CAPÍTULO 9: A Promessa
O edifício onde Leo morava era uma construção antiga de tijolos à vista na Rua Augusta, com portões pesados de ferro fundido. Quando Elena e Gabriel se aproximaram, notaram que a entrada principal havia sido barricada por dentro com sofás velhos e tábuas de madeira.
— Leo! — chamou Gabriel em um sussurro alto, batendo três vezes no metal da porta lateral de serviço. — Leo, sou eu! É o Gabriel!
Por longos segundos, o único som foi o estalar de chamas distantes e o chiado do vento nas copas das árvores ressecadas. Então, o barulho de trancas pesadas sendo arrastadas ecoou do outro lado. A porta se abriu alguns centímetros, revelando o rosto pálido de um jovem com olhos arregalados de pânico.
— Gabriel! — o rapaz puxou o irmão para dentro, abraçando-o com um desespero sufocado. — Você está vivo... meu Deus, eu achei que você estivesse morto!
— Eu disse que vinha te buscar — disse Gabriel, segurando o rosto de Leo com as duas mãos antes de indicar Elena. — Esta é a Elena. Ela é médica. Nos ajudamos a chegar até aqui.
Leo acenou rapidamente, trancando a porta de volta com mãos trêmulas. O saguão do prédio cheirava a poeira e velas queimadas.
— Temos pouco mais de duas horas para chegar ao Pacaembu — alertou Elena, checando o relógio no pulso. São quatro da tarde. O resgate fecha às seis.
— Eu peguei o que pude — disse Leo, apontando para uma mochila de lona no chão. — Mas lá fora... Gabriel, há bandos inteiros deles nas avenidas. Não tem como atravessar a pé a tempo.
— Vamos pelas vielas baixas, cortando pelo Pacaembu através dos viadutos — respondeu Gabriel. — É arriscado, mas é a única chance.
Enquanto Leo ajustava as alças da mochila, Elena percebeu o movimento rígido do jovem. Ao se inclinar para pegar um cantil, Leo soltou um leve gemido de dor, segurando a costela direita. A postura dele, mantendo o braço colar ao corpo, ativou instantaneamente o alarme clínico de Elena.
— Leo, pare — disse Elena, a voz firme. — Tire o casaco.
— O quê? Não é nada, eu só caí na escada quando...
— Tire o casaco. Agora — ordenou ela, dando um passo à frente.
Gabriel olhou do irmão para Elena, o semblante mudando de alívio para uma apreensão gélida. Leo hesitou, mas a autoridade no olhar da médica não deu margem para discussão. Com mãos hesitantes, o jovem abriu o zíper da jaqueta e levantou a camisa de algodão.
No lado direito do abdômen, havia uma laceração feia, rodeada por hematomas arroxeados. A pele ao redor do corte estava avermelhada e quente, mas não havia os sulcos profundos de dentes humanos nem a necrose negra característica da infecção que assolava a cidade.
— O que foi isso? — perguntou Gabriel, a voz falhando.
— Um pedaço de vidro da janela do saguão que quebrou quando tentei empurrar o sofá — explicou Leo, quase chorando pelo estresse. — Eu juro! Não foi nenhum deles! Eu não fui mordido!
Elena ajoelhou-se ao lado do rapaz. Com luvas limpas que tirara do bolso do jaleco, apalpou a margem da ferida com precisão médica.
— É um corte por estilhaço — confirmou ela, aliviando a tensão sufocante na sala com um suspiro longo. — Profundo, e com sinais de infecção bacteriana comum por falta de higienização, mas não é o patógeno. Ele precisa de pontos e antibiótico de largo espectro, ou vai entrar em sepse em vinte e quatro horas.
Gabriel cobriu a boca com a mão, os olhos marejados de alívio puro. Ele puxou o irmão para um abraço apertado, enquanto Elena tirava do bolso os suprimentos cirúrgicos que guardara no hospital.
— Eu posso fazer uma sutura rápida e um curativo de compressão agora — disse Elena, preparando a agulha e a linha de nylon. — Vai segurar o sangramento até chegarmos ao posto médico do estádio.
Enquanto Elena aplicava a anestesia local e começava os pontos com agilidade impressionante, Gabriel ajoelhou-se ao lado dela. Ele olhou para a médica com uma intensidade que transbordava gratidão e algo muito mais profundo.
— Se não fosse por você... eu teria enlouquecido — sussurrou Gabriel, tocando suavemente as costas da mão dela enquanto ela dava o último nó na sutura.
— Eu prometi que traria ele em segurança — disse Elena, cruzando o olhar com o dele. — Mas agora faça uma promessa para mim.
— Qual?
— Não importa o que aconteça nos próximos quilômetros... nós três entramos naquele estádio juntos. Ninguém fica para trás.
Gabriel segurou o rosto de Elena e a beijou com desespero e paixão, um selamento solene de um pacto feito à beira do abismo.