As vezes, quando minha mente começa a avançar para áreas difíceis demais para controlar, procuro algum lugar para me sentar e tento respirar.
O ar é pesado. Sinto cada parte do meu corpo existindo.
Nesses momentos, é como se todos os sentidos do meu corpo despertassem ao mesmo tempo. A pele, a garganta, os pulmões, cada pequena parte de mim parece exigir minha atenção de uma só vez. São os segundos mais difíceis da minha vida, porque não consigo me afastar daquilo que sinto. Não consigo fechar uma porta, diminuir o volume ou pedir que meu corpo espere um pouco enquanto tento compreender o que está acontecendo.
Tudo acontece ao mesmo tempo, e eu estou aqui para sentir.
O que eu mais queria era me transformar em fumaça, assumir a forma de um fantasma que, de alguma maneira, sinto que realmente sou. Deixar de ter contornos, peso, superfície. Deixar de ser uma coisa delimitada pela própria pele.
Meus sentidos chegam a cem por cento. Minha garganta se fecha, a pele arrepia e alguma coisa dentro de mim parece atingir o ponto de ebulição. E, se eu pudesse atravessar aquele instante sem me despedaçar, talvez finalmente me transformasse em gás, em ar, em fumaça. Alguma coisa que pudesse se espalhar pelo ambiente sem precisar carregar consigo a obrigação de ser um corpo.
Sabe uma sensação que tenho?
Sinto que sou aquela fantasia barata de Halloween, feita com um grande tecido branco lançado sobre um corpo e dois furos para simbolizar os olhos.
É uma imagem quase ridícula, eu sei. Um pano qualquer, duas aberturas malfeitas e alguém escondido por baixo, fingindo ser uma coisa que não é. Mas, quando penso nisso, a imagem parece se encaixar de um jeito desconfortável.
Aqui, meu pano branco é a pele.
É essa superfície que me apresenta ao mundo, que delimita meu tamanho, que permite que me reconheçam como alguém. É o que as outras pessoas enxergam quando olham para mim. É o que eu mesmo encontro quando olho para baixo.
Mas essa coisa que observa, esse “eu”, parece ser o fantasma que vive logo abaixo dessa camada.
Como se houvesse alguma coisa escondida sob o tecido, olhando através de duas pequenas aberturas, acompanhando os movimentos daquele corpo sem compreender inteiramente como chegou ali.
Às vezes, não sei se sou quem veste a fantasia ou quem está escondido debaixo dela.
Não sei se sou o corpo que sente tudo isso ou aquilo que observa o corpo sentir.
Só sei que, quando os sentidos despertam de uma vez e a existência se torna pesada demais, volto a desejar não ter contornos. Não precisar respirar, não sentir a pele arrepiar, não precisar me reconhecer em uma forma tão concreta.
Queria ser fumaça.
Não porque saiba o que existe depois de deixar de ser aquilo que sou, mas porque, nesses instantes, existir dentro de uma forma parece muito mais difícil do que simplesmente desaparecer dela.