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Otsirc Susej, o homem que tinha amor pra dar

Eduardo13
Pensamento

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BeatrizSanto

O padeiro que lhe nega o pão é da mesma gente que já se ria dele na praça no primeiro capítulo, e ninguém daquela cidade aparece no fim a pedir desculpa. Só o comerciante que vinha da cidade vizinha é que muda. Eu li assim, se calhar mal: para mim quem o

O padeiro que lhe nega o pão é da mesma gente que já se ria dele na praça no primeiro capítulo, e ninguém daquela cidade aparece no fim a pedir desculpa. Só o comerciante que vinha da cidade vizinha é que muda. Eu li assim, se calhar mal: para mim quem o reconhece é sempre alguém que está só de passagem.

Conteúdo da publicação

OTSIRC SUSEJ

O homem que tinha amor para dar

Capítulo I — O Homem de Coração Puro

Otsirc Susej era um homem simples, de roupas humildes, sandálias gastas e olhar sereno. Morava numa pequena casa, quase escondida no fim de uma estrada de terra, onde o vento levantava poeira e o sol castigava os campos.

Não possuía riquezas, não tinha terras, nem ouro ou prata guardados. Sua mesa era simples, seu pão era contado, e muitas vezes faltava até para si mesmo.

Mas havia algo que nunca lhe faltava: amor para repartir com o próximo.

Todas as manhãs, Otsirc saía de casa levando uma pequena bolsa com alguns pedaços de pão, frutas e, quando podia, um pouco de leite. Visitava os doentes, sentava-se ao lado dos idosos abandonados, levava consolo às viúvas e brincava com as crianças órfãs.

Quando encontrava alguém chorando, não perguntava primeiro o que havia acontecido. Simplesmente se aproximava, sentava-se ao lado daquela pessoa e oferecia seu ombro amigo.

— Não se preocupe, meu irmão. Hoje talvez o mundo tenha se esquecido de você, mas você não está sozinho — dizia com um sorriso.

Certa vez, encontrou uma viúva que não tinha nada para alimentar seus três filhos. Ao perceber que as crianças estavam famintas, Otsirc entregou-lhe o único pão que carregava.

— Mas, senhor, e o que você vai comer? — perguntou a mulher, com lágrimas nos olhos.

Ele sorriu, ajeitou a bolsa vazia no ombro e respondeu:

— Minha senhora, a fome passa. Mas a dor de ver uma criança com fome machuca o coração. Fique com o pão.

E foi embora sem esperar agradecimentos.

Em outra ocasião, visitou um homem acamado havia muitos meses. Os parentes já não apareciam, os vizinhos haviam perdido a paciência, e o pobre enfermo acreditava que morreria esquecido.

Otsirc limpou-lhe a casa, preparou-lhe uma sopa e permaneceu ao seu lado até o anoitecer.

— Por que você faz tudo isso por mim? — perguntou o homem. — Eu não tenho dinheiro para lhe pagar, não posso lhe oferecer nada!

Otsirc segurou sua mão.

— Eu não vim aqui para receber pagamento. Vim porque você precisa de alguém. E, enquanto eu puder caminhar, não faltará alguém para bater à sua porta.

Assim eram os dias daquele homem.

Ele ajudava sem cobrar, consolava sem julgar e perdoava até mesmo aqueles que o tratavam mal.

Entretanto, nem todos compreendiam sua maneira de viver.

Na praça da pequena cidade, alguns comerciantes riam dele.

— Olhem só! Aí vem o santo dos pobres! — zombava um deles. — Mal tem o que comer e quer sustentar o mundo inteiro!

Outro completava:

— Se continuar dando tudo o que possui, logo estará pedindo esmolas!

Otsirc ouvia aquelas palavras, mas não respondia com raiva. Apenas continuava seu caminho.

Afinal, ele sabia que nem todo coração endurecido estava perdido. Às vezes, bastava um gesto de bondade para fazer nascer uma pequena chama onde antes só havia escuridão.

Mas, naquela cidade, estava prestes a acontecer algo que colocaria à prova não apenas a bondade de Otsirc Susej, mas também a fé de todos aqueles que haviam cruzado seu caminho.

Porque, numa noite fria e chuvosa, um estranho chegou à cidade trazendo uma acusação terrível contra o homem que nunca fizera mal a ninguém.

E, pela primeira vez, aqueles que recebiam sua bondade teriam de decidir se ficariam ao seu lado ou se o abandonariam quando ele mais precisasse.

OTSIRC SUSEJ

Capítulo II — O Nome Diante do Espelho

Sanatas havia chegado à cidade como quem trazia uma sentença nas mãos. Ninguém sabia de onde viera, mas ele conhecia cada passo de Otsirc Susej, ou ao menos dizia conhecer.

— Esse homem não é quem vocês pensam! — gritava Sanatas na praça. — Ele finge ser bondoso! Tudo o que faz esconde uma mentira! É um homem perigoso, um enganador!

E, a cada dia, acrescentava uma nova acusação.

Se Otsirc ajudava uma viúva, Sanatas dizia que ele queria roubar seus bens. Se visitava um enfermo, dizia que desejava ganhar sua confiança. Se dava pão aos famintos, afirmava que queria comprar a amizade dos pobres.

Pouco a pouco, a cidade passou a acreditar nas palavras de Sanatas.

Aqueles que antes abriam suas portas para Otsirc começaram a fechá-las. Os comerciantes recusavam-lhe alimento. Os vizinhos desviavam o olhar. Até mesmo algumas pessoas que haviam recebido sua ajuda passaram a fingir que nunca o tinham conhecido.

Certo dia, Otsirc aproximou-se de uma padaria.

— Bom homem, poderia me dar um pedaço de pão? Estou há dois dias sem comer.

O padeiro cruzou os braços.

— Vá embora! Não quero enganadores perto do meu estabelecimento!

— Não vim enganá-lo. Apenas estou com fome.

— Mentiroso!

Um homem que passava pegou uma pedra e a lançou contra Otsirc. Outro cuspiu em seu rosto. Logo, uma multidão começou a cercá-lo.

Ele tentou se levantar depois de cair no chão, mas recebeu golpes e açoites. Mesmo ferido, não amaldiçoou ninguém.

Apenas olhou para aquelas pessoas e disse:

— Que Deus tenha misericórdia de vocês. Que um dia seus corações encontrem a paz.

Sanatas observava tudo de longe, com um sorriso discreto.

Aquela noite, a pequena casa de Otsirc foi incendiada. As chamas consumiram o pouco que ele possuía. Quando o fogo terminou, restaram apenas cinzas, pedaços de madeira queimada e uma velha pedra onde costumava se sentar para descansar.

Otsirc ficou olhando para os restos de sua morada.

Não tinha pão. Não tinha abrigo. Não tinha amigos.

E, ainda assim, não desejou mal a ninguém.

— Pai, se nada mais me resta, que ao menos eu nunca perca o amor que tenho pelos teus filhos — murmurou, olhando para o céu.

Então, apoiando-se na parede de uma construção, seguiu pela estrada, sem saber onde passaria a noite.

O comerciante de bom coração

Já era tarde quando um comerciante voltava para casa. Era um homem trabalhador, conhecido por sua honestidade, que havia passado o dia negociando mercadorias na cidade vizinha.

Ao atravessar uma rua estreita, viu um homem caído junto à parede.

Aproximou-se e reconheceu Otsirc.

— Meu Deus! O que fizeram com você?

Otsirc tentou sorrir, mas mal tinha forças para falar.

— Não se preocupe comigo, meu amigo. Há pessoas que precisam de ajuda maior do que a minha.

O comerciante ficou indignado.

— Você está ferido, faminto e sem ter onde dormir! E ainda pensa nos outros?

Sem esperar resposta, ajudou-o a se levantar e o levou para sua casa.

Ali, preparou-lhe uma refeição quente. Depois, entregou-lhe roupas limpas e providenciou um quarto simples para que pudesse descansar.

Durante vários dias, cuidou de Otsirc. Tratou de suas feridas, ofereceu-lhe alimento e não fez nenhuma pergunta sobre as acusações de Sanatas.

Para aquele comerciante, bastava ver o sofrimento diante de seus olhos.

Uma manhã, encontrou Otsirc sentado perto da janela, contemplando o nascer do sol.

— Meu amigo — disse ele —, você chegou aqui sem nada. Agora tem comida, roupas e um lugar para ficar. Mas gostaria de lhe perguntar uma coisa.

Otsirc voltou-se para ele.

— Pode perguntar.

— O que posso fazer por você? Como posso retribuir tudo o que você me ensinou durante esses dias?

Otsirc permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois, respondeu:

— Ajude quem precisa, e estaremos quites.

O comerciante baixou a cabeça, emocionado.

— Só isso?

— Só isso. Quando encontrar alguém com fome, dê-lhe pão. Quando encontrar alguém abandonado, ofereça-lhe companhia. Quando encontrar alguém caído, estenda-lhe a mão. Não faça isso esperando recompensa. Faça porque o amor não precisa de pagamento.

O comerciante enxugou os olhos.

— Prometo que farei o possível.

Otsirc sorriu.

— E tenho mais um pedido.

— Diga. Se estiver ao meu alcance, farei.

Otsirc apontou para um quadro de avisos que ficava na parede da sala.

— Permita-me escrever meu nome naquele quadro.

O comerciante achou o pedido estranho, mas concordou.

Otsirc pegou um pedaço de carvão e escreveu, com letras firmes:

OTSIRC SUSEJ

Depois, devolveu o carvão, contemplou aquelas palavras por um momento e disse:

— Agora está feito.

Naquela noite, o comerciante dormiu em paz, agradecendo a Deus pelo encontro com aquele homem tão diferente de todos que conhecera.

Mas, quando acordou na manhã seguinte, encontrou o quarto vazio.

Procurou na cozinha, no quintal e na rua. Perguntou aos vizinhos se haviam visto Otsirc, mas ninguém soube responder.

O homem havia desaparecido.

Não levara comida, dinheiro ou roupas. Não deixara bilhete algum.

Era como se tivesse partido antes mesmo de o sol nascer, sem fazer barulho, sem deixar rastros.

O comerciante voltou para a sala, entristecido.

Foi então que seus olhos pousaram no quadro de avisos.

O nome continuava ali.

OTSIRC SUSEJ.

Ele se aproximou lentamente, como se temesse que aquelas palavras também desaparecessem.

À sua frente havia um espelho pendurado na parede. O comerciante ergueu os olhos e, ao observar o reflexo do quadro, percebeu algo que jamais havia notado.

No espelho, as letras apareciam invertidas.

Ele leu devagar, tentando compreender.

E então seu coração pareceu parar por um instante.

OTSIRC SUSEJ.

Lido de trás para frente, o nome revelava outra coisa.

JESUS CRISTO.

O comerciante recuou um passo. Seus olhos se encheram de lágrimas, e as pernas já não conseguiam sustentá-lo.

Caiu de joelhos diante do quadro.

Lembrou-se de todas as palavras daquele homem, de sua humildade, de seu sofrimento, de sua bondade e da maneira como havia suportado as ofensas sem devolver o mal.

Lembrou-se, sobretudo, daquelas palavras:

Ajude quem precisa, e estaremos quites.”

E também:

“Quando encontrar alguém caído, estenda-lhe a mão.”

O comerciante juntou as mãos, ergueu o rosto para o céu e começou a chorar.

— Senhor meu Deus… será possível?

A voz falhou. Ele respirou fundo e continuou:

— Aquele homem que acolhi… aquele homem que não tinha nada… veio à minha casa, comeu à minha mesa e dormiu sob o meu teto. E eu não reconheci quem ele era!

— Perdoa-me, Pai, se alguma vez fechei minhas portas a quem precisava de mim. Perdoa-me se julguei alguém pela aparência ou se deixei de fazer o bem por medo do que os outros poderiam pensar.

Então, com a cabeça inclinada, pronunciou as palavras que lhe saíram do fundo da alma:

— Agradeço a Ti, Senhor. Obrigado, Pai!

Naquele instante, um raio de sol atravessou a janela e iluminou o nome escrito no quadro.

O comerciante permaneceu ajoelhado por muito tempo.

E, a partir daquele dia, sua casa nunca mais fechou as portas para quem tivesse fome, frio ou tristeza no coração.

Sempre que alguém lhe perguntava por que fazia aquilo, ele apontava para o quadro e respondia:

— Um dia, um homem pobre me ensinou que a bondade não pede pagamento. E deixou comigo uma lembrança que jamais esquecerei.

“Faz o bem a quem precisa, e estarás fazendo a mim.”

E assim o comerciante compreendeu que, muitas vezes, a maior riqueza não está naquilo que guardamos em nossas mãos, mas naquilo que oferecemos com o coração.

Porque talvez o maior erro daquela cidade não tivesse sido acreditar nas mentiras de Sanatas.

Ou melhor, satanás....

Talvez tivesse sido não reconhecer o valor daquele que caminhava entre eles.

E, enquanto o comerciante continuava sua oração, muito longe dali, Sanatas ainda sorria, acreditando ter vencido.

Ele não sabia que a bondade que tentara destruir começava a flores

cer justamente onde havia espalhado o ódio, surgiu o amor.

E em algum lugar um Jesus sorri, pois um homem enxergou além das aparências.

Fim

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