A Elena a deixar a lágrima correr sem a esconder desta vez ficou-me mais do que o beijo. Deu-me o alívio de ver alguém rijo durante a história toda finalmente sentar-se.
O último batimento - capítulo 11- final
CAPÍTULO 11: Além da Névoa
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A Elena a deixar a lágrima correr sem a esconder desta vez ficou-me mais do que o beijo. Deu-me o alívio de ver alguém rijo durante a história toda finalmente sentar-se.
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CAPÍTULO 11: Além da Névoa
O ruído ensurdecedor das pás do helicóptero de transporte militar parecia um trovão contínuo no interior da cabine de aço. Abaixo deles, a grande mancha urbana de São Paulo transformara-se em um mar de sombras cortado por pontos isolados de incêndios que queimavam sem controle na escuridão da noite.
Elena olhava através da pequena janela redonda de acrílico. As luzes que outrora definiam a maior metrópole da América do Sul apagavam-se uma a uma, engolidas por um silêncio sepulcral que alcançava os céus.
Ao seu lado, Leo dormia profundamente, exausto pela dor e pelo pavor do dia. Ele usava uma manta térmica prateada fornecida pela equipe médica de resgate e recebera a primeira dose de antibióticos intravenosos. A respiração do jovem era calma e ritmada.
Gabriel estava sentado no banco metálico ao lado de Elena. A mão dele mantinha-se firmemente entrelaçada à dela, os dedos calejados apertando os seus com uma constância que servia como o único ponto fixo em um mundo que desmoronara em menos de quarenta e oito horas.
A lente de sua câmera fotográfica estava trincada por causa do último confronto no portão do Pacaembu. Ainda assim, o equipamento continuava pendurado no seu pescoço — não mais como uma ferramenta de trabalho, mas como o testemunho silencioso do fim de uma era e do nascimento de outra.
— Para onde estão nos levando? — perguntou Gabriel em tom baixo, aproximando o rosto do de Elena para que a sua voz superasse o ruído dos motores.
— Para uma plataforma naval de acolhimento na costa e, depois, para uma zona de quarentena segura no sul do país — respondeu Elena, repassando as informações passadas pelo oficial médico na embarcação do estádio. — Disseram que o vírus foi contido nas regiões costeiras mais isoladas. Há comunidades sendo formadas lá.
Gabriel olhou para as mãos unidas dos dois.
— O mundo que conhecíamos acabou, Elena. Não existem mais hospitais como o seu, não existem jornais onde eu possa publicar minhas fotos. Tudo o que construímos até aqui virou poeira.
Elena virou o rosto na direção dele. Na luz alaranjada dos painéis de controle da aeronave, seus olhos verdes brilhavam sem a rigidez fria ou o distanciamento profissional que costumavam defini-la. Ela levou a mão livre ao rosto de Gabriel, acariciando o maxilar dele e sentindo o calor vivo de sua pele.
— O mundo antigo acabou, Gabriel — disse ela suavemente, deixando uma lágrima solitária abrir um rastro na poeira de sua bochecha, sem tentar escondê-la desta vez. — Mas nós não acabamos. Enquanto houver um único batimento no nosso peito, nós temos o dever de recomeçar.
Gabriel sorriu de canto, um sorriso farto e aquecido por uma esperança que resistira ao próprio apocalipse. Ele inclinou-se para a frente e selou seus lábios nos de Elena em um beijo calmo, profundo e repleto de promessas para o futuro incerto que os aguardava.
Lá fora, a aeronave cruzou a linha da serra em direção ao oceano, deixando a névoa da cidade destruída para trás. O horizonte sobre o mar começava a mostrar os primeiros vestígios de uma nova aurora — cinzenta, desconhecida, mas aberta para tudo o que eles construiriam juntos.
Thoughts
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PermalinkTu deixou o Leo dormindo com a manta prateada e o antibiótico na veia, fora do último diálogo. Desde o primeiro capítulo tu já sabia que ele ia atravessar o fim dormindo?
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PermalinkO batimento do título voltando na fala da Elena, dentro de um helicóptero com a cidade apagando embaixo, me fez pensar em como todo fim de mundo acaba numa conversa baixa entre duas pessoas. Aposto que essa zona de quarentena no sul ainda tem história guardada. Obrigado por levar isso até o final!
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PermalinkA Elena a deixar a lágrima correr sem a esconder desta vez ficou-me mais do que o beijo. Deu-me o alívio de ver alguém rijo durante a história toda finalmente sentar-se.
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