A Elena explica a paralisia do Gabriel como uma reação do cérebro, logo ela que acabou de contar que prometeu não deixar o afeto entrar no trabalho. Consola-o com a linguagem do protocolo. Se calhar é a única maneira que tem de dizer que também não conseguiu salvar a irmã.
O último batimento - capítulo 8
CAPÍTULO 8: Segredos na Escuridão
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A Elena explica a paralisia do Gabriel como uma reação do cérebro, logo ela que acabou de contar que prometeu não deixar o afeto entrar no trabalho. Consola-o com a linguagem do protocolo. Se calhar é a única maneira que tem de dizer que também não conseg
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CAPÍTULO 8: Segredos na Escuridão
Ao descerem do prédio e avançarem em direção ao bairro onde Leo morava, a fumaça das queimadas tornava a visibilidade cada vez menor. A névoa da manhã mesclara-se com a fumaça de um depósito de combustível em chamas a poucas quadras dali, criando uma penumbra sufocante que cheirava a borracha e enxofre.
Eles seguiam por uma travessa comercial quando o som de passos pesados ecoou à frente. Não era o caminhar desordenado dos infectados, mas o som ritmado de calçados militares.
— Esconda-se! — sussurrou Gabriel, puxando Elena para dentro do hall de entrada de uma galeria comercial abandonada.
Dois homens vestindo roupas táticas escuras e sem insígnias oficiais passaram pela rua. Eles carregavam fuzis de assalto e varriam o local com um desapego frio. Atrás deles, arrastavam caixas de suprimentos roubadas de um minimercado.
— Não são do exército — observou Elena em voz baixíssima, analisando a falta de padronização nos uniformes e a postura errática dos homens. — São saqueadores.
— O apocalipse traz o pior das pessoas para a superfície — murmurou Gabriel, o maxilar trancado. — Vamos esperar que eles dobrem a esquina.
Enquanto aguardavam no escuro da galeria, abrigados atrás de uma coluna de concreto, Elena notou o olhar distante de Gabriel. Ele segurava a câmera fotográfica tirada do pescoço, passando os dedos pelo corpo metálico do equipamento como se buscasse um ponto de ancoragem.
— Como você veio parar no hospital naquela madrugada? — perguntou ela, quebrando o silêncio tenso com uma pergunta que guardava desde o início.
Gabriel soltou um suspiro lento, sem tirar os olhos da rua.
— Eu estava cobrindo uma pauta na região central quando tudo começou. Quando a primeira onda de pânico explodiu, eu vi uma família ser atacada dentro de um carro. Eu tinha minha câmera na mão. Poderia ter corrido, mas parei para tirar fotos.
Ele olhou para Elena, os olhos carregados de uma culpa antiga.
— Eu fiquei paralizado assistindo àquilo através da lente. Só reagi quando a mãe da garotinha gritou por socorro. Eu ajudei a puxar a menina, mas o pai... o pai não conseguiu. Se eu estivesse prestando atenção no mundo e não na porcaria da imagem perfeita, talvez ele estivesse vivo. Fui ao hospital tentando encontrar notícias daquela família.
Elena aproximou-se dele e segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos nos dele.
— Você não causou aquilo, Gabriel. A reação de paralisia sob um trauma súbito é um mecanismo de defesa cerebral involuntário. Você ajudou a garota. É isso que importa.
— E você? — perguntou Gabriel, buscando os olhos dela. — O tempo todo você fala de protocolo e razão. Por que se fechou tanto para o mundo antes de tudo isso ruir?
Elena baixou o olhar por um segundo, engolindo em seco.
— Perdi minha irmã mais nova há dois anos — revelou ela, a voz baixa. — Leucemia. Eu era médica residente e passei meses achando que conseguiria achar uma resposta, uma combinação de drogas, um ensaio clínico... Mas a biologia não quer saber da nossa vontade. Quando ela morreu, prometi a mim mesma que nunca mais deixaria o afeto interferir no meu trabalho. Que me manteria distante para não sentir aquela dor de novo.
Ela olhou para Gabriel, e o canto de seus lábios se ergueu em um sorriso triste e sincero.
— Mas aí você apareceu no meio da poeira daquele hospital, segurando uma câmera e tentando salvar uma idosa que nem conhecia. E estragou todo o meu plano de não me importar com ninguém.
Gabriel puxou-a para perto, abraçando-a com força na penumbra da galeria. Ele rastejou os lábios pelo pescoço dela até tocar sua bochecha.
— Fico feliz por ter estragado esse plano — sussurrou ele.
Um estalo alto do lado de fora indicou que os saqueadores haviam se afastado. A rua estava limpa novamente. Gabriel olhou para Elena, renovado por um propósito que ia além da simples sobrevivência.
— O prédio do Leo fica na próxima quadra — disse ele. — Vamos buscar o meu irmão.
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PermalinkA Elena explica a paralisia do Gabriel como uma reação do cérebro, logo ela que acabou de contar que prometeu não deixar o afeto entrar no trabalho. Consola-o com a linguagem do protocolo. Se calhar é a única maneira que tem de dizer que também não conseguiu salvar a irmã.
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PermalinkArriégua, o Gabriel carregando a culpa daquele pai no carro esse tempo todo, e a gente achando que a câmera era só mania de fotógrafo! Agora cada vez que ele passar o dedo nela vai ser outra coisa pra mim.
E a Elena contando da irmã logo em seguida, os dois se abrindo no escuro com saqueador passando na rua. Aposto que o Leo não tá sozinho naquele prédio, visse.
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