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O Valor da Vida

Subaru09
Pensamento

Pensamento

LuizaFontes

O Elias ficou comigo mais que todo mundo. Um homem que passou anos segurando os relógios parados pra ninguém perder o nome, e quando o Dazai pede pra ele admitir o medo, ele admite e mesmo assim volta pro porto. Eu queria muito que ele tivesse entrado naq

O Elias ficou comigo mais que todo mundo. Um homem que passou anos segurando os relógios parados pra ninguém perder o nome, e quando o Dazai pede pra ele admitir o medo, ele admite e mesmo assim volta pro porto. Eu queria muito que ele tivesse entrado naquele táxi. Você tem mais histórias sobre o Elias?

Conteúdo da publicação

O Valor da Vida

Prólogo — A pergunta sob a água

Na noite em que a casa apareceu, a maré recuou mais do que devia. O porto ficou exposto como uma ferida aberta, com cascos inclinados na lama e poças negras refletindo um céu sem estrelas. Osamu Dazai caminhava pela rua vazia com as mãos nos bolsos do casaco, contando os passos apenas para não ter de contar os anos.

Ele tinha aprendido cedo que a violência não precisava gritar. Às vezes, ela se manifestava no modo como uma porta se fechava, no silêncio depois de uma ordem, na espera de alguém antes de decidir se obedeceria. Aos quinze anos, quando entrou para a Máfia do Porto, imaginava que a proximidade da morte arrancaria do mundo alguma resposta. Talvez o perigo revelasse o valor de uma vida. Talvez a dor tivesse uma linguagem que ele ainda não conhecia.

Anos depois, sabia apenas que a morte era persistente e a resposta, não. Restara-lhe uma apatia funda, sem a dignidade dramática que algumas pessoas atribuíam ao desespero. Havia manhãs em que escovar os dentes parecia uma negociação. Havia noites em que permanecer no quarto exigia menos esforço do que desaparecer, e isso não era vitória alguma, apenas cansaço.

As bandagens sob a roupa apertavam seu tronco e seus pulsos. Algumas escondiam ferimentos recentes; outras cobriam marcas antigas, mantidas por hábito e por necessidade. Dazai não gostava que perguntassem por elas. Tampouco gostava da maneira como as pessoas desviavam os olhos. As faixas não eram uma promessa, nem um adorno, nem prova de coragem. Eram curativos. Eram lembretes de que um corpo podia continuar funcionando mesmo quando a pessoa dentro dele não sabia por quê.

Na esquina do antigo cais, encontrou a casa.

Não estava ali na noite anterior. Dazai tinha certeza porque conhecia aquela parte do porto como se conhece uma cicatriz: o armazém desativado, a oficina fechada, o muro coberto de sal. Agora havia uma construção estreita entre dois prédios, com três andares de janelas escuras e uma fachada revestida de azulejos gastos. Acima da porta, letras de ferro diziam: Instituto Santa Ágata — Arquivo Clínico.

Ele se aproximou. A placa pendia de um único parafuso, embora não houvesse vento. No vidro da entrada, seu reflexo apareceu mais magro, mais jovem. O rapaz refletido usava o uniforme escuro da Máfia do Porto e tinha quinze anos. Não carregava bandagens. Carregava uma expressão de curiosidade quase alegre.

— Você demorou — disse o reflexo.

Dazai parou.

O rapaz no vidro ergueu a mão e encostou a palma no outro lado. A superfície estalou, formando uma teia fina de rachaduras.

— Qual é o preço de uma vida? — perguntou uma voz atrás dele.

Dazai virou-se. Não havia ninguém na rua. Apenas água acumulada junto ao meio-fio, escura como tinta, tremendo sem que nada a tocasse.

No bolso do casaco, seus dedos encontraram um envelope que não estava ali quando saíra de casa. O papel estava úmido, mas a tinta permanecia nítida. Na frente, seu nome. Dentro, uma única frase: Venha buscar o que você deixou no quarto sem relógio.

Ele deveria ter jogado o envelope no mar. Deveria ter voltado para um lugar iluminado, telefonado para alguém, dito em voz alta que não estava bem. Em vez disso, abriu a porta do instituto.

O corredor do outro lado cheirava a mofo, éter e água estagnada. Havia relógios nas paredes, todos parados às 3h17. Ao fundo, uma porta sem maçaneta aguardava entre duas lâmpadas que piscavam.

Antes de entrar, Dazai ouviu sua própria voz, muito perto de seu ouvido:

— Se não há valor em uma vida, quem pode cobrar a dívida?

Então a porta se abriu sozinha.

Capítulo Um — O Instituto Santa Ágata

O interior do instituto parecia maior do que a fachada permitia. O corredor alongava-se em uma perspectiva impossível, com portas dos dois lados e uma fileira de janelas altas mostrando sempre a mesma coisa: água escura batendo contra um paredão de pedra.

Dazai entrou devagar. A porta fechou-se atrás dele sem ruído. Quando se virou, o vidro já não mostrava a rua, mas um corredor diferente, estreito e coberto de azulejos brancos. No reflexo, o rapaz de quinze anos continuava parado do lado de fora.

— Ainda acha que a morte vai explicar tudo? — perguntou o garoto.

— Você fala demais para alguém que eu inventei há tanto tempo.

— E você fala pouco para alguém que continua vivo.

Dazai afastou os olhos. A resposta doía menos quando vinha de estranhos.

Uma mulher surgiu da curva do corredor carregando uma caixa de documentos. Tinha cerca de trinta anos, cabelos presos de maneira prática e olheiras que não tentava esconder. Usava um crachá sem fotografia: Mirela Aoki — Arquivo e Conservação.

— Você é Dazai? — perguntou ela.

— Depende de quem quer saber.

— Alguém que ainda está tentando impedir que esta casa escolha por nós.

Ela pousou a caixa no chão e observou as bandagens que apareciam sob a manga do casaco. Não perguntou sobre elas. Esse silêncio, em vez de aliviar, deixou Dazai desconfiado.

— O instituto fechou há trinta anos — disse Mirela. — Não deveria existir neste endereço.

— E ainda assim existe.

— Existem coisas que permanecem quando ninguém mais tem coragem de registrá-las.

Mirela abriu a caixa. Dentro havia prontuários amarrados com barbante, todos com as bordas úmidas. Os nomes tinham sido apagados, mas as datas permaneciam. Alguns documentos traziam a mesma hora: 3h17. Outros estavam cobertos por uma frase repetida em tinta marrom: Valor atribuído após o óbito.

— O Santa Ágata funcionava como hospital, abrigo e arquivo de dívidas — explicou ela. — Durante uma epidemia, os responsáveis começaram a registrar quais pacientes mereciam receber remédios, comida, leitos. Diziam que era administração. Depois passaram a calcular quem seria útil, quem tinha família, quem poderia pagar. Os que não tinham nada eram enviados para o subsolo.

— E o que havia no subsolo?

— Um ritual. Ou uma contabilidade. Os relatos divergem.

Mirela retirou um espelho pequeno da caixa. O vidro estava rachado em cinco pontos, e a moldura de metal tinha sido coberta por sal.

— A presença ficou conhecida como a Avaliadora. Ela perguntava qual era o preço de uma vida. Quem respondia que não valia nada desaparecia dos registros. Depois desaparecia do mundo.

— Uma história conveniente para assustar arquivistas.

— Eu também achava isso.

— E agora?

Mirela apontou para a parede atrás dele. Dazai acompanhou o gesto e viu uma fotografia emoldurada. Era uma imagem antiga do instituto, tirada diante da entrada. Havia pacientes, enfermeiros e funcionários alinhados. No canto, quase escondido pelo ombro de um homem, estava Dazai.

Mais jovem, mas não quinze anos. Tinha a mesma idade de agora. Usava o casaco escuro e fitava a câmera com uma expressão vazia.

No verso da fotografia, uma data que ainda não havia acontecido.

— Não toque nisso — disse Mirela.

O vidro da moldura embaçou. Uma palavra apareceu por dentro, desenhada por um dedo invisível: DEVEDOR.

Dazai riu, mas o som não encontrou lugar no corredor.

— O que você quer de mim?

— Eu quero sair. Você é a primeira pessoa que entrou depois que os relógios pararam.

— Então escolheu mal.

— Talvez. Mas a casa escolheu você há muito tempo.

No fim do corredor, uma campainha tocou. Uma vez. Depois outra. As lâmpadas apagaram-se em sequência, avançando na direção deles.

Mirela agarrou a caixa. Dazai percebeu que suas mãos tremiam.

— Não olhe para os espelhos quando ouvir a água — disse ela.

— Por quê?

— Porque a primeira coisa que ela aprende sobre você é o rosto que você oferece aos outros.

As luzes se apagaram.

Na escuridão, alguém começou a bater do outro lado de uma porta sem maçaneta.

Capítulo Dois — O quarto sem relógio

Mirela acendeu uma lanterna pequena. O facho atravessou a escuridão e revelou a porta diante deles. Era de madeira escura, inchada pela umidade, sem maçaneta ou fechadura. As batidas continuavam, pacientes, sempre no mesmo intervalo.

— Há alguém aí? — perguntou Dazai.

Mirela segurou seu braço.

— Não responda.

As batidas cessaram.

Uma voz infantil disse:

— Eu sei quanto você custa.

Dazai reconheceu a voz. Não era a do rapaz no vidro. Era a sua própria voz aos nove anos, antes da Máfia, antes dos becos do porto, antes de aprender que algumas perguntas eram mais perigosas do que armas.

— Abra — pediu a voz. — Você pode descansar aqui.

Dazai sentiu os dedos procurarem automaticamente a faixa em torno do pulso. O tecido estava apertado. Sua respiração ficou curta, não por medo da porta, mas pela familiaridade daquela promessa. Descansar. Sumir. Não precisar convencer ninguém de que continuava presente.

Mirela percebeu.

— Dazai, olhe para mim.

— Não dê ordens.

— Não é uma ordem. É um pedido.

Ele olhou. A lanterna iluminava o rosto dela e, atrás de sua cabeça, o espelho rachado pendurado no corredor. O reflexo de Mirela estava voltado para a porta. O de Dazai, não. Seu reflexo encarava a si mesmo, como se estivesse do outro lado de uma janela.

— Você não é o único aqui — disse Mirela.

— Isso deveria me confortar?

— Não. Deveria impedir que você acreditasse em tudo que ouvir.

Ela colocou a mão na madeira. A porta abriu-se para um quarto pequeno, sem cama, sem janela e sem relógio. As paredes estavam cobertas de fichas médicas. Centenas delas, presas com alfinetes, cada uma contendo apenas um nome e um valor.

Os nomes eram de pessoas vivas. Dazai reconheceu alguns do porto, homens e mulheres que tinham trabalhado para a Máfia, comerciantes, informantes, funcionários que fingiam não saber de nada. Reconheceu também um nome que não deveria estar ali: Mirela Aoki.

Ao lado do nome dela, o valor estava em branco.

— Eu nunca estive aqui — disse Mirela.

— Talvez a casa seja melhor informada do que você.

— Não faça isso.

— Fazer o quê?

— Transformar o medo em piada antes que ele consiga tocar em você.

Dazai ficou em silêncio. Aquela frase tinha sido dita por alguém antes, muitos anos antes, embora ele não conseguisse localizar a lembrança. Uma sala com persianas fechadas. O cheiro de desinfetante. Uma voz adulta dizendo que seu humor era uma forma de covardia. Depois, sangue em uma pia. Não o sangue da memória, apenas a consequência dela: mãos lavadas até a pele arder, sem que ninguém perguntasse o que havia acontecido.

No fundo do quarto havia uma mesa. Sobre ela, um livro aberto. As páginas estavam preenchidas com caligrafia irregular.

Osamu Dazai. Entrada: quinze anos. Motivo declarado: buscar sentido na proximidade da morte. Resultado: nenhum.

Ele sentiu o corpo se afastar de si mesmo, como se observasse a cena de um ponto distante do teto.

Mirela fechou o livro.

— Não leia o restante.

— Por quê?

— Porque a casa não escreve o que aconteceu. Ela escreve o que você teme que tenha acontecido.

Uma gota caiu do teto sobre a página. Depois outra. O chão começou a cobrir-se de água, embora não houvesse canos rompidos. A água subia devagar, escura e fria, carregando pequenos pedaços de papel.

Entre eles, Dazai viu um recibo antigo. No campo destinado ao pagamento, havia apenas uma frase: Uma vida vale aquilo que alguém está disposto a fazer para mantê-la.

O quarto pareceu inclinar-se. Mirela puxou-o para a porta.

— Vamos.

— Ainda não.

— O que você está procurando?

Dazai apontou para o canto. Um relógio sem ponteiros estava preso à parede. Sob ele, uma fotografia de um adolescente com o rosto borrado.

— Acho que é meu.

— Você nunca esteve aqui aos quinze anos.

— Não?

Na fotografia, o rapaz sem rosto segurava uma faixa branca entre os dedos.

Então o relógio começou a funcionar.

Os ponteiros avançaram para 3h17, e a água chegou aos tornozelos.

Capítulo Três — O preço dos nomes

Eles saíram do quarto antes que a água alcançasse os joelhos. O corredor havia mudado. As janelas agora davam para o interior de uma enfermaria, onde camas vazias se alinhavam sob lençóis cinzentos. Em cada cama havia um par de sapatos molhados.

Mirela caminhava depressa, segurando a lanterna junto ao peito.

— Você sabia que isto aconteceria?

— Eu sabia que aconteceria comigo. Não sabia que você viria.

— Não vim por você.

— Não?

— Minha irmã desapareceu aqui.

O corredor pareceu estreitar-se, como se a casa tivesse ouvido.

Mirela parou diante de uma porta azul. O nome Emi Aoki estava escrito no vidro fosco. Abaixo, uma data de vinte e dois anos atrás.

— Ela tinha dezessete anos — disse Mirela. — Veio ao Santa Ágata com a mãe, que estava doente. A mãe saiu. Emi, não. Quando procurei os registros, não havia paciente, funcionário ou visitante com aquele nome. Era como se ela tivesse sido apagada antes mesmo de desaparecer.

— E você continuou procurando.

— Durante anos. Arquivos municipais, hospitais, delegacias. Nada. Então encontrei uma referência ao instituto em uma caixa de documentos que deveria ter sido destruída. Desde então, a casa aparece para pessoas que carregam um nome apagado dentro de si.

— Isso não explica por que eu estou aqui.

— Talvez você tenha muitos nomes apagados.

Dazai pensou nos nomes que usara no porto. Alguns eram falsos. Outros eram emprestados de homens que já não podiam contestá-los. Havia também o nome que a Máfia lhe dera sem jamais pronunciar: ferramenta, prodígio, problema, arma. Nenhum servia para chamá-lo de volta quando ele se afastava de si mesmo.

Na enfermaria, um sino tocou. Um dos lençóis se moveu.

— Não há ninguém naquela cama — disse Mirela.

— Você parece bastante certa.

— Aprendi a reconhecer a forma que um corpo faz quando alguém está deitado sob um lençol. Esse movimento é diferente.

O lençol deslizou para o chão. A cama estava vazia. Sobre o colchão, porém, havia uma depressão recente, como se alguém ainda estivesse deitado ali.

Uma voz masculina saiu do travesseiro:

— Aoki, registre o pagamento.

Mirela empalideceu.

— Essa era a voz do diretor.

— Ele está morto?

— Há trinta anos.

— Então talvez tenha encontrado emprego depois da morte.

Ela virou-se para ele com raiva.

— Você precisa parar.

— Parar o quê?

— Fingir que não se importa com nada. Eu sei que é uma defesa, Dazai. Mas, aqui dentro, tudo que você nega vira matéria para a casa.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Sei que não comeu desde cedo. Sei que troca as bandagens sozinho mesmo quando suas mãos tremem. Sei que olha para a saída sempre que entra em uma sala. Sei que trata a própria sobrevivência como uma falha burocrática.

Ele ficou imóvel.

Mirela respirou fundo.

— Não estou dizendo isso para humilhá-lo. Estou dizendo porque, se você continuar fingindo que não precisa de ninguém, a casa vai usar isso contra você.

O espelho no fim da enfermaria se partiu com um estalo. Em cada fragmento apareceu um Dazai diferente: criança, adolescente, homem ferido, homem sorrindo, homem sem rosto. Todos olhavam para Mirela.

Um deles bateu no vidro pelo lado de dentro.

— Qual é o preço de uma vida? — perguntou a voz.

Mirela apertou os dentes.

— Não responda.

— E se eu já tiver respondido?

No chão, entre os cacos, surgiu uma ficha nova. O nome de Emi Aoki estava no alto. O campo do valor permanecia vazio.

Mirela ajoelhou-se, mas não tocou na ficha.

— Ela ainda está aqui.

No corredor, uma porta se fechou. Depois outra. Depois todas.

Pela primeira vez, Dazai percebeu que a casa não queria apenas assustá-los. Estava esperando uma decisão.

Capítulo Quatro — A planta impossível

Mirela levou Dazai para uma sala que, segundo qualquer planta razoável, não deveria existir entre a enfermaria e a escadaria. As paredes eram revestidas de madeira escura, e mapas ocupavam cada centímetro delas. Plantas do instituto, mapas do porto, diagramas de túneis, desenhos feitos por crianças. Todos mostravam corredores que se dobravam sobre si mesmos.

No centro havia uma mesa coberta por fios vermelhos. Os fios ligavam nomes a portas, portas a datas, datas a pequenas fotografias. Dazai reconheceu a própria imagem em três pontos distintos. Em uma fotografia, ele estava diante do porto aos quinze anos. Em outra, carregava uma caixa de documentos. Na terceira, permanecia diante da casa na noite atual.

— A presença não vive em um cômodo — explicou Mirela. — Ela vive na relação entre as coisas. Uma lembrança e uma culpa. Um nome e uma perda. Uma porta e aquilo que alguém não consegue atravessar.

— Você fala como se fosse um arquiteto.

— Falo como quem passou metade da vida tentando entender um prédio que muda quando é observado.

Ela apontou para um fio vermelho que saía da fotografia de Emi e terminava em uma área sem desenho.

— Minha irmã foi levada para o arquivo inferior. O acesso fica atrás de uma porta sem maçaneta. Mas toda vez que tento chegar lá, encontro outra coisa.

— O que você encontrou?

— Minha mãe me chamando. Meu próprio quarto. A enfermaria onde Emi desapareceu. Uma estação de trem. Uma vez, encontrei uma praia onde todas as pessoas tinham o meu rosto.

Dazai tocou o mapa do porto. O papel ondulou sob seus dedos, como pele respirando.

— E você continua voltando.

— Sim.

— Por quê?

Mirela demorou a responder.

— Porque amar alguém não impede que você se canse. Mas o cansaço não transforma a pessoa amada em uma dívida descartável.

As palavras entraram nele com a precisão de uma lâmina que não cortava, apenas encontrava o lugar certo. Dazai desviou os olhos.

— Você acha que eu considero alguém uma dívida?

— Acho que você considera a si mesmo.

Um ruído de papel se espalhou pela sala. As fotografias começaram a se virar sozinhas, uma após outra. Atrás delas havia frases escritas na parede.

Ele escolheu a violência.

Ele procurou o abismo.

Ele não quis ser salvo.

— Algumas dessas coisas são verdade — disse Dazai.

— Verdade não é o mesmo que sentença.

— Para quem viveu aquilo, às vezes parece.

Mirela pegou uma caneta vermelha e riscou a última frase.

— Então escreva outra.

— Não tenho nenhuma.

— Ainda não.

Um relógio preso acima da mesa marcou 3h16. Todos os demais relógios do instituto haviam parado em 3h17; aquele, porém, contava para trás.

O ponteiro dos segundos recuou. 3h15. 3h14. 3h13.

A porta da sala abriu-se para um corredor que Dazai reconheceu. Era o corredor de um prédio da Máfia do Porto, onde ele entrara pela primeira vez aos quinze anos. O ar trazia cheiro de fumaça e café frio. Ao fundo, uma voz adulta o chamava por um nome que não era seu.

— Você precisa ver isso — disse a voz.

Mirela segurou sua manga.

— Não entre sozinho.

— Eu não estou sozinho.

— Isso não significa que está acompanhado.

Dazai olhou para o corredor. O adolescente dentro dele já havia dado o primeiro passo.

Ele entrou.

Capítulo Cinco — Quinze anos

O corredor da Máfia do Porto parecia menor do que Dazai lembrava. As paredes eram baixas, as lâmpadas brancas demais, e havia uma mancha de umidade formando o desenho de um olho acima da porta principal. Ele sabia que aquela lembrança não era confiável. Sabia também que o corpo não obedecia ao conhecimento.

O rapaz de quinze anos estava sentado no chão, encostado à parede. Vestia roupas grandes demais e segurava um relatório dobrado. Não havia bandagens em seus braços, apenas marcas de sujeira e uma expressão de expectativa irritante.

— Você voltou — disse o garoto.

— Eu nunca saí.

— Isso é pior.

Dazai agachou-se diante dele. Durante anos imaginara que encontraria, naquele passado, alguma origem clara para o vazio. Um acontecimento central, uma frase, uma porta aberta no momento errado. Mas a memória oferecia apenas fragmentos: ordens dadas em voz baixa, adultos que sorriam sem alegria, o peso de uma arma que ele não queria segurar, o silêncio depois de uma missão.

— Por que você entrou? — perguntou Dazai.

— Para descobrir o que uma vida vale quando todos ao redor tratam a morte como rotina.

— E descobriu?

— Descobri que algumas pessoas pagam para não olhar. Outras pagam para que alguém olhe por elas.

— Isso não responde.

— Você nunca gostou de respostas simples.

O garoto abriu o relatório. O papel estava em branco, exceto por uma frase escrita no rodapé: Primeiro teste: determine o valor de uma pessoa sem utilidade operacional.

— Era assim que pensavam de nós — disse o garoto. — Se não servíamos, éramos descartados.

— E você acreditou.

— Você acreditou.

O som de uma porta batendo ecoou pelo corredor. Mirela apareceu no outro extremo, ofegante, como se tivesse atravessado uma distância muito maior do que alguns metros.

— Dazai, saia daí.

— Ele é uma parte de mim.

— Não. Ele é uma versão construída pela casa.

O adolescente sorriu.

— Ela diz isso porque não quer que você ouça a parte importante.

— Qual parte?

— Que você escolheu.

O sorriso do garoto se desfez. Seu rosto ficou mais velho, então mais novo, então sem idade alguma.

— Você escolheu entrar. Escolheu ficar. Escolheu transformar o sofrimento em uma prova de que ainda sentia alguma coisa. Não finja que foi apenas uma vítima.

Dazai sentiu a raiva vir antes da tristeza. Era mais fácil lidar com ela. A raiva tinha bordas.

— Eu era uma criança.

— E ainda assim fez escolhas.

— Crianças fazem escolhas sob ameaça.

— Então por que continua punindo a criança?

A pergunta atravessou o corredor. O chão ficou coberto por água escura até a altura dos sapatos. Nas paredes, relógios surgiram um por um, todos marcando 3h17.

Mirela estendeu a mão.

— Venha.

Dazai olhou para o garoto. O rosto dele agora parecia o de alguém que esperava uma sentença.

— Você não tem culpa por ter sobrevivido — disse Dazai.

O adolescente franziu a testa.

— Isso é tudo?

— Não sei.

— Então é uma mentira.

— É o começo de algo que eu ainda não sei dizer.

Pela primeira vez, o garoto pareceu assustado. A água subiu até seus joelhos. O corredor atrás dele se abriu em dezenas de portas sem maçaneta.

— Se você for embora, eu fico aqui.

— Eu sei.

— Você vai me abandonar outra vez?

Dazai quase respondeu que sim. A resposta antiga, automática, já estava pronta. Mas Mirela continuava com a mão estendida, e o presente tinha um peso diferente do passado.

Ele segurou a mão dela.

O garoto começou a gritar, embora o som saísse de todos os relógios ao mesmo tempo.

Quando Dazai piscou, estava de volta à sala dos mapas. Mirela tinha uma marca vermelha no pulso, como se alguém a tivesse apertado do outro lado da pele.

— Você me trouxe de volta — disse ele.

— Não. Você voltou. Eu só fiquei onde podia ser visto.

No mapa, um novo corredor apareceu, descendo em direção ao subsolo.

Capítulo Seis — O homem no posto de segurança

A escada para o subsolo era feita de concreto e parecia úmida por dentro. Em cada degrau havia uma marca de giz: um círculo atravessado por uma linha. Dazai contou trinta e dois degraus antes de perceber que já havia contado trinta e dois duas vezes.

No patamar seguinte, uma cabine de segurança permanecia iluminada. Dentro dela, um homem idoso dormia diante de monitores desligados. Usava um uniforme azul-marinho e segurava uma caneca vazia entre as mãos.

Mirela bateu no vidro.

O homem abriu os olhos.

— Não deveriam estar aqui — disse ele.

— Elias Varga? — perguntou Mirela.

— Esse nome ainda consta no registro?

— Consta como desaparecido.

— Então não sou eu.

Ele abriu a porta da cabine. O ar do subsolo cheirava a ferrugem e sal.

— Sou Elias. Fui vigia do instituto durante onze anos. Depois que fecharam, continuei vindo todas as noites. Alguém precisava manter os relógios parados.

— Por quê? — perguntou Dazai.

— Porque, quando um deles avança, alguém esquece o próprio nome.

Elias observou as bandagens de Dazai, mas seu olhar carregava menos curiosidade do que reconhecimento.

— Você veio pagar?

— Não tenho interesse em comprar nada.

— Ninguém compra. A casa só oferece a sensação de que você está escolhendo.

Ele lhes mostrou os monitores. As telas, antes negras, acenderam-se com imagens do instituto. Um corredor vazio. Uma sala com espelhos. Um tanque de água subterrâneo. Em seguida, uma imagem de Dazai sentado sozinho em um quarto que ele não reconhecia.

— Isso foi há quanto tempo? — perguntou Mirela.

— Ainda não aconteceu.

Na tela, Dazai levantou a cabeça e falou com alguém fora do enquadramento. Não havia som, mas seus lábios formaram a pergunta conhecida.

Qual é o preço de uma vida?

Elias desligou o monitor.

— A presença aprendeu a usar a linguagem da culpa. Ela não obriga ninguém a morrer. Seria mais simples se obrigasse. Ela oferece explicações. Diz que algumas pessoas são pesos, que algumas ausências aliviam os outros, que certos sofrimentos tornam o mundo mais limpo.

— Isso parece familiar — disse Dazai.

— É por isso que funciona.

Mirela abriu a porta de uma sala de armários. Dentro, centenas de objetos estavam etiquetados: alianças, cartas, fotografias, chaves, brinquedos, crachás. Cada objeto trazia um nome e uma data.

— O que são? — perguntou Dazai.

— O que resta quando o nome é retirado de uma pessoa.

Ele viu um botão de metal que reconheceu do antigo casaco usado aos quinze anos. Viu também uma faixa branca dobrada, endurecida pelo tempo. Não tocou nela.

— A casa guardou tudo isso?

— A casa guarda o que as pessoas entregam quando acreditam que não merecem levar consigo.

Elias tirou da parede um molho de chaves. Uma delas não possuía dentes, apenas um aro vazio.

— A porta do arquivo inferior não tem maçaneta porque espera uma coisa diferente de uma chave.

— O quê?

— Um nome dito sem desprezo.

Dazai riu baixo.

— Isso é ridículo.

— Muitas coisas verdadeiras parecem ridículas quando ainda não estamos prontos para pagar o preço de levá-las a sério.

De repente, as luzes da cabine se apagaram. Nos monitores, uma nova imagem surgiu: uma jovem de cabelos curtos parada diante de uma porta azul. Emi Aoki.

Ela olhou para a câmera.

— Mirela — disse a imagem.

Mirela aproximou-se da tela.

— Emi?

— Não deixe que ele responda por você.

— Quem?

Emi virou o rosto. Atrás dela havia um espelho rachado. No reflexo, uma forma alta, sem olhos, inclinava-se sobre seu ombro.

— O homem que acha que não tem preço.

A tela explodiu em estática. No corredor, uma porta bateu.

Elias entregou a chave sem dentes a Dazai.

— Agora ela sabe que vocês estão juntos.

Capítulo Sete — A contabilidade das ausências

O arquivo inferior ocupava uma câmara circular. Estantes de ferro subiam até um teto que desaparecia na escuridão. Pastas, caixas e livros cobriam as prateleiras. Não havia poeira. As etiquetas eram recentes, escritas com uma tinta que ainda brilhava.

No centro da sala, um relógio enorme pendia do teto. Não tinha ponteiros, apenas uma abertura escura onde deveria estar o mostrador.

Elias permaneceu junto à escada.

— Não atravesso a linha branca — disse ele.

— Você não pode ou não quer? — perguntou Dazai.

— Nesta casa, a diferença costuma ser uma questão de tempo.

Mirela passou pela linha. As lâmpadas acenderam-se em um círculo, revelando pilhas de fichas no chão. Cada ficha trazia uma frase no verso. Dazai pegou a primeira.

Ele teria sido mais feliz se nunca tivesse nascido.

Mirela tomou a ficha de sua mão e a rasgou.

— Não leia.

— Você continua dizendo isso.

— Porque você continua procurando a pior frase e chamando isso de honestidade.

No fundo do arquivo havia um balcão de madeira. Atrás dele, uma figura estava sentada, coberta por um casaco escuro. O rosto permanecia voltado para baixo. Diante dela havia um livro aberto e uma balança antiga.

— A Avaliadora — sussurrou Mirela.

— Ou alguém fantasiado para impressionar visitantes.

— Então pergunte quem é.

Dazai aproximou-se. A figura virou uma página.

— Osamu Dazai — disse a voz. — Entrada registrada. Dívida acumulada. Valor pendente.

— Você tem acesso a um arquivo impressionante para alguém que não existe.

— Existir é uma modalidade de registro.

— E qual é a minha dívida?

— Você recebeu mais tempo do que julgava merecer.

— Isso não é dívida.

— Para alguns, é a mais pesada.

O livro virou outra página. Dazai viu cenas de sua vida, não como lembranças, mas como transações. Um menino sozinho recebendo um prato de comida. Um adolescente entrando em um prédio da Máfia do Porto. Um homem deixando alguém esperando por uma resposta. Uma enfermeira trocando suas bandagens em silêncio depois de uma missão. Um quarto onde ele não atendia ao telefone. Cada momento aparecia acompanhado por um valor.

— Você transforma tudo em contabilidade — disse ele.

— Você fez isso primeiro.

— Eu não pedi para nascer em um mundo assim.

— Mas pediu que o mundo justificasse sua permanência.

Dazai sentiu a velha vontade de rir, mas sua garganta fechou-se. A figura levantou o rosto. Não havia feições. Apenas uma superfície lisa, refletindo todos os rostos que ele tentava evitar.

Mirela caminhou até o balcão.

— Quero o registro de Emi Aoki.

— Seu valor foi retirado.

— Por quem?

— Por aqueles que concluíram que ela era um custo.

— Devolva o nome dela.

— Toda devolução exige pagamento.

— Quanto?

— Uma vida.

O silêncio na câmara pareceu ganhar peso.

— A minha — disse Mirela.

— Não — respondeu Dazai.

Ela virou-se para ele.

— Você não decide isso.

— Não vou assistir a outra pessoa transformar a própria morte em solução.

— E o que você pretende fazer? Ser heroico?

— Não.

— Então o quê?

Dazai olhou para a balança. Em um prato estava a ficha de Emi. No outro, uma faixa branca de seus próprios curativos.

— Descobrir se ela aceita algo que não seja uma vida.

A figura sem rosto inclinou a cabeça.

— Sempre há uma alternativa para quem sabe suportar o medo de parecer egoísta.

— Qual?

— Diga o preço de permanecer.

As estantes começaram a se mover, fechando o círculo ao redor deles. Entre duas prateleiras, uma porta sem maçaneta apareceu.

Dazai colocou a mão sobre a madeira.

— Eu não sei o preço.

— Então ofereça o que você tem.

Ele pensou em seu nome. Em sua raiva. Em sua capacidade de suportar dor. Em todas as coisas que confundira com valor porque eram as únicas que a Máfia reconhecia.

— Ofereço a mentira de que não preciso de ninguém — disse ele.

A porta abriu-se.

Capítulo Oito — O rosto que fica

Do outro lado da porta havia uma sala circular cercada por espelhos. Alguns eram altos, outros pequenos, alguns estavam inclinados no chão. Nenhum refletia exatamente o lugar onde se encontrava. Em um deles, Dazai via um quarto iluminado pelo sol. Em outro, um leito de hospital. Em outro, uma rua vazia coberta de neve que não existia naquela cidade.

Mirela entrou atrás dele. A porta fechou-se.

— Dazai — chamou uma voz no espelho à esquerda.

Ele viu uma mulher de cabelos grisalhos sentada à mesa. Não a conhecia, mas havia no rosto dela uma expressão de cansaço íntimo, como se tivesse chorado por ele muitas vezes.

— Quem é?

— A pessoa que você teria se deixasse alguém cuidar de você.

No espelho seguinte, apareceu uma sala da Máfia do Porto. O garoto de quinze anos estava em pé diante de um homem sem rosto. O homem lhe oferecia um lugar à mesa.

— Você poderia ter recusado — disse o reflexo.

— Eu poderia ter sido morto.

— Talvez.

— Então não foi uma escolha livre.

— Nenhuma escolha é completamente livre.

No terceiro espelho, Dazai viu a si mesmo sentado em um quarto sem janelas. As bandagens estavam soltas sobre o chão. Sua pele parecia intacta, mas o rosto era transparente, como vidro embaçado.

— A versão mais confortável — disse a casa. — Sem feridas visíveis, sem perguntas, sem testemunhas.

Mirela segurou seu ombro.

— Não olhe.

— Preciso olhar.

— Não sozinho.

Ela ficou diante dele, refletida em todos os espelhos. Em alguns, era criança. Em outros, idosa. Em um deles, estava morta. Mesmo assim, mantinha a mão sobre o ombro de Dazai.

— Minha irmã está em algum desses? — perguntou.

Um espelho no fundo da sala mostrou Emi. Ela estava detrás de uma parede de água, batendo com os dedos no vidro. Ao seu lado, centenas de nomes flutuavam como folhas submersas.

— Emi! — gritou Mirela.

Emi abriu a boca, mas nenhuma voz saiu.

O espelho começou a rachar.

— Não toque — disse Dazai.

— Ela está ali.

— Talvez seja isso que a casa quer que você veja.

— E se for realmente ela?

— Então precisamos encontrar uma forma de chegar até ela sem entregar outra pessoa.

O reflexo de Emi bateu mais forte. Uma rachadura atravessou seu rosto.

— Mirela, escute — disse Dazai. — Se você morrer aqui, a casa não perde. Ela ganha uma história sobre sacrifício e usa essa história para chamar o próximo.

Mirela virou-se para ele.

— Você fala como se conhecesse o mecanismo.

— Conheço a tentação de transformar o fim em uma resposta limpa.

Ela ficou quieta.

— Você tentou?

Dazai não respondeu imediatamente. O horror da sala não estava em obrigá-lo a contar detalhes, mas em tornar o silêncio uma forma de confissão.

— Houve momentos em que eu quis desaparecer — disse ele. — Não quero que isso vire uma lenda sobre mim. Não foi belo. Não foi coragem. Foi uma dor estreitando o mundo até parecer que não havia saída. E, quando alguém sobrevive, a dor não se transforma em sentido por conta própria.

Mirela assentiu, devagar.

— Obrigada por dizer sem se transformar em personagem.

Os espelhos estremeceram. Pela primeira vez, a casa pareceu contrariada.

Emi conseguiu falar. Sua voz atravessou a água:

— O nome não está no espelho. Está embaixo.

O chão da sala abriu-se em uma lâmina de água escura.

Mirela deu um passo, mas Dazai a segurou.

— Não sabemos a profundidade.

— Sabemos que ela está esperando.

— Isso nunca foi prova de que devíamos ir.

— Não. Mas é prova de que ainda há alguém para encontrar.

Ele enrolou uma das bandagens soltas em torno do pulso de Mirela, não para prendê-la, mas para mantê-la ao alcance.

— Se eu puxar, você volta.

— E se eu puxar você?

— Você me lembra do meu nome.

Eles entraram na água.

Capítulo Nove — Água escura

A água não era fria. Era morna como uma febre, e tinha gosto de ferrugem. Dazai afundou até a cintura, depois até o peito, enquanto os espelhos desapareciam acima deles. Mirela mantinha a faixa presa entre os dois. A cada passo, o fundo mudava de inclinação.

Sob a superfície, o instituto continuava. Havia corredores inteiros, macas cobertas, portas numeradas. Relógios pendiam de tetos invisíveis, todos parados em momentos diferentes. Em um, os ponteiros marcavam o nascimento de alguém. Em outro, uma hora de despedida.

Emi caminhava à frente, embora seus pés não tocassem o chão. O rosto dela aparecia e desaparecia entre as sombras.

— Não sigam as vozes — disse ela.

— Qual delas é sua? — perguntou Mirela.

— A que não promete descanso.

Logo as vozes começaram.

Algumas vinham de baixo. Outras, de dentro do peito de Dazai. Havia a voz de um superior dando instruções, a de um desconhecido agradecendo por algo que ele não lembrava de ter feito, a de uma criança perguntando se a dor terminaria. Todas falavam ao mesmo tempo, todas usavam palavras que ele reconhecia.

— Você não precisa voltar — disse uma delas. — Ninguém espera nada de você.

Dazai parou.

— Não escute — disse Mirela.

— Não parece mentira.

— Às vezes o terror usa verdades pequenas para conduzir a uma conclusão falsa.

Ele sentiu uma pressão no peito. A água chegou ao pescoço. O impulso de deixar o corpo afundar veio sem violência, quase como um pensamento administrativo: bastava não lutar, bastava parar de exigir que o mundo encontrasse uma razão para mantê-lo.

Mirela puxou a faixa.

— Meu nome — disse ela.

— Mirela Aoki.

— Mais uma vez.

— Mirela Aoki.

— O que você quer?

— Encontrar minha irmã. Sair com você. Continuar procurando ajuda quando sair.

— Isso não é uma promessa pequena.

— Não é uma promessa. É um plano.

Dazai respirou. A água recuou até a altura do peito.

— Meu nome é Osamu Dazai — disse ele. — Eu estou aqui. Eu tenho medo. Eu não sei o que fazer, mas estou aqui.

As vozes silenciaram por um segundo.

Emi apontou para uma porta de metal no fim do corredor. Havia uma placa: Registro de Transferências — Ala Inferior.

No lugar da maçaneta, havia uma abertura em forma de boca.

— Diga o nome dela — pediu Emi.

Mirela aproximou-se.

— Emi Aoki.

A boca repetiu:

— Emi Aoki. Valor insuficiente.

— Emi Aoki — repetiu Mirela. — Filha, irmã, pessoa. Não um custo.

A porta estremeceu.

— Emi Aoki. Medo, raiva, cuidado, escolhas. Não uma dívida.

Uma fissura abriu-se no metal.

Dazai aproximou-se e colocou a mão sobre a placa.

— Emi Aoki. Alguém que foi apagada sem deixar de existir.

A porta abriu-se.

Do outro lado havia uma sala seca. No centro, Emi estava sentada diante de uma mesa coberta por fichas. Ela parecia mais velha do que na imagem, mas seus olhos eram vivos.

Mirela correu até ela. As duas se abraçaram, e por um instante a sala perdeu seus contornos.

— Você veio — disse Emi.

— Eu nunca parei.

— Pareceu.

— Eu sei.

Dazai ficou junto à porta. No chão, uma sombra se alongou atrás dele. Não tinha corpo definido, mas possuía a forma de uma pessoa inclinada sobre um livro.

— Você não pode levar as duas — disse a voz.

— Não estou levando ninguém.

— Toda saída exige uma permanência.

— Então fico eu.

Mirela virou-se.

— Não.

— Não é heroísmo.

— Eu sei. É a sua maneira mais antiga de transformar dor em utilidade.

Dazai sentiu vergonha, depois raiva, depois algo pior: alívio diante da possibilidade de ter encontrado uma função.

Emi levantou-se.

— A casa não quer sua morte. Quer sua concordância.

— Com o quê?

— Com a ideia de que não existe diferença entre ser ferido e ser inútil.

A sombra abriu o livro.

Na primeira página, uma pergunta aguardava.

Quanto você está disposto a sofrer para provar que merece continuar?

Dazai fechou o livro com as duas mãos.

— Nada.

O hospital submerso começou a desabar.

Capítulo Dez — A noite que não terminou

As paredes se abriram como papel molhado. Corredores, macas e portas foram arrastados pela água, mas nenhum fogo apareceu. Ainda assim, o ar se encheu de fumaça e o cheiro de tecido queimado.

Emi guiou Mirela para a escada. Dazai ficou atrás, fechando portas que se abriam sozinhas. Em cada sala, uma versão de seu passado o chamava. Uma missão mal lembrada. Um rosto que ele não salvara. Uma ordem que executara com eficiência demais.

— Dazai! — gritou Mirela.

Ele não respondeu.

Em uma sala lateral, viu o homem que fora aos quinze anos sentado diante de uma mesa. Havia uma arma sobre a madeira, mas o objeto estava coberto por um pano. O adolescente tremia, não de medo, mas de esforço para não demonstrar medo.

— Você pode sair agora — disse Dazai.

— Para onde?

— Não sei.

— Então você continua sem respostas.

— Sim.

— Você odiava não saber.

— Ainda odeio.

— O que mudou?

Dazai olhou para a porta aberta. Mirela esperava no corredor. Emi segurava a mão da irmã. Elias estava na escada, gritando que o tempo estava acabando.

— Agora sei que não saber não me obriga a escolher a pior coisa.

O adolescente abaixou os olhos.

— Você vai me deixar aqui?

— Não. Vou parar de usar você como prova contra mim.

O quarto escureceu. Pela primeira vez, o garoto não pareceu abandonado. Pareceu apenas jovem, assustado e cansado.

— Eu não sei como ir com você — disse ele.

— Então fique perto. Um passo de cada vez.

O garoto levantou-se. Quando atravessou a porta, virou-se para trás. A figura sem rosto estava no fundo da sala, segurando o pano que cobria a arma.

— Qual é o preço de uma vida? — perguntou a Avaliadora.

O adolescente respondeu antes de Dazai:

— O preço não é uma coisa que se paga sozinho.

A sala desmoronou.

Dazai voltou à escada com o garoto ao seu lado, mas Mirela e Emi não pareceram vê-lo. Apenas Dazai carregava a presença daquela versão mais jovem, como se carregasse uma criança pela mão dentro do próprio peito.

— Você está bem? — perguntou Mirela.

— Não.

Ela assentiu.

— Ótimo. É uma resposta honesta. Continue andando.

Subiram. A água escura corria pelos degraus, e todos os relógios do instituto começaram a tocar ao mesmo tempo. O som não era de sinos, mas de telefones chamando em quartos distantes.

Dazai ouviu um deles no bolso. Retirou o aparelho. A tela mostrava um número desconhecido.

— Não atenda — disse Mirela.

— Pode ser importante.

— É justamente por isso.

O telefone parou. Em seguida, uma mensagem apareceu na tela: Se sair, ninguém saberá o que você fez aqui.

Dazai apagou a mensagem.

— Talvez ninguém precise saber.

— Talvez você precise contar a alguém.

— Você está sugerindo que eu fale sobre isto?

— Estou sugerindo que não transforme o silêncio em mais uma casa.

No último patamar, Elias esperava junto à porta de entrada. Seu rosto parecia mais velho do que antes.

— O instituto vai fechar — disse ele.

— E você? — perguntou Mirela.

— Ainda não sei.

— Venha conosco.

Elias olhou para trás, para o subsolo.

— Alguém precisa ficar até que os relógios terminem de tocar.

— Isso é outra forma de dizer que você não pretende sair — disse Dazai.

— Talvez.

— Então não diga que é necessário. Diga que está com medo.

O velho ficou em silêncio. Depois entregou sua chave sem dentes a Mirela.

— Estou com medo.

A porta principal abriu-se para a rua. O céu clareava, mas a água do porto continuava negra.

Dazai deu um passo para fora. Atrás dele, a voz perguntou uma última vez:

— Qual é o preço de uma vida?

Ele não respondeu. Continuou andando.

Capítulo Onze — O lado de fora

A rua estava exatamente como deveria estar e, por isso, parecia mais assustadora do que o instituto. Havia caminhões no porto, trabalhadores iniciando o turno, vendedores abrindo portas de metal. Ninguém olhava para a construção estreita entre os prédios. Onde antes existira o Instituto Santa Ágata, havia apenas um muro coberto de cartazes antigos.

Mirela levou Emi até a calçada. As duas não se soltaram.

Elias saiu por último. Ao atravessar o limiar, parou e olhou para as próprias mãos. A chave sem dentes havia desaparecido.

— O que acontece agora? — perguntou Emi.

— Agora encontramos um lugar seguro — respondeu Mirela.

— E depois?

— Depois procuramos ajuda médica. Depois fazemos perguntas. Depois descansamos. Não precisamos decidir a vida inteira antes do café da manhã.

Dazai sentou-se no meio-fio. O corpo inteiro doía, e as bandagens estavam encharcadas. Ele sentia vergonha de ser visto daquele modo, mas também não tinha energia para reconstruir a máscara.

Mirela ajoelhou-se diante dele.

— Preciso trocar isso.

— Posso fazer sozinho.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

— Porque saber fazer sozinho não significa que você precise fazer sozinho todas as vezes.

Ele observou o movimento dos trabalhadores no porto. O mundo continuava indiferente, mas a indiferença do mundo era diferente da indiferença da casa. A primeira não exigia uma interpretação. Apenas existia.

— Não quero que você me trate como um projeto — disse ele.

— Não trato.

— Como uma responsabilidade, então.

— Também não.

— Como o quê?

Mirela pensou.

— Como alguém que pode dizer não. Como alguém que pode pedir. Como alguém que vai continuar me irritando se eu estiver errada.

Dazai quase sorriu.

— Parece um valor baixo.

— É um começo possível.

Emi aproximou-se. Havia uma linha fina de água escura em seu cabelo, embora o dia estivesse seco.

— A casa ainda está olhando — disse ela.

Dazai virou-se para o muro. Entre dois cartazes, um pedaço de vidro refletia a rua. Por um instante, viu a fachada do instituto. As janelas estavam abertas. Havia uma pessoa em cada uma delas.

Elias também viu.

— Não olhe por muito tempo.

— Você disse isso antes — respondeu Dazai.

— Algumas advertências ficam verdadeiras mesmo quando repetidas.

Mirela chamou um táxi. Enquanto esperavam, Dazai percebeu que seu telefone tinha várias chamadas perdidas. Uma era de um serviço de atendimento que ele procurara semanas antes e nunca retornara. Outra era de um número que não reconhecia. A terceira não mostrava número algum.

Ele apagou a última. Depois abriu a primeira.

— O que está fazendo? — perguntou Mirela.

— Tentando marcar uma consulta.

Ela não comemorou. Não disse que estava orgulhosa. Apenas assentiu e permaneceu ao lado dele enquanto o telefone chamava.

Uma voz profissional atendeu. Dazai sentiu a garganta fechar-se.

— Eu preciso de ajuda — disse ele.

As palavras pareceram pequenas demais para tudo que carregavam. Ainda assim, atravessaram a linha.

No vidro do cartaz, o reflexo de quinze anos observava. Dessa vez, o garoto não sorria. Apenas esperava.

O táxi chegou. Antes de entrar, Dazai tocou o bolso do casaco. Havia algo ali: uma ficha úmida, retirada do arquivo sem que percebesse.

No verso, escrito em tinta fresca:

Valor provisório: em avaliação.

Ele dobrou a ficha e guardou-a. Não como lembrança, mas como prova de que o instituto não tinha conseguido concluir a conta.

Capítulo Doze — O valor provisório

O hospital comum ficava do outro lado da cidade, sob luzes fortes e placas que não mudavam de lugar. Dazai não gostou dele imediatamente. Havia pessoas demais, ruídos demais, perguntas feitas por profissionais que não conheciam sua história e não fingiam conhecer.

Um enfermeiro examinou suas bandagens e chamou uma médica. Ela explicou cada procedimento antes de fazê-lo. Perguntou se ele estava seguro naquela noite. Dazai quase respondeu com uma piada, mas Mirela estava sentada na sala de espera, e ele se lembrou do que dissera no instituto: não transformar o silêncio em mais uma casa.

— Não sei — respondeu.

A médica assentiu, sem pânico e sem desprezo.

— Obrigada por dizer com sinceridade. Vamos pensar no próximo passo juntos.

Não foi uma cura. Nada dentro dele se iluminou. O vazio não recuou por respeito à ajuda. Continuava ali, pesado e familiar, mas agora havia uma cadeira ao lado dele, uma porta aberta e alguém fazendo perguntas que não soavam como julgamento.

Mirela e Emi ficaram em um pequeno apartamento emprestado por uma amiga que não apareceu na narrativa porque, naquele momento, não era necessário que todos os vínculos tivessem rosto. Elias recusou o hospital. Disse que precisava voltar ao porto para verificar uma coisa.

Na manhã seguinte, ele desapareceu.

Deixou apenas um envelope para Mirela. Dentro havia a chave sem dentes e uma folha arrancada de um livro de registros.

Os relógios não param o tempo. Apenas ensinam as pessoas a viver como se ele tivesse parado.

No canto inferior, uma nova anotação, escrita com a letra de Elias:

Se eu não voltar, não confundam minha escolha com um sacrifício necessário.

Mirela leu a frase duas vezes. Depois chorou em silêncio, não como quem encontrava uma resposta, mas como quem aceitava que algumas pessoas partem sem entregar uma conclusão.

Dazai estava sentado junto à janela, com uma caneca intocada entre as mãos.

— Você acha que ele morreu? — perguntou.

— Não sei.

— A casa o levou?

— Não sei.

— Você odeia dizer isso.

— Odeio. Mas não vou preencher o desconhecido com uma certeza só para conseguir dormir.

Naquela noite, Dazai teve um sonho com o instituto. Caminhava por um corredor claro, sem portas. Os relógios não marcavam 3h17. Cada um mostrava um horário diferente. Em uma parede, havia um espelho intacto.

O garoto de quinze anos estava diante dele.

— Você não me levou com você — disse o garoto.

— Não sei onde você está.

— Está começando a saber.

— O que isso quer dizer?

— Que eu não preciso desaparecer para que você continue.

Dazai olhou para o espelho. Atrás do garoto, uma sombra se aproximava.

— Ela ainda está aqui.

— Talvez.

— Isso não é uma resposta.

— É a resposta que temos.

A sombra levantou a mão e escreveu no vidro:

Qual é o preço de uma vida?

Dazai tocou o espelho.

— O preço é que ela não pode ser reduzida a um preço.

O vidro rachou, mas não se partiu. Do outro lado, o garoto segurou sua mão.

Dazai acordou com o coração acelerado. A janela estava fechada. Sobre a mesa, havia um relógio que não pertencia ao apartamento.

Marcava 3h17.

Ele ficou olhando por vários minutos. Depois levantou-se, abriu uma gaveta e encontrou o número do serviço de atendimento anotado em um papel. Ligou antes que o medo pudesse inventar uma desculpa.

Quando terminou a chamada, a manhã começava a clarear.

Mirela apareceu na porta.

— Você dormiu?

— Um pouco.

— E agora?

— Agora vou tentar outra vez.

Não era uma promessa grandiosa. Era menor, mais difícil e mais verdadeira.

Epílogo — Depois das três e dezessete

Três meses depois, o muro do antigo instituto foi demolido. Sob os tijolos, encontraram uma escada que descia apenas quatro degraus antes de terminar em concreto maciço. Nenhum arquivo foi recuperado. Nenhum relógio apareceu. A prefeitura registrou o local como uma construção abandonada sem valor histórico.

Mirela discordava do último ponto, mas aprendeu que nem toda batalha precisava ser vencida no mesmo dia. Ela abriu uma pequena sala de conservação em outro bairro e passou a trabalhar com registros de pessoas desaparecidas, usando o nome completo sempre que possível. Emi ajudava nas tardes, ainda assustada com portas sem maçaneta e com qualquer reflexo que se movesse tarde demais.

Elias não voltou. Às vezes, Mirela recebia uma ligação muda no telefone do escritório. Às vezes, encontrava uma chave sem dentes sobre a mesa. Nunca soube se era um aviso, uma despedida ou apenas uma tentativa de comunicação que não conseguia atravessar completamente.

Dazai começou a frequentar as consultas. Havia semanas boas e semanas em que sair da cama parecia uma tarefa absurda. Aprendeu a contar a verdade em pequenas porções. Aprendeu que pedir ajuda antes do limite não o tornava fraco, embora a vergonha continuasse aparecendo como um animal treinado.

As bandagens diminuíram. Algumas permaneceram por cuidado médico; outras foram retiradas quando o corpo não precisava mais delas. Dazai não deixou de usar mangas compridas. Não estava pronto para transformar cada marca em uma narrativa pública. Mas já não via os curativos como prova de que era irrecuperável. Eram apenas parte do tratamento de um corpo que havia passado por coisas difíceis.

Em uma tarde de chuva, ele visitou Mirela. A sala de conservação estava vazia, exceto por uma caixa deixada junto à porta. Não havia remetente.

Dentro havia um relógio parado em 3h17, um espelho rachado e uma ficha de arquivo. O nome escrito nela era Osamu Dazai.

O campo do valor estava preenchido.

Indeterminado.

No verso, uma frase:

O que não pode ser calculado não deixa de existir.

Mirela leu por cima do ombro dele.

— Quer que eu jogue fora?

Dazai segurou o relógio. O ponteiro dos segundos se moveu uma vez.

— Não.

— Quer guardar?

— Também não sei.

— Você está ficando muito consistente.

Ele sorriu, pequeno e cansado.

— Estou praticando.

Naquela noite, ao voltar para casa, Dazai passou por uma vitrine escura. Seu reflexo apareceu no vidro. Por um instante, o rapaz de quinze anos ficou ao seu lado. Depois, atrás dele, surgiu a silhueta alta da Avaliadora.

Os ponteiros do relógio da vitrine marcaram 3h17.

— Qual é o preço de uma vida? — perguntou a voz.

Dazai parou. O medo veio. A vontade de correr veio. A velha apatia também, oferecendo o conforto de não decidir nada.

Ele colocou a mão no telefone dentro do bolso. Tinha números de pessoas que talvez atendessem, e o número de um serviço que ele já conhecia. Não era garantia. Não era salvação. Era uma ponte estreita sobre uma água escura.

— Não sei — respondeu.

A sombra inclinou-se para ele.

— Então você ainda deve.

— Talvez.

— E vai pagar?

Dazai olhou para o próprio reflexo. O garoto de quinze anos não estava mais ali. Restava apenas seu rosto atual, imperfeito, cansado, vivo.

— Vou descobrir como continuar sem transformar tudo em pagamento.

O relógio da vitrine parou. A silhueta desapareceu. No vidro, porém, uma rachadura nova abriu-se do alto até a base, dividindo seu reflexo em dois.

Dazai não tocou no vidro. Não tentou consertá-lo. Apenas ligou para Mirela e ficou na calçada enquanto chamava.

Do outro lado da cidade, em um corredor que não constava em planta alguma, uma porta sem maçaneta se abriu alguns centímetros. A água escura além dela respirou. Um relógio distante começou a funcionar.

Às 3h18, a voz perguntou novamente qual era o valor de uma vida.

Desta vez, ninguém respondeu sozinho.

Escrito por autor ジョン・ビクター・ゴンサルベス

Thoughts

  • GasparRibeiro

    Aqui em Versos e contos, RECORDAR- Cap. 1: Antes, de Viverse, também gira em torno de um arquivo de papéis e de um passado que insiste em voltar, com uma fotografia que ninguém explica.

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  • HoracioMelo

    Aquela chave sem dentes.

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  • LuizaFontes

    O Elias ficou comigo mais que todo mundo. Um homem que passou anos segurando os relógios parados pra ninguém perder o nome, e quando o Dazai pede pra ele admitir o medo, ele admite e mesmo assim volta pro porto. Eu queria muito que ele tivesse entrado naquele táxi. Você tem mais histórias sobre o Elias?

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  • GasparRibeiro

    Os relógios todos parados às 3h17, e só o da sala dos mapas a andar para trás. As 3h18 só aparecem na última linha. Parece-me que esse minuto é a resposta que a Avaliadora nunca recebeu.

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