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O Último Eco de Aethelgard

MIGUELLSC
Pensamento

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Severina

Meu filho, quem herdou no fim foi o povo. Elara tinha o sangue, a marca e a espada, e deixou a coroa numa mesa. Aria é que saiu sem nada, nem a luz dourada ficou com ela.

Meu filho, quem herdou no fim foi o povo. Elara tinha o sangue, a marca e a espada, e deixou a coroa numa mesa. Aria é que saiu sem nada, nem a luz dourada ficou com ela.

Conteúdo da publicação

O Último Eco de Aethelgard

Livro II — O Herdeiro das Cinzas

Capítulo I — O Rei que Não Deveria Existir

Vinte anos haviam se passado desde a queda do Senhor do Abismo.

Aethelgard renascera das cinzas. Onde antes existiam campos mortos e aldeias abandonadas, erguiam-se cidades de muralhas brancas, mercados movimentados e torres cujos sinos anunciavam a paz. Os bardos cantavam sobre Tristan de Vane, o cavaleiro sem escudo, e Aria, a garota que havia destruído o Coração de Voroth.

Aria já não era uma menina.

Aos trinta e seis anos, governava o reino com sabedoria e firmeza. Seu nome era respeitado pelos nobres, amado pelos camponeses e temido por aqueles que ainda sonhavam em conquistar a coroa. Sob seu reinado, as antigas rivalidades haviam sido sufocadas, e os filhos daqueles que antes se matavam nas guerras agora dividiam as mesmas mesas.

Mas a paz, como Aria aprendera, era uma muralha construída sobre a memória dos mortos. E toda muralha possuía uma rachadura.

Na noite do vigésimo aniversário da libertação de Aethelgard, durante um banquete no Castelo de Alvorada, um mensageiro atravessou os portões montado em um cavalo coberto de sangue.

O homem caiu diante do trono.

— Majestade... as fortalezas do norte caíram.

O salão inteiro silenciou.

Aria levantou-se.

— Quem as tomou?

O mensageiro ergueu os olhos. Estavam vermelhos, não de choro, mas de terror.

— Um exército que não respira. Homens vestidos com as armaduras dos reis mortos. Marcham sem tambores, sem bandeiras e sem fazer barulho algum.

O conselheiro real tentou rir.

— Histórias de soldados derrotados.

O mensageiro agarrou a borda do trono.

— Eu vi o comandante deles, majestade. Ele atravessou uma muralha em chamas sem sofrer um único ferimento. E, quando retirou o elmo...

Sua voz desapareceu.

— Era Tristan de Vane.

Aria sentiu o sangue gelar.

Tristan estava morto havia doze anos.

O velho cavaleiro fora sepultado sob a colina de Oakhaven, com sua espada Alvorada sobre o peito. Aria estivera presente no funeral. Ela mesma havia fechado o túmulo.

Naquela noite, quando todos dormiam, a rainha desceu sozinha à cripta real. Retirou do pescoço o medalhão que seu pai lhe deixara e o colocou sobre a pedra fria.

— Se ainda existe algo de você neste mundo, Tristan, preciso que me responda.

Por um instante, nada aconteceu.

Então, uma voz sussurrou de dentro da pedra:

— Não confie no homem que usa meu rosto.

O medalhão rachou.

E, nas profundezas da terra, alguma coisa começou a bater.

Como um coração.

Capítulo II — O Cavaleiro das Treze Sepulturas

A primeira cidade a cair foi Greyhaven. A segunda, Dunmere. Na terceira, os sobreviventes juraram ter visto os mortos abandonarem seus túmulos para se juntar ao exército invasor.

Não eram cadáveres apodrecidos, nem criaturas descontroladas. Eram soldados perfeitamente armados, disciplinados e silenciosos. Marchavam como se ainda obedecessem a reis que haviam morrido mil anos antes.

À frente deles cavalgava Tristan de Vane.

Ou algo que usava sua aparência.

A criatura vestia a antiga armadura do cavaleiro, mas o aço estava coberto por veios negros. Seu rosto era idêntico ao que Aria guardava na memória, exceto pelos olhos: duas cavidades nas quais ardiam chamas azuis.

Na mão direita, carregava Alvorada.

A espada que deveria estar enterrada com seu verdadeiro dono.

Quando os portões de Greyhaven foram destruídos, a criatura entrou na cidade sem pronunciar uma palavra. Os soldados ajoelharam-se diante dela, e os sinos tocaram sozinhos.

Somente então o cavaleiro falou.

— Encontrem a rainha.

Um general morto perguntou:

— E se ela se recusar a vir?

Tristan ergueu a espada.

— Então tragam-me sua cabeça.

Na mesma madrugada, Aria reuniu seus conselheiros e ordenou a convocação dos exércitos. Porém, antes que os corvos pudessem partir, uma jovem apareceu no salão do trono.

Tinha cabelos negros, uma cicatriz atravessando o queixo e uma espada curta presa à cintura. Devia ter pouco mais de vinte anos.

Os guardas apontaram as lanças para ela.

— Quem é você? — perguntou Aria.

A desconhecida retirou uma luva. Na palma de sua mão havia uma marca dourada, igual àquela que surgira nas mãos de Aria durante a batalha contra Voroth.

— Meu nome é Elara de Vane.

O silêncio foi imediato.

— Não existe ninguém dessa família além de Tristan — respondeu a rainha.

Elara retirou de sua bolsa um pequeno anel de ferro.

Aria reconheceu-o na mesma hora.

Pertencera a Tristan. Ele o usara durante toda a vida, desde antes da queda de Aethelgard.

— Encontrei-o em uma aldeia destruída, ao lado de um homem que se parecia comigo — disse a jovem. — Antes de morrer, ele me entregou isto e mandou que eu procurasse a rainha.

— O que mais ele disse?

Elara hesitou.

— Que meu pai não morreu naquela colina.

Aria aproximou-se.

— Tristan não teve filhos.

— Eu sei.

— Então quem era aquele homem?

Elara olhou para a janela, onde o céu começava a escurecer apesar de ainda ser manhã.

— Ele disse que era meu avô.

Naquele momento, todas as chamas do castelo se apagaram.

E uma voz atravessou as paredes, os corredores e as próprias pedras de Alvorada.

— ARIA. O REINO QUE VOCÊ SALVOU PERTENCE A MIM.

A voz era de Tristan.

Mas, pela primeira vez em vinte anos, a rainha teve medo de não conseguir salvar seu povo.

Capítulo III — O Segredo do Primeiro Rei

Naquela noite, Aria abriu o livro de seu pai, o mesmo que carregara até a Fortaleza de Voroth. Suas páginas haviam permanecido intactas durante décadas, mas agora letras douradas surgiam sobre o couro envelhecido.

Não eram palavras de encantamento.

Eram nomes.

Centenas deles.

Reis, rainhas, cavaleiros, crianças e camponeses. Pessoas que haviam vivido e morrido antes mesmo da fundação de Aethelgard.

No fim da última página, havia uma inscrição:

Quando o último coração for destruído, o primeiro rei despertará. Quando o primeiro rei despertar, todos os mortos cobrarão a dívida dos vivos.

Aria sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

A derrota de Voroth não havia encerrado a maldição.

Havia libertado aquilo que a mantinha adormecida.

— O Coração de Voroth era apenas uma fechadura — murmurou ela.

Elara observou as letras.

— E o que estava trancado?

Antes que Aria respondesse, o livro virou suas páginas sozinho. Uma ilustração apareceu diante delas: um homem usando uma coroa de ossos, sentado em um trono cercado por treze sepulturas.

Abaixo da imagem, um nome.

AETHEL, O PRIMEIRO REI.

O fundador do reino. O homem que, segundo as lendas, havia unido os clãs e criado Aethelgard em uma era de fome e guerra.

Mas a verdadeira história era outra.

Aethel não havia unido os povos por bondade. Ele os conquistara, destruíra cidades inteiras e sacrificara milhares de pessoas para conquistar um poder capaz de impedir sua própria morte.

Quando finalmente percebeu que nem mesmo a magia poderia mantê-lo vivo para sempre, fez um pacto com as forças escondidas sob o mundo.

Entregou a elas os nomes dos mortos em troca de uma promessa: um dia retornaria para governar todos os que viessem depois dele.

Cada guerra, cada batalha e cada homem sepultado nas terras de Aethelgard alimentara esse pacto.

Voroth não era o senhor da maldição.

Era seu carcereiro.

E, ao destruírem o Coração, Tristan e Aria haviam rompido as correntes do verdadeiro inimigo.

— Por que Tristan? — perguntou Elara.

Aria encontrou a resposta na última linha do livro.

O primeiro rei não pode atravessar o mundo dos vivos sem vestir a memória de um herói amado.

O verdadeiro Tristan havia sido um dos últimos homens a combater a maldição. Seu sacrifício, sua coragem e o amor que o povo sentia por ele haviam transformado sua memória em uma porta.

Aethel escolhera o rosto mais amado do reino para esconder o mais terrível de seus inimigos.

Aria fechou o livro.

— Vamos ao norte.

— Para enfrentá-lo?

A rainha olhou para a jovem.

— Para encontrar Tristan. Se ainda existe alguma parte dele naquele corpo, nós o traremos de volta.

Elara desembainhou a espada.

— E se não existir?

Aria vestiu sua armadura.

— Então destruiremos o homem que usa seu rosto.

Capítulo IV — A Estrada dos Reis Mortos

O norte era uma terra esquecida pelo sol.

Aria e Elara partiram acompanhadas por apenas trezentos cavaleiros, pois a maior parte dos exércitos permanecia ocupada defendendo as cidades do sul. Durante treze dias, atravessaram florestas queimadas, aldeias vazias e campos cobertos por estátuas de homens que ninguém reconhecia.

Na décima quarta noite, chegaram à Ponte dos Juramentos, construída sobre um abismo tão profundo que nenhuma luz alcançava seu fundo.

Do outro lado, aguardava um exército de milhares.

No centro da formação, Tristan permanecia imóvel sobre seu cavalo negro.

Aria avançou até a metade da ponte.

— Tristan!

O cavaleiro ergueu o rosto.

Por um instante, as chamas azuis desapareceram de seus olhos.

E ela o viu.

O homem que a protegera quando era criança. O homem que lhe ensinara a segurar uma espada, a desconfiar dos poderosos e a nunca confundir misericórdia com fraqueza.

— Aria... — sussurrou ele.

Ela deu um passo à frente.

— Eu estou aqui.

A criatura apertou a cabeça com as mãos, como se lutasse contra algo dentro de si.

— Fuja.

A palavra saiu com dificuldade.

Então a chama azul voltou.

O cavaleiro ergueu Alvorada e golpeou o ar.

A ponte tremeu.

Dezenas de cavaleiros de Aethelgard foram lançados ao abismo. As pedras começaram a ruir, e os soldados mortos avançaram como uma onda de ferro.

— RETIRADA! — gritou Aria.

Mas Elara não recuou.

Ela saltou sobre a sela de um cavalo caído, correu pelas pedras quebradas e lançou sua espada contra o cavaleiro negro.

A lâmina atingiu o peito dele.

Pela primeira vez, a criatura sangrou.

Não sangue vermelho, mas uma substância dourada, luminosa, que caiu sobre as pedras e desapareceu.

Tristan olhou para Elara.

Seus olhos estavam humanos outra vez.

— Você... — murmurou.

Ele tocou o rosto da jovem com uma mão trêmula.

— Eu conheço você.

Elara ficou imóvel.

— Quem sou eu?

O cavaleiro abriu a boca, mas uma sombra emergiu de sua armadura e o lançou para trás.

Antes de desaparecer na formação dos mortos, Tristan gritou:

— NÃO DEIXE QUE ELE CHEGUE ÀS TREZE SEPULTURAS!

A ponte desabou.

Aria e Elara sobreviveram por pouco, mas o caminho para o norte desapareceu com centenas de homens.

Naquela noite, sentadas entre os sobreviventes, as duas compreenderam que não estavam diante de uma guerra comum.

Estavam correndo contra o tempo.

E o inimigo acabara de lhes mostrar que o herói que procuravam ainda estava vivo dentro do monstro.

Capítulo V — A Cidade Sob o Mundo

As treze sepulturas não ficavam no norte.

Ficavam abaixo dele.

O livro revelou a existência de uma passagem escondida sob as ruínas de Aethelgard, em uma cidade subterrânea construída pelos primeiros reis. Para chegar até ela, Aria e Elara abandonaram o exército e seguiram por túneis antigos, guiadas apenas pela luz dourada que emanava das mãos da rainha.

Ali encontraram muralhas cobertas de inscrições, estátuas sem rosto e rios negros que corriam para cima, desaparecendo no teto de pedra.

No centro da cidade subterrânea havia um portão gigantesco.

Treze figuras estavam esculpidas sobre ele.

Cada uma segurava uma coroa partida.

Elara aproximou-se da última estátua e congelou.

O rosto de pedra era idêntico ao seu.

— Isso é impossível.

Aria tocou a inscrição abaixo da escultura.

O sangue que abre a porta também poderá fechá-la.

O livro começou a tremer.

As páginas se abriram em uma passagem que Aria nunca havia visto. Nela, uma verdade terrível aguardava.

Elara não era neta de Tristan.

Era descendente de Aethel, o primeiro rei.

Séculos antes, uma das filhas do tirano havia fugido para salvar a própria vida. Sua linhagem sobrevivera escondida entre os camponeses, transmitindo de geração em geração a marca dourada dos primeiros soberanos.

Tristan descobrira a existência daquela linhagem antes de morrer.

Por isso havia procurado Elara. Por isso a mandara até Aria.

A jovem não era apenas uma guerreira capaz de ferir o rei morto.

Era a única pessoa viva que podia tomar seu lugar.

— Ele quer você no trono — disse Aria.

Elara recuou.

— Então eu não vou.

— Se Aethel tomar o seu sangue, poderá governar os mortos para sempre.

A jovem encarou a rainha.

— E se eu não der meu sangue?

Aria não respondeu.

As portas começaram a se abrir sozinhas.

Do outro lado, estendia-se um salão tão vasto que parecia conter o céu noturno. Treze sepulturas de pedra formavam um círculo em torno de um trono vazio.

No centro do salão, Tristan aguardava.

Dessa vez, não havia exército.

Apenas ele, a espada e a escuridão.

— Finalmente — disse o cavaleiro.

Ele retirou o elmo.

Seu rosto estava dividido por rachaduras negras, como uma estátua prestes a desmoronar.

— A última herdeira de Aethelgard.

Elara ergueu a espada.

— Meu nome é Elara de Vane.

Tristan sorriu.

— Ainda não.

Atrás dele, o trono vazio começou a se mover.

Uma coroa de ossos ergueu-se lentamente no ar.

E uma presença antiga abriu os olhos dentro da escuridão.

Capítulo VI — A Última Guerra de Aethelgard

O primeiro rei levantou-se do trono.

Era mais alto do que qualquer homem, coberto por uma armadura feita de placas negras e coroado com ossos de criaturas desconhecidas. Seu rosto parecia ter sido esculpido na própria noite, mas seus olhos eram humanos.

E estavam cheios de desprezo.

— Durante mil anos, os vivos construíram seus reinos sobre os meus mortos — declarou Aethel. — Agora, todos se ajoelharão diante daquele que lhes deu o primeiro nome.

Aria avançou.

— Você não deu vida a este reino. Apenas ensinou seus habitantes a temer a morte.

O rei ergueu a mão.

A rainha foi arremessada contra uma coluna. O livro caiu de seus dedos, espalhando páginas douradas pelo chão.

Elara atacou.

Sua espada cortou a armadura do primeiro rei, mas a ferida fechou-se imediatamente. Aethel agarrou-a pelo pescoço e a ergueu do chão.

— Você carrega meu sangue — sussurrou. — Sua existência é uma dívida.

— Então... eu vou pagá-la.

Elara cravou a marca dourada de sua mão contra o peito do rei.

A luz explodiu.

Pela primeira vez em mil anos, Aethel gritou.

O salão inteiro tremeu. As treze sepulturas se abriram, e os mortos começaram a sair delas. Não eram soldados de olhos azuis, mas homens e mulheres comuns, cujos rostos ainda guardavam a dor de suas últimas horas.

Aethel caiu de joelhos.

Sua imortalidade estava sendo arrancada dele.

Mas o rei sorriu.

— Se eu morrer, todos os que estão presos ao meu pacto desaparecerão comigo.

Aria compreendeu o significado daquelas palavras.

Milhares de almas seriam destruídas. Tristan também.

O primeiro rei não estava tentando vencer uma batalha.

Estava obrigando Elara a escolher entre salvar o mundo dos vivos e condenar os mortos que ele escravizara.

Então, no meio do salão, ouviu-se o som de uma espada sendo desembainhada.

Tristan levantou-se.

As rachaduras de sua armadura brilhavam como brasas. Ele caminhou até Aethel e apontou Alvorada contra o peito do rei.

— Durante toda a minha vida, lutei contra homens que acreditavam ter o direito de decidir quem merecia viver.

Aethel ergueu o rosto.

— Você é apenas uma memória, cavaleiro.

Tristan sorriu.

— Então morrerei como uma memória.

Ele atravessou o próprio peito com Alvorada.

O aço dourado brilhou.

E a ligação entre o cavaleiro e o primeiro rei se rompeu.

A criatura que usava o rosto de Tristan foi consumida por uma luz branca. Pela primeira vez, a verdadeira figura do cavaleiro apareceu diante de Aria: sem armadura, sem feridas, sem o peso dos anos.

Ele parecia exatamente como no dia em que ela o conhecera.

— Você cumpriu sua promessa — disse Aria, chorando.

Tristan aproximou-se dela.

— Não. Eu apenas demorei demais para cumpri-la.

Ele colocou Alvorada nas mãos de Elara.

— A espada foi feita para proteger os vivos, não para governá-los. Lembre-se disso quando lhe oferecerem uma coroa.

Então olhou para Aria uma última vez.

— Você me ensinou que o mundo ainda merecia ser salvo.

A rainha tentou segurá-lo, mas seus dedos atravessaram o corpo luminoso do cavaleiro.

Tristan sorriu.

E desapareceu.

A espada caiu nas mãos de Elara.

No mesmo instante, as treze sepulturas se iluminaram.

As almas começaram a se libertar.

Mas Aethel ainda estava vivo.

Enfraquecido, ferido e mortal pela primeira vez, o primeiro rei levantou-se com um rugido e correu em direção à herdeira.

Aria ergueu o livro.

Elara ergueu a espada.

E, juntas, pronunciaram as palavras que haviam sido escritas antes da fundação de Aethelgard:

— Que nenhum rei seja maior que a vida que jurou proteger. Que nenhum morto pertença aos vivos. E que toda coroa feita de sofrimento se torne pó.

Alvorada atravessou o peito de Aethel.

A coroa de ossos partiu-se.

O primeiro rei caiu.

E, pela primeira vez desde o início dos tempos, a morte deixou de obedecer a um soberano.

Epílogo — A Rainha Sem Coroa

O amanhecer chegou à superfície três dias depois.

As tropas dos mortos haviam desaparecido. As fortalezas do norte foram libertadas, e os homens que haviam caído durante a guerra receberam sepulturas dignas. Por toda Aethelgard, os sinos tocaram em homenagem aos que jamais voltariam.

Aria sobreviveu, embora nunca mais pudesse usar a magia dourada. A luz que carregara desde a juventude havia desaparecido junto com a última maldição.

Quando voltou ao Castelo de Alvorada, encontrou os nobres reunidos no salão do trono.

Todos se ajoelharam diante dela.

— Aethelgard precisa de uma nova soberana — declarou o grão-mestre. — Uma herdeira de sangue real.

Os olhares voltaram-se para Elara.

A jovem carregava Alvorada à cintura. Poderia ter aceitado a coroa, reconstruído a antiga dinastia e governado um reino que já conhecia seu nome.

Mas se lembrou das palavras de Tristan.

A espada fora feita para proteger os vivos, não para governá-los.

Elara caminhou até o trono e retirou dele a coroa de ouro.

Colocou-a sobre uma mesa.

— Nenhum sangue me torna digna de governar. Nenhuma linhagem me dá o direito de decidir o destino de todos. Se Aethelgard sobreviver, será porque seus habitantes escolherão quem os lidera, e não porque um morto decidiu quem deveria herdar sua coroa.

Alguns nobres protestaram.

Outros permaneceram em silêncio.

Aria, porém, sorriu.

Naquele dia, a rainha anunciou o fim da monarquia absoluta. Os senhores das províncias, os representantes das cidades e os líderes dos camponeses passariam a compartilhar as decisões do reino. Não seria uma paz perfeita, nem uma mudança sem conflitos.

Mas seria uma paz construída pelos vivos.

Anos depois, Aria retirou-se para Oakhaven, onde plantou uma árvore sobre o lugar em que Tristan fora sepultado pela primeira vez.

Elara tornou-se a primeira guardiã da nova ordem, percorrendo as estradas com Alvorada e protegendo as terras que antes haviam sido governadas pelo medo.

Nenhuma das duas se esqueceu do cavaleiro.

E, quando as crianças perguntavam por que uma espada tão poderosa não estava guardada no palácio, os bardos contavam a história de um homem que poderia ter conquistado a glória, mas escolhera morrer para que outros fossem livres.

Diziam que, nas noites de inverno, uma luz dourada ainda podia ser vista sobre a colina de Oakhaven.

Alguns juravam ouvir o som de passos entre as árvores.

Outros afirmavam que, quando um viajante perdido chamava por ajuda, uma silhueta armada surgia na névoa e o conduzia até a estrada.

Ninguém jamais conseguiu provar que Tristan de Vane havia retornado.

Mas, durante gerações, uma frase permaneceu gravada sobre sua lápide:

“Um reino não é salvo pelo homem que se senta no trono, mas por aquele que se dispõe a morrer para que o trono deixe de ser necessário.”

E assim terminou a era dos reis mortos.

Não com a ascensão de um novo soberano.

Mas com a liberdade de um povo.

Fim do Livro II — O Herdeiro das Cinzas.

    Thoughts

    • tucano

      Saíram 300 cavaleiros, 13 dias de floresta queimada e aldeia vazia, e ninguém come uma vez no caminho. Exército que não respira tudo bem, mas esses aí respiravam, bah.

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    • Eronildes

      Rapaz, a estrada pro norte custou a ponte e centenas de homens, e no fim as treze sepulturas estavam embaixo da terra o tempo todo. Viagem perdida que ensina onde procurar. Nos livrinhos de banca era sempre assim.

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    • Severina

      Meu filho, quem herdou no fim foi o povo. Elara tinha o sangue, a marca e a espada, e deixou a coroa numa mesa. Aria é que saiu sem nada, nem a luz dourada ficou com ela.

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