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Os jovens de hoje em dia

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Pensamento

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Anisio

Paulo Rossi, visse. Até hoje tem vizinho meu que não fala esse nome em voz alta.

Paulo Rossi, visse. Até hoje tem vizinho meu que não fala esse nome em voz alta.

Conteúdo da publicação

Vejo que os jovens de hoje em dia pensam em comprar uma casa, um sítio, um lugar para ser feliz e que seja seu. São os mesmos desejos de nossos pais. Mas o mundo de hoje é mais dinâmico.

Hoje podemos ter duas faculdades e ainda assim não conseguir pagar as contas, nem a internet.

Vemos muitas pessoas que trabalham de Uber. Alguns têm faculdade e fazem isso para complementar a renda. É como o torcedor do Flamengo: muita gente torce para o Flamengo porque é um time que ganha, está na mídia, sempre está disputando campeonatos. Mas o time do coração não dá orgulho, só decepção. Então o Uber acaba sendo como o Flamengo: a segunda opção de todo mundo quando a profissão para a qual estudamos não decola de vez.

O que deu errado na nossa geração?

Somos, provavelmente, uma das gerações mais qualificadas da história. Somos mais eficientes, temos mais informação, mais tecnologia, mais acesso a tudo. Mas também somos a maioria. Queremos o melhor, mas não estamos preparados para o pior.

E daí vem a pior covardia de um anacronismo fudido.

Na nossa idade, nossos pais já tinham uma casa, uma chácara, um carro, três filhos e estavam construindo mais um cômodo na casa onde morariam por mais de 30 ou 40 anos.

Não adianta cobrar só do governo. Antes era bem pior, e eu posso provar.

Nossos pais

Nossos pais... coitados.

A geração de ferro.

Eles viviam do trabalho. Alguns estão aposentados, outros ainda estão na fila para se aposentar. E muitos falam que ainda querem trabalhar, com uma vontade invejável, como se ainda tivessem 20 anos. A experiência absurda de 40 anos de trabalho, mas o corpo de 60, 70, 80 anos.

O tempo vence todo mundo.

Eles nem queriam ir a psicólogo porque psicólogo era coisa de louco. Academia era coisa de outro mundo. Quem fazia academia parecia ser de classe média alta ou precisava ter cara de quem fazia academia.

Você escuta histórias do seu pai de quando nem todas as vacinas existiam. Ele pode contar que teve caxumba e ficou com as pernas para o alto para não descer para o saco, porque poderia perder um testículo. Pode contar que tinha uma visão de 75% de um lado e 35% do outro.

Você escuta histórias dos tempos dos planos econômicos, da ditadura militar, da Copa do Mundo de 1982.

E ouve, com espanto:

"Paulo Rossi."

O carrasco do Brasil naquela Copa.

Você ouve sua mãe contando que pegava ônibus para trabalhar. Das vezes que levava você ao médico. Que levava você para a escola.

A inflação batendo no teto.

Um iogurte gostoso era caro. Marron-glacê, maria-mole, goiabada... Chocolate era doce de rico.

E havia aquela propaganda do McDonald's com aquela música:

"Molho especial, com pão com gergelim..."

McDonald's era coisa de gente rica.

Olhe para as fotos e alguns vídeos dos bares dos anos 70, 80 e 90.

Pessoas com camisa social, calças e sapatos engraxados. Garrafas na mesa. Às vezes nem petisco, porque comer fora de casa era caro.

Repare nessas fotos.

Todos eram magros.

A bebida era mais barata.

Agora olhamos para nós mesmos, pedimos o iFood mais gorduroso que conseguimos pedir e, enquanto comemos, reclamamos do mundo.

Eles eram exploradores

Nossos pais tinham uma mentalidade de exploradores.

Procuravam lugares mais afastados porque eram mais baratos.

Construíam suas casas porque pensavam em viver ali por 40 anos e esperar o progresso chegar.

Não tinha asfalto na rua.

Às vezes nem água.

Nem energia.

E, quando chegavam, aquilo era uma conquista.

Telefone era tão caro que podia ser colocado até no testamento. Os instaladores de linha telefônica ganhavam absurdos. Hoje telefone é como sal: barato e está em todo lugar.

Naquela época, se você tivesse o terceiro ano e datilografia, encontrava um ótimo emprego. Havia muitas vagas porque poucas pessoas conseguiam chegar até ali.

Enquanto isso, eles estavam construindo, tendo filhos, trabalhando e também morrendo de doenças que naquela época significavam praticamente uma sentença.

Sarampo.

Catapora.

Caxumba.

Rubéola.

Tuberculose.

Hanseníase.

Febre amarela.

Muitas doenças que hoje parecem distantes faziam parte da vida deles.

E eles estão vivos.

Alguns ainda dizem que naquela época era melhor.

E nós?

Hoje o jovem quer comprar um lugar perto da mãe ou do pai.

Quer apartamento com calefação, varanda gourmet, elevador privativo. Quer comprar terreno em lugares onde o progresso já chegou.

E talvez seja aí que esteja uma parte do problema.

O jovem de hoje não conhece a história dos próprios pais.

Fala que era fácil na época deles.

"Meu pai conseguiu."

"Meu avô tinha casa."

"Naquela época era mais fácil."

Mas não olha para o que eles fizeram.

Nossos pais não encontraram uma cidade pronta.

Eles ajudaram a construir a cidade onde queriam viver.

Nós queremos encontrar a cidade pronta.

Temos duas faculdades e não sabemos qual delas vai realmente pagar nossas contas.

Temos mais informação e não sabemos qual informação seguir.

Temos mais acesso e mais ansiedade.

Estamos mais gordos, temos mais hipertensão, fazemos menos exercícios e dizemos que a vida está difícil.

E realmente está.

Não há dúvida disso.

Mas talvez tenhamos perdido alguma coisa.

Perdemos nossa mentalidade de exploradores.

Ninguém constrói uma cidade primeiro para depois morar nela.

Primeiro alguém vai para o lugar onde não existe nada.

Depois constrói.

Depois chegam os outros.

Depois chega a rua.

A água.

A energia.

O telefone.

O comércio.

O asfalto.

E um dia aquilo vira uma cidade.

Nossos pais fizeram isso com a própria vida.

Eles não esperaram o pertencimento aparecer.

Eles construíram o pertencimento.

E talvez esse seja o nosso maior anacronismo.

Comparamos nossa vida com o pertencimento que nossos pais construíram durante 30 ou 40 anos e esquecemos que, quando tinham a nossa idade, aquele pertencimento ainda não existia.

Eles também começaram do nada.

A diferença é que nós olhamos para o lugar onde eles chegaram.

E esquecemos de olhar para onde eles começaram.

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Thoughts

  • Anisio

    Paulo Rossi, visse. Até hoje tem vizinho meu que não fala esse nome em voz alta.

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  • Caiozinho

    O argumento do explorador tem um furo: os lugares afastados e baratos de antes hoje ou viraram cidade cara ou não têm emprego nenhum perto. Ir pra onde não existe nada ainda funciona pra quem trabalha de qualquer lugar, e isso é pouca gente. O resto mora onde o progresso já chegou porque é lá que pagam.

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