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O último batimento - capítulo 6

lululua
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CAPÍTULO 6: O Refúgio de Vidro

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CAPÍTULO 6: O Refúgio de Vidro

A tempestade começou a se formar no final da tarde, trazendo nuvens escuras que anteciparam a noite em São Paulo. O som do trovão abafou os barulhos da cidade, mas a chuva iminente tornaria a visibilidade e a movimentação pelas ruas perigosas demais.

Buscando abrigo, Gabriel e Elena conseguiram entrar no saguão de um prédio residencial de alto padrão cujo portão fora deixado aberto. Após checarem os andares pelas escadas de emergência, subiram até a cobertura.

Lá em cima, isolada do resto do edifício, havia uma estufa de vidro desativada, cercada por plantas ornamentais que cresciam sem controle. O espaço oferecia uma visão panorâmica e aterrorizante de São Paulo em chamas sob o céu de chumbo, mas a altura garantia uma segurança inédita desde que o caos começara.

A chuva caiu pesada, batendo contra as placas de vidro reforçado do teto com um rito constante e hipnótico.

Gabriel encontrou alguns panos limpos e uma garrafa de água mineral intacta em um armário de manutenção. Ele se sentou em um banco de madeira sob a estrutura de vidro, abrindo a garrafa e oferecendo a Elena.

— Beba primeiro — disse ele.

Elena tomou alguns goles longos, sentindo a água limpar a garganta ressecada. Em seguida, sentou-se ao lado dele. A chuva lá fora parecia lavar, momentaneamente, o horror do dia.

— Onde você aprendeu a manter a calma sob pressão? — perguntou Gabriel, observando a tempestade lá fora. — No hospital, quando o vidro quebrou, você não hesitou por um segundo.

— Na medicina de emergência, se você entra em pânico, o paciente morre — Elena abraçou os próprios joelhos. — Aprendi a desligar as emoções. É uma técnica de autopreservação. Se eu me permitir sentir tudo o que acontece ao meu redor, eu quebro.

— E agora? O mundo inteiro é a emergência. Como você desliga?

Elena olhou para ele. A luz fraca dos raios refletia nas feições marcadas de Gabriel.

— Eu não consigo desligar agora — admitiu ela em um sussurro vulnerável, a voz quase sumindo sob o som da chuva. — Pela primeira vez em anos... estou com medo, Gabriel.

Gabriel virou-se para ela. Sem dizer uma palavra, ele envolveu os ombros dela com o braço, puxando-a para junto de si. Elena não resistiu. Ela encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o batimento cardíaco firme e compassado de Gabriel ressoar sob o tecido de sua jaqueta.

Era um ritmo constante, um lembrete vivo de que a humanidade ainda pulsava no meio daquela ruína.

— Eu também estou com medo — confessou Gabriel, descansando o queixo suavemente sobre os cabelos dela. — Mas estarmos aqui, juntos... faz esse peso parecer um pouco menor.

Elena ergueu o rosto para olhá-lo. A proximidade era absoluta. Gabriel desceu o olhar para os lábios dela e depois encontrou os olhos verdes de Elena. Não havia urgência de fuga, não havia criaturas arranhando portas, apenas os dois suspensos acima da cidade morta.

Gabriel aproximou seu rosto do dela devagar, dando a ela o espaço para recuar. Elena encurtou a pouca distância que restava, selando seus lábios nos dele em um beijo profundo, calmo e repleto de uma necessidade desesperada de vida.

O toque de Gabriel era suave, suas mãos emoldurando o rosto de Elena como se ela fosse a única coisa preciosa restante no mundo. O beijo não trazia o pânico da sobrevivência, mas a promessa de um porto seguro no centro do furacão.

Quando se separaram, mantiveram as testas encostadas, as respirações mescladas sob o som reconfortante do temporal no teto de vidro.

— Amanhã encontramos o seu irmão — disse Elena, com a mão pousada no peito dele, sentindo o calor do corpo de Gabriel.

— Amanhã — concordou Gabriel, apertando-a um pouco mais forte contra seu corpo. — Mas hoje à noite, ficamos aqui.

Thoughts

  • tintaDeTerca

    A Elena aprendeu a desligar tudo na emergência e agora não consegue mais. Isso eu reconheço de mulher que segura a casa: aguenta firme até o dia em que não tem onde apoiar. E o Gabriel dando a água pra ela beber primeiro já me disse quem ele é antes do beijo.

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  • soleioanoite

    Cê deixou o irmão do Gabriel pendurado lá no fim, e eu não confio nesse amanhã. Estufa de vidro no alto de prédio, com São Paulo queimando embaixo, é lugar bom demais pra durar, e aquele portão ficou aberto. Vai postar a continuação da busca pelo irmão do Gabriel?

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