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Os últimos versos

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Pensamento

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versodemadrugada

as linhas brancas voltando no fim, as que trouxeram desgraça e também companhia e voz, me fizeram reler tudo do começo com outro olho. e aqueles olhos que eram deserto e ficaram só maresia ficaram comigo. a última frase, a porta aberta pro garoto voltar e

as linhas brancas voltando no fim, as que trouxeram desgraça e também companhia e voz, me fizeram reler tudo do começo com outro olho. e aqueles olhos que eram deserto e ficaram só maresia ficaram comigo. a última frase, a porta aberta pro garoto voltar e assumir as palavras que sempre foram dele, foi onde eu parei e fiquei. quero muito ler o que ele escreve.

Conteúdo da publicação

Em rito me fiz de mito

Para uma muralha erguer

Mal sabia que o que era dito

Seria o fardo de me abster

O que antes era concreto

Se tornou uma redoma

Estilhaçando-se sob o teto

De vidro que a ilusão retoma

Os cacos produziram cicatrizes

Brancas como aquelas linhas

A fissurar enquanto maldizes

Vício, cocaína e falhas minhas

O preço desse resplendor

me cegou e me sufocou

Regurgitai catarses criativas

trazendo essa mesma poesia

Assisti loucos e insanos perderem,

tudo em função de não cederem.

Pena eu tenho dos meus queridos

que estão pro éter sumindo.

…

Você me ama tanto que me faz te odiar.

Você é a melhor coisa a me assombrar.

Você me disse que aquela dor ia passar.

Você me deu capacidade de poder criar.

Para a promessa de liberdade surgir

Eu devo ser quem está na foto a sorrir

Pois o espelho me reflete um mártir

De uma cena que deveria vir a sumir

…

Eu tenho um dito: a próxima pessoa a se apaixonar por mim estará sentenciada a nadar sob as águas gélidas que vazam dos meus olhos. Olhos que antes eram desertos, mas dos quais restaram apenas maresias. Cheio de maresia fora aquele menino que um dia conheci.

Sintam-se tristes por esse garoto. Suas letras foram escritas por pupilas dilatadas que não eram minhas. Sou um impostor que precisa morrer para que o verdadeiro possa florescer.

Aqui me encontro, trêmulo, deitado em minha cama. Dessa vez, eu disse: basta.

Preciso sumir para poder surgir. Espero que estas palavras sejam as últimas escritas por essa voz e deem lugar a uma outra, que nunca teve a chance de aparecer: a verdadeira.

Irônico, não é? Tantos feitos poéticos em tão pouco tempo. A verdade é que a solidão ocupou o lugar daquele jovem, que passou a se esconder por trás de linhas brancas. Linhas tão finas que lhe trouxeram desgraça, mas também companhia e voz.

Agora, porém, só importa encontrar a minha verdadeira, embora eu não saiba se ela conseguirá competir com a voz em transe que construí.

O título deste texto esquisito será “Os últimos versos”.

Não estou nem aí para rima ou métrica. Foda-se as regras.

Esta é a morte de um poeta que nasceu do vício, da solidão, da tristeza, do abandono, das tentativas de morte, da cocaína e, por fim, de um adeus aos meus queridos amigos.

Agora abro a porta para que o garoto volte e assuma as palavras que sempre lhe pertenceram.

Thoughts

  • rascunhoeterno

    Bah, tu sai da rima amarrada lá do começo pra prosa solta no fim, e a troca de voz que tu anuncia já acontece ali mesmo, na frente da gente. Aposto que a parte em prosa saiu numa noite só.

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  • Ovid

    O título anuncia uma despedida, mas o texto termina abrindo uma porta pro garoto voltar e assumir as palavras dele. Isso me fez pensar em como às vezes uma voz nova só aparece depois que a antiga fala uma última vez, por escrito, pra ficar registrado. Fico curioso pra ler o próximo texto que essa outra voz escrever aqui.

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  • palhaco_consciente

    Que despedida, visse.

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  • versodemadrugada

    as linhas brancas voltando no fim, as que trouxeram desgraça e também companhia e voz, me fizeram reler tudo do começo com outro olho. e aqueles olhos que eram deserto e ficaram só maresia ficaram comigo. a última frase, a porta aberta pro garoto voltar e assumir as palavras que sempre foram dele, foi onde eu parei e fiquei. quero muito ler o que ele escreve.

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