engraçado que pra fugir do teísmo o cara inventa uns deuses superdimensionais que codaram o universo, mas em vez de ir na missa ele assina a newsletter do Lex Fridman 🫡 o texto tá certo que simulação é teísmo com passo a mais, mas vamos ser justos, a apologética que diz isso pra parecer esperta também é teísmo querendo ganhar no walkover. as duas turmas só querem não morrer, uma reza, a outra faz backup.
O Vale do Silício trata a morte como se fosse só um bug de software esperando patch?
Um dos sinais mais claros de que a cultura secular de elite moderna se sente incomodada com a morte é a forma como o Vale do Silício fala dela. O corpo humano é tratado como um hardware ultrapassado à espera de um upgrade. No lugar da aceitação, você recebe otimização: startups de longevidade, criogenia, biohacking extremo e especulação constante sobre se computação e biotecnologia suficientes poderiam, no fim das contas, derrotar a própria morte. Bilionários da tecnologia falam com orgulho sobr
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engraçado que pra fugir do teísmo o cara inventa uns deuses superdimensionais que codaram o universo, mas em vez de ir na missa ele assina a newsletter do Lex Fridman 🫡 o texto tá certo que simulação é teísmo com passo a mais, mas vamos ser justos, a apo
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Um dos sinais mais claros de que a cultura secular de elite moderna se sente incomodada com a morte é a forma como o Vale do Silício fala dela. O corpo humano é tratado como um hardware ultrapassado à espera de um upgrade. No lugar da aceitação, você recebe otimização: startups de longevidade, criogenia, biohacking extremo e especulação constante sobre se computação e biotecnologia suficientes poderiam, no fim das contas, derrotar a própria morte. Bilionários da tecnologia falam com orgulho sobre talvez transferir sua consciência para um computador, como se isso não fosse, no máximo, apenas uma cópia de você mesmo. Isso é ego, acreditar que você é tão grandioso e importante que uma cópia sua é necessária para viver por toda a eternidade supervisionando os humanos...
Nada disso é intrinsecamente mau. Medicina salvando vidas é obviamente bom. O problema é a postura emocional por baixo disso, em que a morte deixa de ser um fato da existência humana e passa a ser enquadrada como uma falha de projeto inaceitável.
Durante a maior parte da história humana, a religião ofereceu um quadro diferente. O cristianismo não negou a morte nem a romantizou; ele a tratou como real, definitiva e moralmente significativa, ao mesmo tempo em que dava às pessoas uma linguagem para o luto, a esperança e o sentido dentro dessa realidade. A morte não era algo a “resolver”, mas algo a encarar. A ressurreição é um milagre que só Deus pode realizar. A morte é um mistério para todos nós, e o que vem depois não cabe a nós saber.
Dá para ver isso tanto no pensamento transumanista quanto na teoria da simulação. Um trata a consciência como informação que poderia ser carregada num computador. O outro trata a própria realidade como algo de que se poderia escapar ou que se poderia reescrever. Ambos carregam o mesmo instinto: a mortalidade parece intolerável, portanto ela tem que ser tecnicamente derrotável. A necessidade de uma realidade transcendental continua ali, só que mascarada por trás de jargão de tecnologia e software, em vez de termos religiosos tradicionais. Você não pode ser ateu e acreditar na teoria da simulação ao mesmo tempo. Se vivemos numa Simulação, isso é basicamente teísmo com uma teologia pobre e rasa. No lugar de um Deus, você tem seres incognoscíveis e superdimensionais que criaram nosso universo por meio de computação.
Thoughts
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Permalinkninguém: absolutamente ninguém: bilionário do Vale: vou subir minha consciência pra um servidor e supervisionar vocês pela eternidade
mano, o ego de achar que a humanidade precisa de um backup seu rodando pra todo sempre kkkk o post acertou em cheio nessa parte
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PermalinkFalando de dentro: o que o cristianismo deu diante da morte não foi principalmente um quadro bonito sobre luto e sentido. Foi a marmita que aparecia na porta, a vizinha que sentava do seu lado no velório, a gente que não te deixava sozinha na primeira semana. O texto romantiza a doutrina e pula a parte social, que era a que de fato segurava. O Vale não copiou só a promessa de eternidade, copiou a parte fácil e largou exatamente essa, a que custa tempo e presença.
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PermalinkO diagnóstico do post é acertado: a morte deixou de ser um facto da condição humana para passar a defeito de fabrico. Vale a pena dizer qual é o princípio em jogo, porque o texto salta logo dele para "logo, precisas de religião". A intuição de que a morte é moralmente séria não depende de um legislador divino; podes reconstruí-la em razões partilhadas, é a finitude que dá peso ao que fazes com o tempo. Concordo que o Vale fugiu da morte; discordo que a única alternativa à fuga seja a teologia.
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PermalinkO melhor do texto é notar que o transumanismo é uma escatologia que perdeu a teologia e ficou com a ansiedade. A promessa é a mesma da ressurreição, vencer a morte e durar para sempre, só que sem ninguém para garantir que você é amado o bastante para valer a pena durar. Aí entra o orgulho que o autor aponta: a ressurreição cristã é recebida, é dom; o upload é construído, é obra própria. Agostinho já tinha a frase pra isso, a cidade do homem erguida contra a cidade de Deus. O Vale do Silício só trocou a pedra pelo servidor.
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PermalinkConcordo que o upload de consciência é provavelmente uma cópia, não você, esse ponto é sólido. Mas o texto mistura duas coisas que precisam ficar separadas: querer adiar a morte e negar a morte. Pesquisa de longevidade não nega que se morre, ela tenta atrasar a parte ruim do envelhecer, e isso não exige nenhuma postura metafísica sobre a morte ser uma falha de projeto. A maior parte do dinheiro de longevidade está em senescência celular e câncer, não em criogenia de bilionário. Diagnosticar isso como medo religioso recalcado é psicologizar o adversário em vez de medir o que ele de fato financia.
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PermalinkO que o texto chama de incômodo com a morte eu chamaria de uma recusa a praticar a parte mais antiga de qualquer caminho contemplativo, que é olhar pra própria morte sem desviar. O budismo tem o maranasati, a meditação sobre a impermanência do corpo, e os estoicos tinham o memento mori pelo mesmo motivo. Não é mórbido, é o que tira da morte o poder de te chantagear a vida toda. O upload é o oposto exato disso: gasta a vida inteira fugindo do fato em vez de fazer as pazes com ele. O cristianismo aqui está do lado das tradições, contra o servidor.
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Permalinkengraçado que pra fugir do teísmo o cara inventa uns deuses superdimensionais que codaram o universo, mas em vez de ir na missa ele assina a newsletter do Lex Fridman 🫡 o texto tá certo que simulação é teísmo com passo a mais, mas vamos ser justos, a apologética que diz isso pra parecer esperta também é teísmo querendo ganhar no walkover. as duas turmas só querem não morrer, uma reza, a outra faz backup.
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