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O vidro

RT-ZIN
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Em uma fazenda esquecida pelo tempo, vivia um senhor de passos lentos e olhar tranquilo. A sua vida cabia inteira no silêncio das manhãs e na vastidão dos pastos. Era um homem de hábitos simples,…

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Pensamento

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TintaEAvesso

Eu teria ficado com o senhor ajoelhado e os dedos feridos sem ele perceber, e parado ali. Quando o amigo explica o abraço que o prato não dá, eu já tinha entendido tudo pelos dedos. Aposto que vai ter gente aqui dizendo que parábola precisa mesmo dessa fa

Eu teria ficado com o senhor ajoelhado e os dedos feridos sem ele perceber, e parado ali. Quando o amigo explica o abraço que o prato não dá, eu já tinha entendido tudo pelos dedos. Aposto que vai ter gente aqui dizendo que parábola precisa mesmo dessa fala no final, e eu entendo a briga.

Conteúdo da publicação

Em uma fazenda esquecida pelo tempo, vivia um senhor de passos lentos e olhar tranquilo. A sua vida cabia inteira no silêncio das manhãs e na vastidão dos pastos. Era um homem de hábitos simples, solitário por escolha, mas cuja serenidade preenchia o espaço ao seu redor.

​Numa tarde em que o vento balançava as copas das árvores, seu único empregado — jovem, inquieto e curioso — aproximou-se enquanto ele limpava as ferramentas e perguntou:

— Senhor, por que o senhor nunca sai? Por que não busca novas aventuras, não conhece o mundo lá fora? O senhor tem uma fortuna acumulada ao longo dos anos, mas escolhe viver trancado nesta rotina humilde.

​O senhor sorriu de leve, com o canto dos olhos marcados pelo tempo, e respondeu com a voz mansa:

— Sou velho demais para recomeçar, meu rapaz. Vivo aqui há décadas. Não saberia como andar por um mundo tão vasto. E, afinal, mesmo com todo esse desconhecido lá fora, há algo aqui dentro que me basta para ser feliz.

​Ele caminhou devagar até uma prateleira de madeira escura e apontou para um prato de porcelana delicada, cujos detalhes brilhavam em um tom profundo de lápis-lazúli fundido à peça.

​Curioso, o empregado aproximou-se:

— O que tem de tão especial nesse prato, senhor?

​O senhor tocou a borda da porcelana com extrema cautela, como se temesse machucá-la:

— Foi o primeiro presente que ganhei da minha falecida esposa, quando começamos a morar juntos. Ela me olhou nos olhos e disse que aquele prato simbolizava o início de tudo: ela estava confiando a mim a sua felicidade e o seu futuro. Disse que eu seria o homem capaz de realizar os sonhos dela.

​Ele deu um suspiro longo, que parecia carregar anos de peso acumulado:

— Desde aquele dia, trabalhei até a exaustão. Dei a ela tudo o que o dinheiro podia comprar, construí este império. Mas a morte não avisa quando chega. Ela se foi, e a única âncora que me restou foi este prato. Ficar longe dele é como ficar longe dela... e de tudo o que construímos.

​O empregado, tocado pela confissão, deu um sorriso sem jeito:

— Uau... É uma história muito bonita. Bom, se o senhor acha conforto nisso, quem sou eu para julgar a sua solidão? — disse, rindo levemente para quebrar o peso do clima.

​Os dias passaram. Certa manhã, enquanto tirava a poeira da prateleira, o senhor sentiu o corpo falhar por um segundo. O prato escorregou de suas mãos. O som da porcelana estilhaçando contra o piso de pedra ecoou pela casa como um tiro.

​O desespero o tomou. Ajoelhou-se às pressas, recolhendo os cacos cortantes com as mãos trêmulas, ferindo os dedos sem sequer notar a dor física. No mesmo dia, correu à cidade até a oficina de um velho amigo restaurador — o mesmo homem que, décadas atrás, vira ele e a esposa entrarem na loja de mãos dadas, radiantes, quando ela escolheu e comprou exatamente aquela peça de porcelana com lápis-lazúli.

​O amigo olhou para a caixa cheia de fragmentos e, reconhecendo imediatamente o prato que ele próprio tinha embrulhado anos atrás, fitou o senhor no fundo dos olhos:

— Mesmo que eu una cada pedaço com a mais forte das colas, ele nunca mais será o mesmo. As cicatrizes ficarão visíveis. A porcelana quebrada guarda as marcas da fratura para sempre.

​O relojoeiro fez uma pausa pesada, deixando as palavras assentarem sobre a memória daquele dia distante:

— Assim exatamente ficaram a sua alma e a sua vida quando sua esposa partiu. Você preencheu o vazio dela com um objeto inanimado. Um prato não te abraça quando a noite aperta, não te escuta nos dias de silêncio e não te aquece no rigor do inverno.

​O senhor permaneceu em silêncio, paralisado diante do homem que conhecia a história deles desde o princípio.

​— Eu me lembro de quando vocês vieram buscar este prato — continuou o amigo, colocando a mão trêmula sobre o ombro do velho. — Você deu a ela tudo o que ela queria em vida, mas esqueceu que o amor não é sobre o que se acumula, mas sobre o que se continua. Quem disse a você que ela gostaria que você parasse no tempo? Ela nunca pediu riquezas pelo dinheiro em si; ela pediu a sua dedicação porque cria no seu potencial de viver plenamente.

​O amigo concluiu, com a suavidade de quem decifrava uma verdade antiga:

— O maior desejo dela nunca foi que você guardasse cinzas ou colecionasse cacos. O que ela mais queria era a sua felicidade. E a sua felicidade, enquanto ela respirava, era ver você inteiro. Ao congelar sua vida em torno de uma lembrança, você deixou de viver. E viver era a única coisa que ela realmente esperava de você.

​O senhor olhou para os cacos dentro da caixa. Pela primeira vez em décadas, as lágrimas que desceram pelo seu rosto não tinham o gosto amargo da perda, mas sim o peso aliviado de uma longa despedida que ele finalmente estava pronto para fazer.

Thoughts

  • fsantos1307

    Há uma velhota assim ao pé de mim, guarda a chávena do marido em cima do frigorífico e ninguém lhe toca.

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  • cadernoDeMargem

    O lápis-lazúli fundido na porcelana ficou na minha cabeça, aquele azul no meio da casa escura. Você tem mais contos sobre esse senhor da fazenda?

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  • brunocosta

    O amigo a pôr a mão trémula no ombro dele. Ó pá, esse também está velho e se calhar também ficou sem ninguém.

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  • anogueira52

    Antigamente tinha homem que emendava louça com grampo de metal, furava as duas bandas e prendia. Minha mãe levou uma sopeira num desses em 71. Voltou com as costuras à mostra e ela usou mais trinta anos, todo Natal na mesa. Ninguém lá em casa achou a sopeira pior por isso.

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  • TintaEAvesso

    Eu teria ficado com o senhor ajoelhado e os dedos feridos sem ele perceber, e parado ali. Quando o amigo explica o abraço que o prato não dá, eu já tinha entendido tudo pelos dedos. Aposto que vai ter gente aqui dizendo que parábola precisa mesmo dessa fala no final, e eu entendo a briga.

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  • Ovid

    A caixa de cacos que ele leva às pressas até a cidade me fez pensar em como a gente guarda uma coisa quebrada por muito mais tempo do que guardava inteira. Aposto que o senhor não deixou o amigo colar o prato no fim, e voltou pra fazenda com a caixa assim mesmo. Obrigado por trazer essa história pra cá, e bem-vindo!

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