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O último batimento capítulo 3

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CAPÍTULO 3: O Primeiro Toque

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CAPÍTULO 3: O Primeiro Toque

O ar dentro do almoxarifado tornou-se pesado conforme as horas se arrastavam. Apenas o zumbido fraco da iluminação de emergência e o barulho esporádico de arranhões na porta de aço lembravam Elena e Gabriel de que o mundo lá fora havia ruído.

Elena estava sentada sobre um lote de caixas de soro fisiológico, as pernas encolhidas contra o peito. Ela examinava o próprio jaleco branco, agora manchado com pingos de sangue anônimo. O tremor nas mãos, que ela conseguira reprimir no calor do momento, finalmente começava a se manifestar.

Gabriel, encostado na parede oposta, mexia nas configurações de sua câmera. Ele passava pelas fotos tiradas nas últimas vinte e quatro horas: imagens cotidianas da cidade, sorrisos de estranhos no metrô, a arquitetura urbana... e, subitamente, as últimas dezenas de frames inundados por pânico, rostos retorcidos e violência inexplicável.

— Você devia apagar isso — disse Elena, a voz rouca pela falta de uso.

— Fotografias são memórias fixadas no tempo — Gabriel respondeu, sem levantar os olhos da tela de cristal líquido. — Se esquecermos como tudo era há seis horas, não vai sobrar nada pelo que lutar.

Ele desligou a câmera e caminhou até ela. O som de seus passos no piso emborrachado fez Elena se ajeitar. Gabriel sentou-se ao seu lado nas caixas de papelão, guardando o equipamento na bolsa transversal.

— Deixe-me ver isso — disse ele, apontando para o pulso esquerdo de Elena.

Ela olhou para baixo e só então notou um arranhão profundo perto da articulação, coberto de poeira e com o sangue já coagulado. A adrenalina mascarara a dor.

— Foi quando abri a porta do corredor. É só um corte superficial — desconversou ela, tentando puxar o braço.

Gabriel, no entanto, segurou sua mão com gentileza. Seus dedos eram grandes, quentes e calejados pelo manuseio constante das lentes. A firmeza do toque fez Elena paralisar por um segundo. A urgência fria com que ela lidava com pacientes desapareceu, dando lugar a uma sensação estranha e desconcertante de vulnerabilidade.

— Você cuida de todo mundo, médica. Deixe alguém cuidar de você por dois minutos — murmurou Gabriel.

Ele pegou uma gaze e um frasco de antisséptico no prateleiro ao lado. Com cuidado meticuloso, limpou o ferimento. Elena soltou um arfar curto quando o líquido frio tocou a pele lacerada.

— Desculpe — disse ele, mantendo os olhos fixos na tarefa. — Meu pai era marceneiro. Aprendi a cuidar de cortes antes de aprender a usar uma câmera.

— E o seu irmão? — perguntou ela, buscando afastar a atenção do calor que subia por seu braço.

— O Leo é diferente de mim. Ele é artista, pinta telas. Veio para São Paulo para tentar entrar na faculdade de Artes Plásticas — Gabriel sorriu de canto, um gesto nostálgico e triste. — Ele é romântico demais para um mundo como este. Se eu não o encontrar... ele não dura três dias.

— Nós vamos encontrá-lo — Elena disse, e desta vez não era a médica pragmática falando, mas uma promessa sincera.

Gabriel terminou de enrolar a faixa no pulso dela e prendeu o esparadrapo. Seus olhos se encontraram novamente. Estavam a poucos centímetros de distância. Elena podia sentir a respiração ritmada dele contra sua bochecha. Na penumbra do almoxarifado, o isolamento criou uma ilusão temporária de segurança, onde o resto do mundo devastado parecia ter deixado de existir.

Gabriel não soltou a mão dela imediatamente. Ele polegou suavemente as costas da mão de Elena, um gesto simples de consolo que parecia carregar o peso de mil palavras não ditas.

— O seu coração está acelerado — observou ele, com um leve tom de provocação na voz grave.

— Reação fisiológica ao estresse térmico e à perda de sangue — respondeu ela, tentando manter o tom profissional, embora sua voz tenha falhado no final.

— Claro — Gabriel deu um sorriso caloroso. — Vamos fingir que é só isso.

Antes que ela pudesse responder, um estalo alto veio do duto de ventilação no teto. O barulho foi seguido por um silêncio absoluto no corredor exterior. Os impactos contra a porta de aço cessaram abruptamente.

O tempo de trégua havia terminado.

Thoughts

  • brunocosta

    Um irmão das lentes, outro das telas, e um pai marceneiro. Se calhar o Leo é o que saiu mais parecido com o pai.

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  • anogueira52

    Boa noite. O Gabriel contando que aprendeu a cuidar de corte antes de mexer em câmera, por causa do pai marceneiro, é o que ficou comigo desse capítulo. Quem cresceu perto de oficina conhece isso: a primeira coisa que ensinam é lavar o machucado e não fazer caso. Dá pra ver que ele puxou do pai também esse jeito de não largar a mão da pessoa antes da hora.

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  • TintaEAvesso

    Seis horas de fim do mundo e já tem mão na mão no almoxarifado, rápido pra caramba. Eu comprei mesmo assim, porque a Elena respondendo com estresse térmico e perda de sangue é o que alguém fala pra não admitir nada. Aposto que o Gabriel ainda vai jogar isso na cara dela.

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  • Ovid

    O Gabriel guardando as fotos do metrô junto com as do pânico, enquanto a Elena manda apagar tudo, me lembra como cada um reage diferente ao mesmo dia ruim: uns querem esquecer rápido, outros precisam do registro. Aposto que essa câmera ainda vai mostrar alguma coisa que eles não viram na hora. Sigo lendo!

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