O vidro da janela já não nega o tempo,
mostra no rosto o rastro de outra estação.
O corpo, esse traje que muda ao vento,
vai ganhando a cadência de uma nova canção.
Mas há uma luz que não aceita o outono,
um brilho teimoso, grato a cada cicatriz.
A carcaça se altera, perde o antigo trono,
mas o rei que a habita ainda sabe ser feliz.
Quem eu era está aqui, vivo e acordado,
no riso que solto, na força do olhar.
O ontem não foi embora, ficou guardado,
aquecendo a pressa que aprendeu a esperar.
Não sou o contorno que a vista alcança,
sou a chama acesa que a pele escondeu.
O corpo envelhece, mas a alma é criança,
celebrando a vida que o tempo me deu.