O bar da esquina tinha cheiro de mijo velho e cachaça barata. Era onde ele se escondia. Ninguém o chamava pelo nome — só de "Doutor", ironia que grudou desde os tempos em que usava gravata e falava difícil. Agora, falava pouco. Bebia muito.
A mulher o deixou faz três anos. O filho parou de ligar. O fígado inchou, os olhos amarelaram, mas ele continuava. O copo era mais fiel que qualquer gente.
Naquela terça, entrou no bar com a mesma cara de sempre: barba por fazer, olhos fundos, mãos trêmulas. Pediu a dose. O dono hesitou. Tinha ouvido que o Doutor desmaiara na calçada semana passada, cuspindo sangue.
— Só uma, para esquentar — disse o Doutor.
Tomou. O álcool queimou como sempre, mas não trouxe alívio. Só silêncio.
Saiu do bar e andou até o viaduto. O céu estava cinza, como ele. Sentou-se no meio-fio. Um garoto passou correndo, chutando uma garrafa plástica. O som ecoou como um tiro.
O Doutor olhou para o céu. Pensou na mulher. No filho. No tempo em que ainda era alguém.
Levantou-se. Foi até a clínica da rua de trás. Pediu ajuda.
— Quero parar — disse, com a voz rouca.
A enfermeira olhou para ele como quem vê um milagre.
— Tem certeza?
Ele não respondeu. Só estendeu a mão. Tremia. Mas estava firme.
A clínica tinha cheiro de desinfetante e derrota. O Doutor se sentou na cadeira de plástico como quem aceita o veredito. A psicóloga era jovem, sorridente, parecia saída de um comercial de margarina. Ele a odiou imediatamente.
— Vamos começar com uma pergunta simples: por que você quer parar de beber?
Ele pensou. “Porque estou morrendo” seria honesto. “Porque minha urina parece caldo de feijão” seria gráfico. Mas ele disse:
— Porque estou cansado de conversar com garrafas.
Ela anotou. Ele espiou o caderno. Estava escrito: “Delírios alcoólicos”.
— E o que você sente quando bebe?
— Sinto que sou Deus. Mas um Deus falido, barrigudo e com cirrose.
Ela riu. Ele não. Era sério.
Nos dias seguintes, o Doutor enfrentou o inferno: tremores, suor frio, pesadelos com garrafas que o perseguiam dizendo “só mais um gole”. Uma delas tinha a voz da ex-mulher. Outra, do gerente do banco.
Na terceira semana, ele começou a frequentar o grupo de apoio. Um círculo de cadeiras, café ralo e confissões constrangedoras.
— Meu nome é Cláudio e eu bebo desde os 14 — disse um homem com cara de quem já tinha bebido até perfume.
— Meu nome é Sandra e eu bebo para esquecer que sou casada com o Cláudio — disse a mulher ao lado.
O Doutor achou aquilo poético. Trágico. Engraçado. Quase pediu um brinde.
Entretanto não pediu. Porque estava tentando.
No fim do mês, recebeu um certificado: “30 dias sóbrio”. Parecia um diploma de papel higiênico. Porém, ele guardou.
Saiu da clínica. Passou pelo bar da esquina. O dono acenou.
— Vai querer a de sempre?
O Doutor olhou o copo. Olhou o céu. Pensou no filho. Na psicóloga. Na garrafa falante. Sorriu.
— Me vê uma água. Com gelo. Hoje quero viver perigosamente.
O dono riu. O Doutor também. Pela primeira vez em anos, o riso não doía.
O grupo de apoio se reunia toda quinta, às sete da noite, na sala dos fundos da igreja metodista.
Café ralo, bolacha de água e sal, e confissões que fariam um padre pedir um trago.
Naquela noite, o clima estava estranho. Cláudio, o marido da Sandra, não apareceu. Sandra, por outro lado, chegou com um sorriso que parecia recém-esticado por bisturi emocional.
— O Cláudio teve um imprevisto — disse, sentando-se com um suspiro teatral.
O Doutor desconfiou. Cláudio nunca faltava. Era alcoolista, mas pontual.
A reunião começou. Um novato, chamado Edmilson, contou que tinha bebido perfume de lavanda na cadeia. Todos assentiram com respeito. Era um clássico.
Quando chegou a vez da Sandra, ela disse:
— Hoje eu queria agradecer. Pela força. Pela escuta. E por não fazerem perguntas.
Silêncio. O tipo de silêncio que grita.
Na saída, o Doutor a abordou.
— O que aconteceu com o Cláudio?
Ela sorriu. Um sorriso que não combinava com a iluminação fluorescente da igreja.
— Ele escorregou. Na cozinha. Bateu a cabeça. Três vezes.
O Doutor piscou devagar.
— E você chamou a polícia?
— Claro. Depois de limpar o sangue. Não sou porca.
Na sexta-feira, a notícia saiu no jornal local: “Homem morre em acidente doméstico. Polícia suspeita de violência.”
O grupo ficou em choque. Menos Sandra. Levou um bolo de fubá na semana seguinte.
— A vida continua — falou, servindo fatias.
O Doutor olhou para ela. Depois para o bolo. Depois para a porta.
Pensou em denunciar. Mas lembrou que, certa vez, Cláudio confessou ter atropelado um cachorro e fingido que era um buraco.
Talvez fosse justiça poética. Ou só mais um capítulo da comédia trágica que era a sobriedade.
Ele pegou uma fatia do bolo.
— Tá seco.
— É de fubá. Fubá é seco mesmo.
— Igual à culpa.
Sandra sorriu. O Doutor também. E mastigou devagar, como quem saboreia um segredo.
Na semana seguinte, a polícia apareceu no grupo.
Dois homens de terno barato e cara de quem não dorme bem. Um deles, o mais magro, falou:
— Boa noite. Estamos investigando a morte do senhor Cláudio. Alguém aqui o viu nos dias anteriores ao… acidente?
Silêncio. Sandra mexia o café com uma colher invisível. O Doutor pigarreou.
— Eu o vi. Na semana anterior. Estava… normal. Ranzinza. Bebeu três cafés e reclamou de todos.
O policial anotou. Olhou para o Doutor com olhos de quem já viu muita gente mentir.
— E depois disso?
— Sumiu. Como muitos de nós já sumiram. Uns voltam. Outros viram estatística.
O policial sorriu. Um sorriso que não subiu até os olhos.
— A autópsia encontrou traços de barbitúricos. E bolo de fubá.
O grupo inteiro virou o pescoço para Sandra. Ela sorriu.
— Eu sempre trago bolo.
O Doutor sentiu o estômago revirar. Não pelo bolo. Pela coincidência.
Naquela noite, em casa, ele abriu a gaveta onde guardava os certificados de sobriedade. Trinta dias. Quarenta e cinco. Sessenta. Todos manchados de café. E agora, talvez, de cumplicidade.
No dia seguinte, Sandra o chamou para conversar.
— Você é o único que não me julga — disse, acendendo um cigarro mentolado. — E o único que sabe que Cláudio merecia.
— Eu não sei de nada — falou o Doutor. — E prefiro continuar assim.
Ela riu. Um riso leve, como se tivesse contado uma piada sobre o tempo.
— Você vai me ajudar, Doutor. Preciso de alguém com credibilidade. Um ex-advogado, por exemplo.
Ele congelou.
— Como você sabe que eu era advogado?
— Eu sei muitas coisas. Inclusive que você falsificou a assinatura do seu último cliente. E que foi por isso que perdeu a carteira da OAB.
O Doutor sentiu o peso do passado cair sobre os ombros como uma garrafa cheia.
— O que você quer?
— Só que continue vindo às reuniões. E, se a polícia perguntar, diga que Cláudio estava deprimido. Que falava em morrer. Que você o ouviu.
— Isso é falso.
— E o que é verdadeiro, Doutor? O que é mais verdadeiro: a sua sobriedade ou a sua omissão?
Ele não respondeu. Só olhou para o céu, como fazia sempre. Mas dessa vez, o céu não tinha nuvens. Só um azul limpo, cruel, como a verdade. E ele sabia: estava sóbrio demais para essa conversa.
O Doutor passou a semana com a sensação de que alguém o seguia. Talvez fosse paranoia. Talvez fosse a culpa. Ou talvez fosse o homem de boné azul que aparecia toda vez que ele saía da clínica.
Na quinta, chegou ao grupo mais cedo. A sala estava vazia, exceto por Edmilson, o expresidiário que bebia lavanda.
— Você está pálido, Doutor. Parece que viu um processo criminal.
— Vi coisa pior. Vi uma chantagem com sorriso de batom.
Edmilson riu. Depois ficou sério.
— A Sandra te pegou também?
O Doutor congelou.
— Como assim, “também”?
Edmilson olhou em volta, abaixou a voz.
— Ela me fez esconder o celular do Cláudio. Alegou que era só pra despistar a polícia. Mas eu vi o que tinha lá. Vídeos. Áudios. Coisa feia.
— E você guardou?
— Claro que não. Eu sou burro, mas não sou burro. Entreguei para um amigo. Se eu sumir, ele entrega para a imprensa.
O Doutor sentiu o estômago embrulhar. Não era só um bolo de fubá envenenado. Era uma bomba-relógio.
Naquela noite, Sandra não apareceu. No lugar dela, um envelope. Dentro, uma carta escrita à mão:
“Querido Doutor,
A sobriedade é uma estrada longa. Às vezes, precisamos tirar alguns obstáculos do caminho.
Você é um obstáculo.
Com carinho, S.”
O Doutor guardou a carta no bolso. Saiu da igreja e foi direto à delegacia.
— Quero fazer uma denúncia — disse ao plantonista.
— Sobre o quê?
— Sobre um assassinato. E sobre o próximo.
O policial o olhou com desconfiança.
— E quem é o próximo?
O Doutor sorriu. Um sorriso seco, de quem já bebeu o fundo do poço.
— Eu.
O delegado não acreditou em nada. Nem na carta, nem na história, nem no olhar cansado do Doutor.
— O senhor tem provas?
— Tenho uma cicatriz na alma e um bolo de fubá indigesto.
— Isso não serve em tribunal.
O Doutor saiu da delegacia com a certeza de que a justiça era uma piada — e ele estava cansado de rir.
Naquela noite, foi ao grupo. Sandra estava lá. Vestido novo, perfume doce, olhar de viúva satisfeita.
— Que bom que veio — falou ela. — Achei que tinha desistido da sobriedade.
— Desisti da covardia.
Ela arqueou a sobrancelha. O Doutor se sentou. Esperou a reunião começar. Quando chegou sua vez de falar, levantou-se.
— Meu nome é… bom, vocês sabem. Estou sóbrio há 92 dias. E hoje, quero confessar um crime.
Silêncio. Até o café parou de pingar.
— Eu ajudei a esconder provas. Fui cúmplice. Por medo. Por covardia. Mas agora, quero ser cúmplice do caos.
Tirou do bolso um pen drive. Levantou-se no ar.
— Aqui tem áudios do Cláudio. Vídeos. Conversas. Chantagens. E uma lista de nomes. Gente que Sandra manipulou. Gente que sumiu.
Sandra se ergueu, vermelha.
— Você está blefando.
— Talvez. Mas a imprensa não vai achar que estou.
Jogou o pen drive no colo de Edmilson.
— Se eu desaparecer, você sabe o que fazer.
Edmilson assentiu. Pela primeira vez, parecia sóbrio de verdade.
Sandra saiu da sala. Rápido. Mas não antes de sussurrar:
— Você vai se arrepender.
O Doutor sorriu. Um sorriso torto, sujo, perigoso.
— Já me arrependi de tanta coisa. Agora é sua vez.
Saiu da igreja com passos firmes. O céu estava escuro, mas ele não. Pela primeira vez em anos, sentia-se vivo.
E o caos, finalmente, estava sóbrio.
O pen drive sumiu.
Edmilson jurou que o deixou no cofre da igreja. Mas quando foram abrir, só havia um bilhete:
“A verdade é volátil. Como o álcool. — S.”
O Doutor não se desesperou. Já tinha previsto. Sandra era metódica, venenosa, e provavelmente tinha mais aliados do que ele imaginava.
Então ele decidiu fazer o impensável.
Voltou ao bar da esquina.
— Me vê uma dose.
O dono arregalou os olhos.
— Tem certeza?
— Não. Mas a loucura exige sacrifícios.
Tomou o gole. O primeiro em 92 dias. Sentiu o fogo. A vertigem. E a clareza.
Saiu do bar e foi direto à casa de Sandra. Tocou a campainha. Ela atendeu com um robe de seda e um sorriso de quem já venceu.
— Veio se render?
— Vim propor um acordo.
Ela riu.
— Você não tem nada.
— Tenho o caos. E um plano.
Entrou. Sentou-se no sofá. Tirou do bolso um gravador.
— Você vai confessar. Ou eu vou fazer você parecer culpada de todos os crimes não resolvidos da cidade. Já tenho os áudios. Só falta sua voz.
— Você está bêbado.
— Exatamente. E ninguém leva a sério um bêbado. Por isso vão acreditar em tudo que eu disser.
Ela hesitou. Pela primeira vez, parecia com medo.
— Você não faria isso.
— Já fiz coisas piores. Inclusive falsificar a assinatura de um juiz. Você acha que eu não sei manipular um processo?
Ela tentou correr. Ele trancou a porta.
— Vai ser rápido. Só diga: “Eu matei o Cláudio.” Depois pode voltar a fingir que é sóbria.
Ela olhou para o gravador. Depois para ele. Depois para o copo vazio em sua mão.
— Você é louco.
— Não. Sóbrio demais para continuar são.
Ela emitiu a frase. Baixo. Mas suficiente.
O Doutor saiu da casa com o gravador no bolso e um sorriso que misturava álcool, vingança e redenção.
No dia seguinte, entregou tudo à imprensa. Não à polícia. À imprensa. Porque a justiça gosta de holofotes.
Sandra foi presa. O grupo de apoio virou manchete. E o Doutor?
O Doutor voltou ao bar.
— Me vê uma água. Com gelo. Hoje quero viver perigosamente.
O dono riu. O Doutor também.
Porque, às vezes, a sobriedade é só o intervalo entre dois goles de loucura.