O Gabriel aparecer tão prontinho, voz firme, câmera na mão, bem na hora em que a Elena sai pro saguão, me deixou com o pé atrás. Desconfio dele. Vai postar a continuação da cena do vidro da recepção?
O último batimento
CAPÍTULO 1: O Sinal de Alerta
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O Gabriel aparecer tão prontinho, voz firme, câmera na mão, bem na hora em que a Elena sai pro saguão, me deixou com o pé atrás. Desconfio dele. Vai postar a continuação da cena do vidro da recepção?
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CAPÍTULO 1: O Sinal de Alerta
O cheiro de antisséptico no Hospital Central de São Paulo costumava ser um lembrete do controle humano sobre o caos. Para a Dra. Elena Vance, no entanto, aquele odor azedo misturado ao café queimado da sala dos médicos era apenas a assinatura de mais um plantão de trinta e seis horas.
Elena ajustou o estetoscópio no pescoço, piscando para espantar o ardor nos olhos. Às 04:12 da manhã, o pronto-socorro parecia um mar de luzes fluorescentes zumbindo sem parar.
— Dra. Elena, sala três! — chamou a enfermeira-chefe, com a voz ligeiramente alterada. Não era o tom calmo de quem atende um enfarte comum.
Elena entrou na sala de trauma e estancou. O paciente na maca era um homem na casa dos trinta anos, com a pele de um tom cinza-azulado terrível. Ele babava um líquido espesso e escuro, arranhando as grades de metal da maca com tanta força que suas unhas já haviam se quebrado, sangrando na lâmina de aço.
— Tentou morder o motorista da ambulância — disse o paramédico, limpando o suor do rosto. — Ele não responde ao sedativo. Aplicamos dez miligramas de diazepam e o pulso só faz subir.
— Batimento em 180... não, 195 — Elena aproximou-se, calçando as luvas de látex. — Senhor? Consegue me ouvir?
O homem virou o rosto na direção dela com um estalo seco no pescoço. Os olhos dele não tinham pupila visível, apenas uma película esbranquiçada tomada por vasos estourados. Ele soltou um rosnado gutural — não parecia um som humano, mas o ganido de uma fera encurralada — e projetou o corpo para a frente.
O metal da maca rangeu. As contenções de couro estalaram.
— Segurem ele! — gritou Elena, recuando um passo, o coração disparado.
Nesse exato momento, o teto do hospital pareceu tremer. Um estouro abafado ecoou do lado de fora, vindo da avenida principal. As luzes da sala piscaram duas vezes e apagaram, deixando apenas a iluminação vermelha de emergência acesa.
Elena saiu rapidamente para o corredor. O caos havia se instalado. As portas automáticas de vidro da entrada principal estavam sendo atingidas por pessoas desesperadas do lado de fora. Não eram apenas pacientes querendo entrar — eram transeuntes fugindo de algo.
No meio da multidão sufocante do saguão, um homem se destacava. Ele não vestia jaleco nem parecia ferido. Tinha uma câmera fotográfica tirada do pescoço, segurando-a como uma arma defensiva, e tentava proteger uma senhora idosa do pisotear iminente.
— Saiam da frente! Ajudem aqui! — a voz dele era firme, ressonante, cortando a gritaria.
Elena correu na direção deles, empurrando maca e pedestres. Ela ajudou o estranho a apoiar a senhora em uma cadeira de rodas. Foi quando os olhos dos dois se cruzaram pela primeira vez.
O homem tinha ombros largos, cabelos castanhos desalinhados e olhos de um castanho quente que contrastavam terrivelmente com o frio aterrador daquela madrugada. O rosto dele tinha respingos de poeira e uma gota de sangue no maxilar.
— Obrigado — ele disse, arfando. — Eu sou Gabriel.
— Elena. O que está acontecendo lá fora? — perguntou ela, checando a respiração da idosa.
— Não é um atentado. Não é um protesto — Gabriel segurou a câmera com as mãos trêmulas, mostrando o visor digital. A imagem mostrava a avenida central: carros em chamas,
pessoas no chão sendo atacadas por outras que se moviam com uma velocidade sobrenatural e grotesca. — As pessoas estão se devorando, médica. A cidade caiu em menos de duas horas.
Antes que Elena pudesse processar a frase, o vidro reforçado da recepção estilhaçou-se com um barulho ensurdecedor.
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Thoughts
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PermalinkUma cidade de doze milhões caindo em menos de duas horas. Aposto que a câmera do Gabriel é a única prova disso lá dentro, e alguém vai querer tirar ela dele.
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PermalinkO Gabriel aparecer tão prontinho, voz firme, câmera na mão, bem na hora em que a Elena sai pro saguão, me deixou com o pé atrás. Desconfio dele. Vai postar a continuação da cena do vidro da recepção?
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