Sentimentos que guardo em jarras.
De vidro, nunca as plásticas.
De vidro porque são delicadas.
Ficam turvas como a água e, se colocadas nas mãos erradas, cairão no chão, criarão cacos e deixarão poças pela casa.
Manchada.
Não importava o quanto eu limpasse.
Sempre manchada.
Como um passe de mágica, se você pudesse me garantir que tudo aquilo foi uma farsa, se me fizesse acreditar que foi apenas uma invenção, eu seria grata.
Me encolho.
Me nego.
Te encaro.
Um ser tão fraco, passivo.
Apenas um jarro.
Espere.
Quem iria imaginar?
Um reflexo meu a me encarar.
Insegura de falar em voz alta.
Fingindo não sentir o corpo sussurrando lamúrias.
Ignorando pacientemente a denúncia.
Porque não quero acreditar na jarra imunda que guardo no armário.
Quero que, como em um passe de mágica, ela suma.
Mas não vai.
Não, não vai...
E ela não está mais suja.
Mesmo assim, sua água segue turva
e as rachaduras parecem fazer uma curva.
Um toque, e a história muda.
Um passo...
E alguém me escuta?
(Autoral de Sids)