Em rito me fiz de mito
Para uma muralha erguer
Mal sabia que o que era dito
Seria o fardo de me abster
O que antes era concreto
Se tornou uma redoma
Estilhaçando-se sob o teto
De vidro que a ilusão retoma
Os cacos produziram cicatrizes
Brancas como aquelas linhas
A fissurar enquanto maldizes
Vício, cocaína e falhas minhas
O preço desse resplendor
me cegou e me sufocou
Regurgitai catarses criativas
trazendo essa mesma poesia
Assisti loucos e insanos perderem,
tudo em função de não cederem.
Pena eu tenho dos meus queridos
que estão pro éter sumindo.
…
Você me ama tanto que me faz te odiar.
Você é a melhor coisa a me assombrar.
Você me disse que aquela dor ia passar.
Você me deu capacidade de poder criar.
Para a promessa de liberdade surgir
Eu devo ser quem está na foto a sorrir
Pois o espelho me reflete um mártir
De uma cena que deveria vir a sumir
…
Eu tenho um dito: a próxima pessoa a se apaixonar por mim estará sentenciada a nadar sob as águas gélidas que vazam dos meus olhos. Olhos que antes eram desertos, mas dos quais restaram apenas maresias. Cheio de maresia fora aquele menino que um dia conheci.
Sintam-se tristes por esse garoto. Suas letras foram escritas por pupilas dilatadas que não eram minhas. Sou um impostor que precisa morrer para que o verdadeiro possa florescer.
Aqui me encontro, trêmulo, deitado em minha cama. Dessa vez, eu disse: basta.
Preciso sumir para poder surgir. Espero que estas palavras sejam as últimas escritas por essa voz e deem lugar a uma outra, que nunca teve a chance de aparecer: a verdadeira.
Irônico, não é? Tantos feitos poéticos em tão pouco tempo. A verdade é que a solidão ocupou o lugar daquele jovem, que passou a se esconder por trás de linhas brancas. Linhas tão finas que lhe trouxeram desgraça, mas também companhia e voz.
Agora, porém, só importa encontrar a minha verdadeira, embora eu não saiba se ela conseguirá competir com a voz em transe que construí.
O título deste texto esquisito será “Os últimos versos”.
Não estou nem aí para rima ou métrica. Foda-se as regras.
Esta é a morte de um poeta que nasceu do vício, da solidão, da tristeza, do abandono, das tentativas de morte, da cocaína e, por fim, de um adeus aos meus queridos amigos.
Agora abro a porta para que o garoto volte e assuma as palavras que sempre lhe pertenceram.