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O último batimento - capítulo 5

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CAPÍTULO 5: Sangue e Poeira

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Pensamento

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NunoParreira

A Elena a enfiar o braço pelo vão do portão com o bisturi, logo ela que abre o capítulo a escolher as travessas por prudência. A médica que calcula tudo é a primeira a não pensar quando é ele que está do outro lado. E o Gabriel diz-lhe que não é robótica,

A Elena a enfiar o braço pelo vão do portão com o bisturi, logo ela que abre o capítulo a escolher as travessas por prudência. A médica que calcula tudo é a primeira a não pensar quando é ele que está do outro lado. E o Gabriel diz-lhe que não é robótica, o que me faz crer que alguém lho disse antes, lá atrás.

Conteúdo da publicação

CAPÍTULO 5: Sangue e Poeira

A descida pela escada de incêndio nas docas do hospital foi silenciosa e tensa. A luz da manhã revelava o cenário em detalhes cruéis: carros batidos com as portas abertas, pertences espalhados pelo asfalto e marcas de frenagem manchadas de sangue seco. O ar cheirava a borracha queimada e a uma podridão adocicada que começava a tomar a cidade.

— A rota mais rápida para o apartamento do Leo é subindo a Alameda Santos — disse Gabriel em tom baixo, agachado entre duas caminhonetes abandonadas. — Mas a avenida principal está completamente entulhada.

— Se formos pelas travessas residenciais, temos menos espaço para correr caso sejamos cercados — pontuou Elena, ajustando a alça do bastão de soro que carregava. — Mas temos mais pontos de fuga e prédios para nos esconder.

— As travessas, então.

A avanço era lento e extenuante. Cada portão metálico que balançava com o vento, cada alarme de carro disparado à distância fazia os dois pararem instantaneamente, colando as costas nas fachadas de concreto. A presença de Gabriel trazia um contraste curioso para Elena: ele se movia com a agilidade de quem conhecia cada canto daquela metrópole, enquanto ela trazia o olhar analítico de quem tentava antecipar os danos a cada esquina.

Quando cruzavam a metade da quarta quadra, um estrondo alto ecoou à direita.

A porta de vidro de uma farmácia se estilhaçou quando três infectados projetaram o corpo contra o caixilho. Diferente dos passos lentos de mortos-vivos de filmes antigos, aquelas criaturas reagiram ao som do vidro com uma explosão de velocidade doentia.

— Corre! — gritou Gabriel, segurando o pulso de Elena.

Eles dispararam pela calçada. O som dos passos desordenados e dos ganidos agudos atrás deles encurtava a distância a cada segundo. Elena olhou por cima do ombro e viu um dos infectados — um homem de terno rasgado com o pescoço grotescamente deformado — se aproximar perigosamente.

Gabriel virou bruscamente em um beco estreito que dava acesso aos fundos de um edifício comercial. A passagem era bloqueada por um portão de ferro pantográfico meio trancado, deixando uma fresta de pouco mais de meio metro.

— Passa primeiro! — ordenou Gabriel, virando-se de frente para a ameaça.

Elena deslizou pela fresta do portão. Ao se virar, viu o primeiro infectado se lançar sobre Gabriel.

Com um reflexo rápido, Gabriel ergueu o bastão de metal horizontalmente, bloqueando as mandíbulas da criatura a centímetros de seu rosto. O impacto o fez recuar contra as grades, e o peso do corpo do atacante começou a sobrecarregá-lo. O cheiro nauseante de sangue estragado envolveu o espaço.

— Gabriel! — Elena não pensou. Ela enfiou o braço pelo vão do portão e cravou o bisturi de metal com toda a força no pescoço do infectado, atingindo a carótida e cortando os feixes nervosos centrais.

A criatura desmontou no chão como um saco de areia.

Aproveitando o segundo de choque dos outros dois infectados que se aproximavam, Gabriel se espremeu pela abertura do portão. Elena rapidamente puxou uma corrente pendurada na trava e passou o cadeado pesado, trancando a passagem um segundo antes das criaturas colidirem contra a grade com violência animal.

Os dois caíram sentados no chão de paralelepípedo do beco, arfando pesadamente. O calor do sangue quente da criatura havia espirrado no rosto de Elena e nas mãos de Gabriel.

Gabriel olhou para Elena, os olhos arregalados pela adrenalina, a respiração entrecortada. Ele estendeu a mão e, com o polegar, limpou com extremo cuidado uma pingo de sangue na bochecha dela.

— Você salvou a minha vida — disse ele, a voz rouca.

— Título por título — respondeu Elena, deixando a cabeça pender para trás contra a parede gelada de tijolos. As mãos dela tremiam incontrolavelmente. — Acho que agora estamos quites.

Gabriel não recuou a mão. Ele deixou seus dedos subirem suavemente até a linha do maxilar dela, sentindo a calidez da pele de Elena sob a poeira da rua. O contraste entre a violência do lado de fora do portão e a fragilidade daquele toque congelou o tempo entre os dois.

— Você não é nada robótica, Dra. Vance — sussurrou ele, sorrindo de canto.

Elena fechou os olhos por um breve momento, saboreando a presença dele, o peso de sua mão que a mantinha ancorada na sanidade.

— Vamos sair daqui antes que mais deles ouçam o barulho — disse ela, embora não se afastasse do toque dele imediatamente.

Thoughts

  • Simao

    Os infectados a correr mal ouvem o vidro da farmácia. Epá, dos lentos ainda se fugia, destes não. O apartamento do Leo ainda tem alguém lá dentro?

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  • NunoParreira

    A Elena a enfiar o braço pelo vão do portão com o bisturi, logo ela que abre o capítulo a escolher as travessas por prudência. A médica que calcula tudo é a primeira a não pensar quando é ele que está do outro lado. E o Gabriel diz-lhe que não é robótica, o que me faz crer que alguém lho disse antes, lá atrás.

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