantes, que deixam essa marca insuperável. No teatro da vida, repetir a mesma cena com a mesma intensidade é bem complexo, mas não significa que não possa se repetir com menor, igual ou maior intensidade. E momentos são momentos, valem por si e em si apenas. Belo texto, representando de modo magnífico o seu momento.

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