CAPÍTULO 10
O RITUAL DOS TRÊS BEIJINHOS E OS DESENCONTROS DA MARÉ
Para quem não sabe, o Narciso é muito fã do Poeta Vinicius de Moraes. Antes de dar sequência ao capítulo 10, vamos fazer um “Epígrafe caprichado” falando um pouco sobre esse ícone da literatura e da MPB que pertenceu ao movimento modernista, na verdade o Poetinha foi um homem multifacetado incluindo a função de diplomata, advogado mas foi nos caminhos da poesia que ele trilhou até o final da sua vida.
Historicamente, Ele é um dos grandes expoentes da Segunda Geração do Modernismo brasileiro (também conhecida como Geração de 30), dividindo espaço com autores como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles.
O que chamou a atenção do Narciso quando conheceu a sua arte, foi que Vinicius utilizava uma estrutura clássica em seus poemas, o qual acabou quebrando os padrões tradicionais ao misturar a forma clássica dos sonetos com a liberdade de expressão modernista e a musicalidade do samba. Além de sua brilhante trajetória na literatura, ele marcou a história cultural brasileira como poeta, dramaturgo, diplomata e um dos maiores compositores da Bossa Nova, ao lado de Tom Jobim.
Coincidentemente, Narciso associou o estilo do Vinicius de Moraes aos sentimentos quando conheceu a Helena Dolly. Pois, sempre acreditou que a vida é construída com a paciência de um artesão: bloco a bloco, dia a dia. Mas o "de repente" comparado ao Vinicius era, para ele, a única verdade absoluta da existência.
Ali, no limiar daquele novo amanhecer — onde as cicatrizes do passado começavam a clarear, mas ainda sussurravam nas sombras — Narciso percebeu que não importava o quanto ele tentasse selar o "Trato da Vida" com garantias ou esperanças. A vida, implacável, não pedia licença para inverter as cores do seu cenário. Ele estava prestes a descobrir que o pranto e o riso não eram opostos, mas dois lados da mesma moeda, girando no ar, prestes a cair.
E, pela primeira vez, Narciso não temeu o espanto. Ele apenas respirou, pronto para o próximo verso.
O momento vivido por Narciso diz muito sobre o Vinicius de Moraes, conhecido por sua vivência intensa e complexa com o amor, frequentemente expressou a dor da perda e a melancolia que acompanhava suas despedidas. Um dos exemplos mais emblemáticos do seu sofrimento e da intensidade com que vivia essas rupturas pode ser encontrado no…
"Soneto de Separação":
"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
De antigos beijos presos pelo espanto.
De repente, do calmo que se fez,
Do beijo fez-se a chama do ciúme,
Do olhar fez-se a poeira do costume
E do rosto que veio, a palidez.
E de repente, não mais que de repente,
Fez-se de tristeza o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
E tornou-se tão triste o que se fez beijo
E de medo que fez-se o que se fez vidente
E de tanto que se fez, o que se fez desejo."
VINICIUS DE MORAES
Conforme o drama do Narciso e Helena Dolly, neste poema, o "poetinha" retrata a fragilidade das relações e o sofrimento que nasce da transição abrupta entre a plenitude do amor e a solidão da ausência, um tema que permeou grande parte de sua obra lírica dedicada às mulheres que amou. No caso do Narciso, é somente Helena.
DANDO CONTINUIDADE….
No dia seguinte ao emblemático almoço, ao cruzar as portas de vidro da empresa nas primeiras horas da manhã, Narciso, O Poeta, já trazia no rosto a sua marca registrada. Ele aproximou-se do balcão da recepção, saudou a sua musa com um bom dia profundo e disparou aquele sorriso maroto que guardava nos lábios sempre que estava perto dela. Em seguida, cumpriu o roteiro que havia transformado em lei: deu-lhe um abraço apertado e os tradicionais três beijinhos no rosto. Na verdade nua e crua do escritor, aquele ritual diário era um grande e bem-intencionado "migué" para conseguir tirar uma casquinha daquela deusa. Helena Dolly possuía um corpo durinho, uma postura impecável e exalava o cheiro gostoso do seu Chanel nº 1, um perfume marcante que já estava na memória do Poeta, aquele era o cheiro do seu amor.
Somente depois de completar com absoluto sucesso esse circuito físico de carinho é que as novas inspirações da madrugada eram formalmente entregues. Narciso estendeu as folhas manuscritas, e Helena recebeu-as com a elegância de sempre. Ela leu cada linha em absoluto silêncio, permanecendo calada por longos e densos três minutos, enquanto o Poeta vigiava a sua reação, com o coração batendo na garganta. Tudo indicava que ela havia gostado profundamente. Ainda sem dizer uma palavra, ela apoiou suavemente a mão esquerda no queixo, sustentou uma olhada romântica e magnética na direção de Narciso e quebrou o silêncio com a sua voz mansa:
___ Nossa, Narciso... São belos! Eu amei de verdade. É muito linda a sua forma de escrever, eu não me canso de te dizer isso. Parabéns pelo seu talento...
___ Você acha mesmo, Helena? — respondeu o Poeta, ajeitando o paletó, tocado pela sinceridade dela. — Obrigado... Eu fico até sem palavras quando você elogia assim.
___ São lindos demais, de verdade — insistiu ela, deslizando os dedos pelas margens do papel de rascunho.
___ E qual desses poemas você mais gostou, minha linda? — indagou ele, curioso para decifrar o labirinto dos gostos de sua musa.
___ Todos são lindos, Narciso. A sua arte é maravilhosa e muito diferente de tudo. Eu nunca tinha lido algo assim na minha vida — confessou ela, guardando as folhas com zelo.
E assim, embalado por esses diálogos doces e rápidos na entrada do expediente, o tempo foi seguindo o seu curso natural. Passaram-se semanas, cruzaram-se meses, e o tabuleiro do romance começou a mostrar as suas peças mais complexas. O coração de Narciso, apesar de carregar toda aquela euforia vibrante, aquele entusiasmo animal e o êxtase puro de uma paixão avassaladora, começou a captar sinais ambíguos no ar. Ele sentia com clareza que Helena Dolly gostava e queria a sua aproximação, mas, ao mesmo tempo, dava para perceber perfeitamente que ela não estava disposta a engatar nada sério. Aquela constatação batia no peito do escritor deixando uma sensação estranha, um vazio cinzento e incômodo que só quem ama sozinho é capaz de experimentar.
O grande problema era que o Poeta, cego de paixão, demorou para se tocar de que ela não estava muito a fim de dar um passo definitivo rumo ao compromisso. Narciso jamais imaginou que seria capaz de reacender aquela chama do amor com tanta força dentro de si, após tantos anos de inverno e isolamento emocional. Havia sido uma paixão avassaladora, daquelas que derrubam as defesas do homem mais forte. E Helena Dolly, sem fazer o menor esforço, apenas existindo com o seu carisma magnético, conseguira transformar o escritor no homem mais apaixonado do mundo.
Os dias continuavam a passar na rotina da metrópole, e Helena permanecia idêntica: sempre linda, meiga, extremamente educada, mas completamente inalterada e firme com relação ao espaço que cedia a Narciso. Ao notar que o cenário não mudava, o Poeta começou a desanimar, conformando-se aos poucos com a dura realidade dos fatos. No fundo, ele sabia que não havia o que fazer. Forçar a barra? Implorar por atenção ou por um espaço maior na vida dela? Isso não combinava com a dignidade do Poeta, não dava de jeito nenhum.
Apesar de todas as qualidades inegáveis de Helena — de ser uma mulher deslumbrante, elegante, cheia de plumas e paetês aos olhos da sociedade —, ela também carregava o seu lado complicado, as suas amarras e principalmente os seus mistérios, e não fazia questão nenhuma de ocultar os seus defeitos. Narciso começou a sentir o peso da verdade: o seu grande sonho romântico talvez não passaria daquilo, um flerte eterno de lanchonete e se ele continuasse pisando fundo no acelerador, fatalmente o seu barco ia naufragar contra as rochas da rejeição. Compreendendo o perigo, ele tirou o pé do acelerador e aos poucos, foi deixando as coisas acontecerem conforme o destino ditava, sem forçar as engrenagens.
Foi justamente em um desses momentos de profunda angústia e reflexão que Narciso se pegou no trabalho, compenetrado na contemplação de uma tela que decorava o ambiente. Parecia ser uma pintura a óleo, uma bela e melancólica paisagem de mar aberto, sob um céu que se dividia entre o azulado e o nublado das nuvens de tempestade. Inspirado por aquela imagem que espelhava perfeitamente o seu mundo interior, pintou na mente o poema "Maré". Os versos eram o desabafo de um homem que começava a desanimar e a abrir mão de ter a sua amada nos braços, simplesmente porque os obstáculos que surgiam no caminho pareciam gigantescos demais. Para ele, naquele instante de cansaço, a desistência apresentava-se como a opção mais coerente e segura para preservar o que restava de seu coração. E as linhas diziam assim:
MARÉ
Sinto um peso insuportável
Nos braços da vida,
Pois remar contra a maré
Não é fácil,
Quase impossível.
Sinto a cada instante
A distância me dar assistência,
Pois com a maré
Não se brinca
E nem se envolve.
Não sei o troco,
Mas ela devolve.
Maré, axé...
Sentidos opostos
Que se casam.
Uma oferece o desafio,
A outra a sorte
Ou quem sabe
Até mesmo a morte.
Um corte do destino
Às vezes pode ser fatal,
Não há peito que aguente.
O instinto
Acompanha a alma,
Aliviando-a dos impactos.
É esgotante no instante
Que o coração se cansa.
A maré
Permite a sobrevivência
Com conveniência.
Segurar a vontade
Perde a afinidade do querer
E mata todo sentimento.
A maré que tudo pode,
Só não poderá devastar
O carinho que tenho por ti.
Sinto um peso insuportável
Nos braços do mundo...
E meu tudo é você,
Minha querida..
Ass. Narciso "O Poeta"
Definitivamente convencido de que estava tudo perdido, Narciso, com toda a razão do mundo, ficou profundamente chateado com a situação. Ele não conseguia se conformar com o rumo melancólico que a sua grande paixão estava tomando, mas começava a entender que era assim que tinha que ser. Aquele amor por Helena Dolly havia se tornado algo tão sólido, claro e transparente no seu peito que na mente do Poeta, não havia espaço para aceitar aquele desencontro forçado. Foi nesse estado de espírito, navegando entre a realidade fria e o sonho lírico, que ele deu vida ao poema "Paixão Imaginária" — um texto singelo, bonito, que funcionava como um último e breve apelo à sua amada. A poesia, como ele bem sabia, faz sempre esse jogo de xadrez com as palavras, envolvendo as surrealidades do sentimento em metáforas para conseguir transmitir uma mensagem que a fala comum não alcança.
Ele assinou o seu manifesto de despedida e entrega com as seguintes linhas:
PAIXÃO IMAGINÁRIA
Vivi uma paixão imaginária
Que só eu vivi.
O pulsar do coração
Converteu-se em poemas.
Os pingos da brisa
Suam ao luar.
Como o mar,
Tudo acontece,
Tudo aparece.
Errado momento,
Exata paixão.
Olho o tempo mudar
Como o sentimento.
Lindo como era,
Tão ligeiro, cruel ficou.
Sinto a melodia amorosa,
A voz suave e calorosa
Me convidando para a paz.
Não tenho culpa,
Assim deve ser feito.
Como a flor,
A cor do amor.
Tenho um mundo, mudo,
Mas lindo e belo
Como o horizonte.
Um monte...
Parte sublime da alma
Que encanta a minha pessoa.
Com tudo,
Ainda me contenta,
Me aperta e desperta
Como uma esperta.
Oh! Santa alma,
Leva para ela o meu desejo.
Essa paixão imaginária e solitária
Não adianta alimentar o meu espírito
Com um desejo impossível,
Com um querer sem sucesso.
Voltei ao meu mundo
Como um guerreiro vencedor,
Pois lutei,
Relutei e tentei
Nesta bela paixão, imaginária.....
Ass. Narciso "O Poeta”
O Autor.
*Caro leitor qual a sua opinião em relação aos caminhos que o Narciso deve tomar?
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
opoetalk520.substack.com
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O Autor.